O último comerciante do Mercado da Capixaba

Mauricio retira últimos pertences de onde trabalhou por 41 anos, sem garantia de voltar depois da reforma

Era 1977 quando o baiano Mauricio Rosa da Silva e seu irmão Leônidas chegaram a Vitória vindos de sua terra natal, Feira de Santana. De família de artesãos, estavam decididos a abrir uma loja. No ano seguinte surgia o Artesanato Artes Bahia, localizado numa dos espaços do edifício do Mercado da Capixaba, local histórico do comércio do Centro de Vitória.

Dois anos depois, passou a ocupar o pátio interno do mercado, que estava abandonado e depois havia sido convertido em estacionamento. Ali mudou também o nome do estabelecimento definitivamente para Mercado Capixaba de Artesanato, fincando raízes locais, junto com quase toda família. Doze de seus treze irmãos vieram morar em Vitória e trabalham junto à loja como vendedores ou artesãos.


Foto: Acervo pessoal

No último dia 31 de dezembro, esgotou-se o prazo dado pela Prefeitura Municipal de Vitória (PMV) para que as últimas e poucas lojas que restavam no local encerrassem o comércio e Maurício teve que fechar o estabelecimento. Agora restam prateleiras quase vazias, restos de artesanatos, móveis desordenados e as vigas de ferro que sustentavam as telhas que cobriam a loja e foram retiradas.

Com a mesma serenidade que fala do fim de uma história de quatro décadas, Mauricio posa para fotos nesse cenário pós-apocalíptico. Sorri na bancada de atendimento tendo como fundo as 16 multas de R$ 850,27 que tomou da prefeitura por abrir após notificação de interdição pelo Corpo de Bombeiros em novembro. Mas as multas e prazos de saída acabaram sendo renegociadas.

Por quase 41 anos foi ali naquele mercado que ele não só sustentou, mas construiu sua família. Conta que certa vez uma jovem comerciante de cosméticos das proximidades entrou na loja, se olharam e rolou um clima. Sueli, falecida em 2016, foi a primeira namorada de Maurício, e depois se casaram, tiveram filhos e netos. O comerciante lembra de conhecer Gerson Camata, ainda radialista e solteiro, que morava no entorno. Evangélico, também recorda dos tempos em que faziam reuniões todos os sábados para dar apoio a recuperação de usuários de drogas, muitos deles que hoje vê com satisfação seguirem sua vida livres do vício.

Foto: Vitor Taveira

O que mais valoriza, porém, eram os mais antigos que vinham contar dos tempos que ele não tinha vivido, as memórias do local, construído em 1926, no lugar onde antes se encontrava o antigo Mercado Municipal, no qual as mercadorias chegavam de barco às suas portas antes do aterro.“É um legado que fica. A vida é de ciclos, vai passando...”. Mauricio se tornou um desses, conta as histórias com nostalgia e afeto.

Nos últimos momentos antes de fechar, o local tinha panelas de barro, artefatos de couro vindos da Bahia, artesanatos de cipó de Marataízes e Domingos Martins, coisas de madeira, barro, cerâmica, além de ter acolhido livros e relíquias que compunham um pequeno sebo e um antiquário no local. Dos treze irmãos e cinco funcionários que já trabalhavam simultaneamente ali, restavam apenas Mauricio e seu irmão mais novo, Natan, que chegou a Vitória com 13 anos na década de 80. Ainda restavam 35 artesãos inscritos que deixavam produtos para vender consignados, e carrinhos de vendedores ambulantes que guardava em troca de uma contribuição mensal. “Se fosse pensar em ganhar dinheiro mesmo, não ficava aqui, não”, conta.

Dos tempos áureos dos anos 80 ao início dos 2000, o comércio foi caindo bruscamente com as mudanças das dinâmicas da cidade e o esvaziamento do Centro de Vitória. Estima que no ano passado vendia entre 10% a 20% do que já chegou a comercializar. O fim era iminente e Mauricio o aguardava conformado.

Está previsto para em breve se iniciar uma ampla reforma no edifício que pegou fogo em 2002 e que, ao invés de ser revitalizado, foi abandonado. O que restou do mercado será transformado num espaço gastronômico e cultural gerenciado pela iniciativa privada, que segundo a PMV poderá abrigar lojas de artesanato e produtos orgânicos e agroecológicos, além de bares, restaurantes e choperias. As entradas nas ruas laterais serão recuperadas e reabertas e uma delas será uma rua exclusiva para pedestres.

Mauricio vê com bons olhos a revitalização do mercado, em que o pátio onde estava sua loja deve virar um espaço gourmet com bares e restaurantes. “Trouxeram um grupo de empresários do ramo para visitar e ficaram impressionados, entusiasmados com o local”, conta. Não descarta seguir com seu comércio ali, mas esperava um convite e condições de aluguel que não sejam abusivas, como o que considera que ocorreu com os quiosques da Praia de Camburi.

Mas no novo e moderno projeto do Mercado da Capixaba, o homem com 41 anos de história ali é mais um. Teria que concorrer com todos os outros, quem pagar melhor entra. Nas cidades da gentrificação, pessoas podem se tornar descartáveis, lugares insípidos, desprovidos de memória. “Queria passar experiência para quem vai tocar em frente”, diz lembrando dos antigos com que aprendeu sobre o lugar.

Mágoa não há no lamento de Mauricio. Mas confessa certa decepção, embora busque uma palavra melhor para expressar o que sente. Falta atenção do poder público a esses guardiões da memória. Lembra do descaso com que foi tratado o amigo Golias, tradicional comerciante de discos que passou por dificuldades e falta de reconhecimento em relação à sua trajetória. É como se recordando o amigo comerciante, Mauricio falasse de si mesmo, algo que a humildade não permitiria.


Foto: Vitor Taveira

Diante do fim de um ciclo, até vê outras oportunidades. Está cansado. Mora em Manguinhos, na Serra, e faz o longo trajeto todos os dias há 35 anos. Por isso, pensa em abrir novo negócio no município onde reside. “Se eu ficar por lá minha qualidade de vida melhora, posso acordar mais tarde, ir à praia”, comenta. Embora antes pense em descansar um tempo. “Dizem que o Brasil só começa depois do carnaval...”, afirma colocando uma possível data de retorno, enquanto tenta vender alguns dos produtos pela internet, pelo site OLX.

Mesmo se não voltar a ter um comércio no Mercado da Capixaba, após a reforma pretende continuar frequentando, passeando e reavivando as memórias que tanto valora. “Isso aqui foi minha vida, quero usufruir, sentar, comer, conversar com os vizinhos. Não posso deixar de vir. Não tenho nenhum rancor, o que fica é o saudosismo, a saudade das pessoas”.

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