Organizações capixabas repudiam contratação do ex-goleiro Bruno pelo São Mateus

Jogador foi condenado por homicídio triplamente qualificado pelo assassinato de Eliza Samudio

Vinte e oito organizações divulgaram, nesta sexta-feira (7), um manifesto de repúdio contra a contratação do ex-goleiro Bruno pelo time de futebol São Mateus, norte do Espírito Santo. O jogador foi condenado em 2013 por homicídio triplamente qualificado pelo assassinado de Eliza Samudio, sua ex-namorada e mãe de seu filho Bruninho. 

Nesta semana, Bruno assinou contrato com um time amador de Varginha, Minas Gerais, mas ainda negocia com o clube capixaba, apesar das resistências e críticas.

"Consideramos uma afronta a todas as mulheres capixabas que qualquer clube de futebol do Espírito Santo contrate para seu time um ex-atleta condenado pelo assassinato de uma mulher. E por isso mesmo, já recusado em outros estados", protesta a carta aberta, alertando que o Espírito Santo, "para nossa indignação e vergonha", está entre os estados com maior índice de feminicídios do País, objeto de incontáveis denúncias das organizações de mulheres e de direitos humanos.

As entidades lembram que o ex-jogador do Flamengo foi condenado pela Justiça de Minas Gerais a 17 anos e seis meses de prisão em regime fechado por homicídio triplamente qualificado (por motivo torpe, asfixia e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima), a outros três anos e três meses em regime aberto por sequestro e cárcere privado e, ainda a um ano e seis meses por ocultação de cadáver. "A frieza e os requintes de crueldade utilizados no assassinato de Eliza Silva Samudio são estarrecedores", reforçam.

As 28 organizações acreditam que todas as pessoas privadas de liberdade, ao serem soltas, têm direito a oportunidades de trabalho como forma de sustento e para retomar sua vida. Mas se dizem espantadas que um ex-goleiro, sem treinar há dez anos, seja procurado por tantos times, e também com a "frieza dos dirigentes dos clubes que enxergam a contratação como uma jogada de marketing, confundindo ressocialização com cinismo e revelando a banalidade do feminicídio num meio dominado pelo comando masculino".

A carta ressalta que o "tratamento de estrela dedicado ao Bruno tira o peso da consciência social e da defesa da vida em favor da finalidade econômica. E ainda mais espantoso é o tratamento dado à memória do sofrimento e da retirada cruel da vida de Eliza Samudio e que esse fato seja apagado em diversas análises de defesa do criminoso. Na realidade, o patriarcado legitima a retirada de nossas vidas e tenta apagar nossas histórias", pontuam.

Para as entidades, no Brasil, o “país do futebol", essa é a atividade cultural e esportiva que tradicionalmente mais produz ídolos, o que faz aumentar a responsabilidade dos dirigentes dos clubes de futebol na formação das crianças, adolescentes e jovens. A contratação do ex-goleiro, neste caso, "naturaliza a violência que sofrem todas as mulheres nesse Estado e no Brasil". Neste sentido, apelam para que os dirigentes e a própria federação percebam a oportunidade que se apresenta para demarcar posição de caráter educativo e pedagógico. 

O documento manifesta ainda solidariedade e apoio ao Coletivo de Mulheres de São Mateus (Belas), pela iniciativa de repudiar a anunciada contratação do ex-goleiro. "Destacamos os argumentos levantados pela entidade representativa das mulheres daquele município, entre os quais, o de que não se pode 'alçar a título de ídolo futebolista da cidade alguém condenado por assassinato qualificado de uma mulher, hoje, crime tipificado como feminicídio”.  

Assinam a carta a Associação de Mulheres Buscando Libertação de Cariacica (Amucabuli); Associação de Mulheres Unidas da Serra (Amus); Associação de Mulheres Negras e Quilombolas de Sapê do Norte e São Mateus; Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Serra (CDDH-Serra); Coletiva Maria vai com Outras para a Luta; Coletivo Dona Astrogilda - Aracruz/ES; Coletivo de Mulheres de São Mateus – Belas; Coletivo de Mulheres de Terra Vermelha-Vila Velha; Coletivo de Mulheres Lésbicas da Grande Vitoria Santa Sapataria; Conlutas Central Sindical e Popular (CSP); Diretório Central dos Estudantes UFES (DCE UFES); Fórum de Mulheres do Espírito Santo (Fomes)/AMB; Flores Nômades Companhia de Teatro; Frente pela Legalização do Aborto ES; Grupo de Mulheres de Castelo Branco; Instituto de Desenvolvimento Sócio Econômico dos Trabalhadores de Baixa Renda (Idesbre); Levante Popular da Juventude; Marcha Mundial de Mulheres ES; Movimento de Mulheres Camponesas/ES; Movimento de Mulheres em Luta; Movimento de Mulheres Negras de Colatina e Região Zacimba Gaba; Movimento de Mulheres que Lutam – Guarapari; Núcleo Estadual impulsor da Marcha das Mulheres Negras do ES; PSTU; Secretaria Estadual de Mulheres do PCdoB; Setorial de Mulheres do Psol; Sindibancários/ES e Sindlimpe/ES.

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1 Comentários
  • Estanislau Tallon Bozi , terça, 11 de fevereiro de 2020

    Protesto absurdo! Se a lei está sendo cumprida e a sociedade pensa que o presidiário ou ex-presidiário deve se ressocializado e trabalhar, as pessoas deveriam estar apoiando seu empregador e o trabalhador, independentemente da natureza do delito cometido, pois ninguém parece duvidar do caráter redentor do trabalho.

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