Omissão histórica

Classe política reage a mais um crime da Vale. O problema é que essa 'onda de indignação' passa rápido...

Assim como ocorreu em 2015, após o primeiro crime da Samarco/Vale-BHP relacionado ao rompimento de barragens, a classe política no Espírito Santo se mobiliza para manifestar solidariedade, apresentar ações e criticar a mineradora. O caso, de fato, é digno de muita comoção e revolta. O problema é que, salvo raríssimas exceções, essa “reação em cadeia” costuma ser passageira, não só sobre este assunto, mas em todas as questões envolvendo a atuação da Vale, como a poluição do ar que castiga diuturnamente os capixabas, principalmente nesta época do ano. Passa governo, entra governo; prefeituras; deputados estaduais e federais; senadores; vereadores; e até ministérios públicos Estadual (MPES) e Federal (MPF), e a mineradora é protegida por um forte esquema de blindagem, o que permite sua impunidade histórica. No crime da Samarco, apesar das negligências e manobras das empresas criminosas para não arcar com sua responsabilidade e culpa, a aparente indignação da classe política logo deu lugar a uma campanha massiva em prol do retorno das operações da empresa em Anchieta, sul do Estado. Mesma voz nunca tiveram, porém, os atingidos, até hoje numa luta desumana para garantia de inúmeros direitos sonegados. Em relação à poluição do ar, então, nem se fala! Como se trata de “uma morte lenta e silenciosa” à saúde dos moradores da região metropolitana, a Vale faz o que bem entende, sem ser incomodada. Ao invés de punida e cobrada com rigor, recebe de presente a assinatura de termos de compromisso sem qualquer efeito prático na redução dos elevados índices de poluentes do ar e recursos hídricos. Tudo com conivência, silêncio e tapete vermelho do poder público, que agora tenta se posicionar contra a Vale, depois de décadas de omissão. Até quando? 

Insuportável
Por falar em poluição, o deputado estadual Sergio Majeski (PSB) aponta, em suas redes sociais, que muitas pessoas têm reclamado do pó de minério nos últimos dias em Vitória, principalmente em Jardim da Penha, Jardim Camburi e Mata da Praia. E pergunta: “Você acha que eu seu bairro também aumentou?”. As respostas dão a exata dimensão do dano: todos os bairros da Capital, até Vila Velha.

Crime reincidente
A propósito, Majeski se pronunciou sobre Brumadinho. “Não, não é um acidente e nem uma fatalidade, é mais um CRIME causado pelas relações promíscuas e corruptas entre o poder público e o privado, como se fossem ‘legais e constitucionais". E o governo federal ainda quer "flexibilizar" a legislação ambiental. Deus tenha piedade dessa nação!”. 

Crime reincidente II
Já Léo de Castro, presidente da Federação das Indústrias (Findes), que abriga o ex-presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, em comunicado enviado a empresários nesta segunda-feira (28) para debater a questão, diz que compreende a “forte emoção e compaixão despertados em todos nós em razão do acidente”. Acidente, não, Léo de Castro, crime! 

Voluntariado de luxo
O presidente da Findes insiste, também, em afirmar que Vescovi não recebe para trabalhar, mas está longe de convencer. Um empresário como Vescovi...(nos bastidores, comentários são de um salário gordo: R$ 35 mil). 

Voluntariado de luxo II
Na época do crime da Samarco/Vale-BHP, Vescovi assistiu à derrocada de sua até então brilhante carreira empresarial, alvo de críticas e processos judiciais por homicídio. Foi para geladeira, sendo salvo em 2017 por Léo de Castro, quando a poeira já havia baixado, batendo na porta da impunidade. Pela tese da Findes, Vescovi trabalha há quase dois anos de graça.

Valem nada
Outros pontos da conhecida conivência registrada no Estado: que fim levaram as investigações das Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) do Pó Preto da Assembleia Legislativa e Câmara de Vitória? E as multas ambientais e o não cumprimento pela Vale de condicionantes antigas, que não impediram, por outro lado, que a mineradora continuasse a receber licenças para poluir? Só a mineradora não Vale nada? 

Revolta seletiva
Não precisa ir tão longe. Único prefeito do Estado a combater a mineradora na época do crime da Samarco, Neto Barros (PCdoB), de Baixo Guandu (noroeste do Estado), foi recentemente ameaçado de processo judicial pela Vale, por suas posições. Antes, militantes de entidades sociais também foram alvo de ações, por protestarem contra a mineradora. A classe política fingiu que não viu.

Cheiro de morte
Em 2015, uma intervenção artística realizada em frente à entrada do Complexo de Tubarão, protestava: “A Vale tem cheiro de morte. A Samarco tem cheiro de morte. O Rio Doce tem cheiro de morte. Quem vai pagar? Tem preço? Chega! Assassina!”. De nada adiantou o grito de “basta!”. Ninguém para a Vale!

Tudo em casa
Nunca é demais lembrar que o atual diretor-presidente do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), Alaimar Fiuza, trabalhou na Vale por 30 anos. A não ser as entidades ambientalistas, não houve berros nem questionamentos da classe política diante de tamanha contradição. Definitivamente, não dá pra ter esperanças.

PENSAMENTO:
“A Vale não enxerga razões determinantes de sua responsabilidade. Não houve negligência, imprudência, imperícia". Advogado da Vale, Sergio Bermudes, ao jornal Folha de S.Paulo.

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1 Comentários
  • Paulo Márcio Mattos Silva , quinta, 31 de janeiro de 2019

    Nesse momento, vigílias, protestos, ações de solidariedade diversas, mobilizações de órgãos do judiciário e denúncias ocorrem por todos os cantos da nação. Mas, em três meses, os órgãos e sujeitos envolvidos em todos os movimentos, mais a patuleia, vão começar a esquecer a tudo, inclusive que essas empresas SA financiadoras de campanhas de muitos políticos que andam por aí caladinhos, sem um pingo de moral para levantarem suas vozes em favor do povo.