'Prefeitura deveria ouvir propostas dos blocos para o Carnaval'

Édson Bomfim, do Bloco Afro Kizomba, aponta limitações na organização das festas no Centro de Vitória

O Carnaval de Vitória este ano teve grandes proporções, ocupando especialmente o Centro da cidade com vários blocos e shows que mobilizaram milhares de pessoas a cada dia. 

Foram muitas alegrias mas também vários problemas apontados pelos foliões e moradores do entorno. Poucos banheiros e lixeiras, blocos com pouco tempo e espaço para se deslocar, carros de som madrugada adentro, repressão policial. Não tiram o brilho da festa, mas podem trazer reflexões sobre o carnaval de rua, que, assim como em outras capitais do Brasil, vem crescendo nos últimos anos.

“A prefeitura deveria dar oportunidade para que os blocos possam mostrar suas propostas para o carnaval. A forma de pensar o carnaval está muito distante para uma atividade cultural de tanta importância”, disse Édson Bomfim, um dos integrantes do Bloco Afro Kizomba, que saiu este ano pela segunda vez.

Embora avalie o resultado e recepção do público ao bloco como um sucesso, ele relatou dificuldades no processo de preparação, especialmente no diálogo com o poder público. Mesmo tendo feito solicitação de liberação no dia 11 de outubro do ano passado, ele alega que o Afro Kizomba só teve efetiva liberação do alvará às 17h do dia 1º de março, menos de 24h antes do início do bloco. Na ausência da polícia de trânsito, que chegou uma hora depois do início da concentração, os próprios integrantes tiveram que improvisar o isolamento do local para evitar acidentes.

A definição junto à prefeitura sobre o trajeto do bloco, focado na luta contra o racismo e valorização da cultura negra, também teve dificuldades, segundo Bomfim, mesmo sendo um bloco que não passa pelas principais avenidas do Centro de Vitória. “Tivemos duas grandes surpresas em nosso trajeto, primeiro a presença de helicóptero da Policia Militar tanto na nossa concentração, como acompanhando o desfile na altura da Rua Graciliano Ramos, o que de imediato me causou estranhamento; a segunda surpresa, veio por parte da apresentação de uma banda em plena Praça Costa Pereira, com o impedimento da passagem do bloco por esta, o que nos obrigou a reduzir ainda mais o nosso roteiro”.

Nas grandes avenidas, algo esquisito com os desfilesm que mais pareciam shows. Com algumas horas para realizar suas apresentações, muitos blocos tinham trajetos bastante limitados, o que implicou que ficassem praticamente parados, diferentes da tradição do carnaval brasileiro, incluindo o de Vitória, em que desfiles de batucadas e escolas de samba aconteceram por muitos anos ao longo da Avenida Jerônimo Monteiro.

A programação oficial da prefeitura este ano, no palco da Praça Costa Pereira, terminava às 22h, ainda diante de uma multidão cheia de energia. “O público do carnaval é majoritariamente jovem, não tem como terminar 22h e dizer para todos irem para casa sem oferecer uma estrutura para brincarem”, diz Édson Bomfim. Os foliões acabaram impelidos a seguir nos arredores da praça e da Rua Sete de Setembro, aí já de forma espontânea e sob comando musical de carros de som e aparelhos portáteis. “É uma coisa estranha, os blocos só podem ir para a rua com autorização, mas carros de som entram para fazer baile e as autoridades nem os veem chegar”, questiona.

Na madrugada de segunda para terça-feira, os locais viraram palco de cena de guerra, com tropa de choque, spray de pimenta e balas de borracha sendo utilizados pela Polícia Militar e pedras e garrafas de vidro sendo arremessadas contra ela. Para Bomfim, voltar o carnaval para  as avenidas Jerônimo Monteiro e Beira-Mar, por exemplo, poderia ajudar a minimizar efeitos para moradores do Centro, já que se tratam de áreas com mais edifícios comerciais que residenciais.

“É preciso ter um grande debate sobre o que é o carnaval da Grande Vitória, com condições de melhorar, fazer uma festividade mais bonita e mais ampla”, afirma o integrante do Afro Kizomba. Assim que terminados os festejos com os blocos pós-carnaval, que acontecem nas próximas semanas, a intenção é reunir os diversos blocos para pensar propostas e sugestões e poder dialogar com a Prefeitura de Vitória.

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