O lugar mais underground de Vitória

Conheça a Sala Pós-Cirúrgica, espaço cultural que realiza eventos com música autoral e artes visuais

Na Rua Professor Baltazar, subindo uma ladeira de paralelepípedo em direção à Catedral de Vitória, uma casa espremida entre outras chama atenção dos mais atentos pelos graffitis, que ocupam a fachada e também a varanda superior, por vezes ocupadas por jovens que parecem se divertir. Uma vez por mês, aos sábados, o local, denominado como Sala Pós-Cirúrgica, costuma receber shows e exposições, ajudando a mover a cena artística do Centro de Vitória, que tem seus constantes altos e baixos.

Graffiti é parte da arte que compõe a Sala Pós-Cirúrgica. Foto: Vitor Taveira

Um estreito portão, escadas, uma sala vazia com pichações, uma porta com uma placa que diz “Serviço de criminalística” são só o aperitivo desse espaço que, desde agosto de 2019, compõe a cena “underground” capixaba. Mas é subindo as escadas para o segundo andar que encontramos, primeiramente, uma ante-sala com galeria que expõe obras de um artista local a cada evento.

Na segunda sala, que emenda com a varanda, um tapete faz as vezes de palco e as bandas arrumam o som para apresentar sua música, sempre autoral. Luz verde, desenhos e graffitis, um manequim com adesivos e mensagens em caneta, teclados e uma guitarra quebrados, fazem parte da decoração, que inclui também um vaso sanitário feito de cinzeiro na varanda. “Muita coisa aqui a gente achou na rua”, diz Mario Schiavini, um dos produtores culturais do espaço, junto com Igor Dettmann, ambos estudantes de Música da Ufes e integrantes das bandas Ella Fritadjeli Trio, Gadus Morhua e Tegwa.

Mario e Igor, moradores, músicos e produtores culturais. Foto: Vitor Taveira

Os dois alugaram a casa com intuito de morar, sem a ideia inicial de usá-lo como espaço cultural. “Quando mudamos, vimos que tinha muito espaço vazio na casa e não tínhamos móveis. Mas tínhamos muitos instrumentos”, relata Igor. A forma de ocupar o espaço vazio lhes pareceu natural. Mudaram em julho e já em agosto aconteceu o primeiro evento. Desde lá, a cada mês, uma atividade cultural, com seis edições já realizadas e dezenas de artistas envolvidos.

O esquema é o seguinte: a bilheteria fica inteiramente para as bandas e a casa vende bebidas, camisas e outras coisas. O valor da entrada é escolhido pelas próprias bandas de acordo com seu público e costuma variar entre R$ 5 e R$ 10. As datas também são eleitas pelas bandas, geralmente duas ou três por evento, de acordo com a melhor conveniência para elas. Por vezes, são grupos com sons similares, mas em outras os produtores preferem misturar estilos. A única regra é ser música autoral, com composições próprias, ajudando a manter a cena que vem sendo construída nos últimos anos no Espírito Santo, mas que carece de espaços, já que muitos não se interessam pelo autoral e os que apostam nele por vezes têm curto tempo de existência.

Na Sala Pós-Cirúrgica, quando é dia de evento, é preciso mover algumas coisas. A geladeira vai para o quarto de Igor, que se transforma no bar e também camarim para os artistas. O sofá vai para a varanda, para dar espaço para abanda e também para atender ao gosto do público capixaba de concentrar-se principalmente na parte externa dos locais. No total, a casa recebe entre 60 e 70 pessoas por evento.

Apresentação do duo A Transe em uma das noites culturais da casa. Foto: Vitor Taveira

Os eventos começam cedo, para acabar antes das 22h e evitar qualquer perturbação para os vizinhos, como já vinham fazendo outros espaços alternativos na cidade. A única reclamação recebida foi em relação às pichações, denunciadas por uma vizinha à polícia achando que eram ilegais, e terminando publicadas em um jornal como se fossem “vandalismo”. Mas não eram. A pedido de grafiteiros, as pinturas foram autorizadas pelos inquilinos e compõem as paredes das partes interna e externa da casa, com exceção do espaço da galeria, cujas paredes são utilizadas pelos artistas que expõem a cada evento, podendo também vender suas obras.

Geralmente, o mesmo artista expositor também é convidado para fazer a arte de divulgação do evento, que é impressa em papel, divulgada no Instagram da Sala Pós-Cirúrgica e também impressa em camisas, já que numa das salas da casa funciona o ateliê de serigrafia Um Quarto Escuro. É de praxe da casa fazer o sorteio de uma delas entre os participantes de cada evento.

É a boa e velha correria que sustenta a cena alternativa, que sempre existe resistindo. Vale a pena mais pela movimentação, não tanto pela grana, considera Igor. Além de shows, exposições e serigrafia Sala Pós-Cirúrgica também recebe ensaios de banda e pretende num futuro próximo instalar um home studio para a gravações. O próximo evento será no sábado (25), com início às 18h, com as bandas Gastação Infinita, Madellena e Volapoque, além de exposição de Patrick Trugilho. 

Objetos em desuso ou encontrados na rua fazem a decoração. Foto: Vitor Taveira

Quem chegou até aqui na leitura pode estar se perguntando desde o início: mas porquê o estranho nome de Sala Pós-Cirúrgica? A inspiração é mais prática do que uma abstração. Em anexo à casa funciona uma pequena fábrica que produz cintas pós-cirúrgicas, comercializadas numa loja nas proximidades. Daí veio a brincadeiras de chamar o local com esse nome. “Nós pensamos que passando pela rua as pessoas veriam a placa da loja e entenderiam”, disse Igor, contente com o fato de isso não acontecer, o que permite que os visitantes possam “viajar” pensando sobre o sentido do peculiar nome escolhido para o centro cultural.

AGENDA CULTURAL

Noite cultural na Sala Pós Cirúrgica

Atrações: Shows com Gastação Infinita, Madellena e Volapoque e exposição de Patrick Trugilho

Quando: Sábado, 25 de janeiro, de 18h às 22h

Onde: Rua Professor Baltazar, 123, Centro de Vitória

Entrada: R$ 10

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para mantê-lo ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Matérias Relacionadas

Fabio Pinel mostra seu dom de cantar

Sambista da nova geração do Espírito Santo lança seu primeiro álbum de obras autorais

Poetisa popular ganha homenagem nos muros da Serra

Na coluna: hinos do carnaval, novo ateliê no Centro, livros censurados em exposição, Carnaval de Congo

Reciclafolia já aproveitou mais de 50 toneladas de fantasias no carnaval

Projeto surgiu de moradores do entorno do Sambão do Povo preocupados com descarte incorreto pós-desfiles

Boa Vista é bicampeã do Carnaval de Vitória em 2020

Com enredo sobre a música capixaba, escola de samba de Cariacica chegou ao sexto título em sua história