‘O primeiro alvo de um governo autoritário é tentar destruir a educação’

Em discurso na Ufes, Guilherme Boulos criticou Bolsonaro, ministro da Educação e fala de Capitão Assumção

Fotos: Leonardo Sá

Educação foi o eixo central da fala de Guilherme Boulos na noite de quinta-feira (19) em evento na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Cerca de 500 pessoas ouviram o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e ex-candidato à presidência da República pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol).

“O primeiro alvo de qualquer governo autoritário é tentar destruir a educação. É tentar silenciar o pensamento crítico, é tentar atacar quem questiona. É isso que eles estão tentando fazer com o país”, afirmou Boulos, que não poupou críticas ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) e ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, a quem definiu como “pior cidadão que já ocupou essa cadeira”, chamando-o de desqualificado, mentiroso e inimigo da educação pública, sugerindo que seria mais adequado que ocupasse o “Ministério da Ignorância”.

No dia em que se completava 98 anos de Paulo Freire, Guilherme Boulos lembrou do legado do patrono da Educação no Brasil e aproveitou para ironizar. “Quem é que vai lembrar quando completar 98 anos do aniversário do Weintraub? Vai pra lata de lixo da história. Essa gente vai passar, essa escória vai passar. Paulo Freire vai ficar e nossa luta vai ficar, não tenham dúvida disso”, afirmou sob risos e aplausos.

Uma das principais críticas do líder de esquerda foi ao projeto Future-se, proposta do governo Bolsonaro para as universidades federais do país, que entende que faz parte de uma estratégia para silenciar e domesticar a educação, submetendo-a a interesses privados.

“Apresentaram numa jogada de marketing o Future-se como se fosse a modernização do ensino superior, a solução para o financiamento da pesquisa e da ciência, a internacionalização da universidade. O Future-se é uma tentativa de privatizar o ensino superior no país”, disse citando a proposta de cobrança de mensalidades nos cursos de pós-graduação e principalmente o fato de colocar nas mãos de empresas o financiamento de pesquisas. “Nós sabemos muito bem, e eles sabem também: quem paga a banda é que escolhe a música. Empresa que financia pesquisa vai definir o rumo da pesquisa, pra que serve a pesquisa, o que vai ser pesquisado”. É assim que funciona em todas partes do mundo”. 

O ex-candidato presidencial criticou essa lógica para a ciência nacional, reforçando que uma ciência pública precisa garantir os interesses da sociedade e não do mercado. Por isso o financiamento público pelo estado brasileiro é o que garante autonomia e soberania sobre as pesquisas realizadas.

A visão sobre a ciência reflete a visão de de desenvolvimento do país do atual governo, que Boulos definiu como um “projeto de destruição nacional”.”O que Bolsonaro fez desde o dia 1 de janeiro até aqui foram atos de guerra. É um presidente de guerra, que tem como inimigo seu próprio povo”, considerou lembrando dos ataques não só à educação mas também no meio ambiente, citando o caso das queimadas criminosas na Amazônia e lembrando da destruição provocada pelos crimes socioambientais da Vale, que também afetaram o Espírito Santo.

Boulos ressaltou que o projeto do governo Bolsonaro não é uma ameaça apenas para os próximos três anos que restam de mandato, mas para as próximas gerações e o futuro do Brasil. “Tem que ser barrado a tempo”. Ele ainda criticou a inércia do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em investigar o caso das fake news usadas nas eleições pela candidatura vencedora. “Uma chapa que foi eleita com base na mentira, espalhando mentiras pelo Brasil”, questionou.

O integrante do Psol destacou os elementos que considera essenciais para o campo progressista enfrentar o difícil momento que o país enfrenta: unidade, combatividade e não abrir mão do que se acredita. Considera que as diferenças dentro do campo de oposição de esquerda são menores perto das diferenças entre estas e o governo Bolsonaro. Criticou os oposicionistas que resumem sua atuação às redes sociais e participações em colóquios e conclamou o povo a tomar as ruas. “No parlamento temos uma oposição que nos orgulha, mas lá somos minoria. A condição para derrotar esse projeto em que a gente pode ser maioria é nas ruas do Brasil. Esse é o caminho para o próximo período”, apontou.

Boulos lembrou ainda dos heróis do povo brasileiro que lutaram por liberdade, desde Zumbi e Antônio Conselheiro, aos que enfrentaram a ditadura e lutaram pela liberdade que temos hoje, ao contrário de Brilhante Ustra, o torturador considerado herói pelo atual presidente. Também critiou as declaração do deputado estadual Capitão Assumção (PSL), que na tribuna da Assembleia Legislativa ofereceu R$ 10 mil a quem assassinasse um criminoso. “A fala desse deputado chocou e envergonhou não só a vocês, envergonhou a todos nós, a todo país. Lamentavelmente não é um acontecimento isolado, é um sintoma do que a gente tem vivido hoje no país”.

Boulos encerrou lembrando de algum dos sonhos inspirados nas antigas gerações e dos quais não se deve desistir, como a luta por uma sociedade com igualdade de oportunidades, com casa dignar para morar, terra para plantar, sem lgbtfobia, com liberdade religiosa, igualdade de gênero, em que a vida esteja acima do lucro.

“Não tenho dúvida de que nossa caminhada é dura e longa, que tem espinhos, tem desertos. Não tenho dúvida de que ao longo dessa caminhada, aconteça o que acontecer, tentarem como tentam nos desmoralizar, não tenham dúvida jamais de que estamos no lado certo da história. Isso vai ser lembrado. Isso não tem preço e vai ser com essa cabeça erguida que vamos caminhar”, finalizou Guilherme Boulos.

O término de sua fala foi seguido por um coro da multidão: "Aqui está o povo sem medo, sem medo de lutar”.

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