Professores anunciam greve geral para o dia 15 de maio

Ato, que já tem adesão da Ufes, é reação ao corte para universidades e à criminalização dos professores

Em resposta aos ataques à educação pública, entidades do setor convocaram suas categorias para uma paralisação nacional no próximo dia 15 de maio em todo o País. No Espírito Santo, a Universidade Federal (Ufes) e o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo ( Sindiupes), além do Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe-Ifes), já confirmaram participação no movimento. 

O presidente da Associação de Docentes da Ufes (Adufes), professor José Antônio da Rocha Pinto, reforça que os cortes que atingem a universidade capixaba começaram desde 2014, sendo intensificados a cada ano. Segundo ele, no ano passado, a Ufes recebeu 70% do orçamento previsto. 

Para Rocha Pinto, mais 30% de cortes, que começaram pela UNB (Brasília), UFF (Rio de Janeiro) e UFBA (Bahia) e devem se estender para as demais federais, só pioram o quadro. De acordo com ele, universidades menores, como a Ufes, sofrem impactos mais expressivos.

Na próxima quinta-feira (9), segundo o presidente da Adufes, será realizada uma reunião com os demais sindicatos que agregam professores da educação pública e com centrais sindicais e entidades do movimento social, para definir a programação da greve geral no Espírito Santo. 

Perseguição ideológica

“A greve nacional da educação em 15 de maio é uma resposta a todos os ataques que a educação pública, os professores, estudantes, técnicos administrativos vêm sofrendo, com toda essa perseguição ideológica e política”, explica Caroline Lima, 1ª secretária do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, (Andes-SN).

Ela exemplifica a perseguição com a declaração do ministro da Educação,  Abraham Weintraub, e do presidente Jair Bolsonaro que incentiva a filmagem de docentes por alunos. “No momento em que temos um chefe de Estado que diz que é direito do estudante filmar professor, isso nada mais é do que a criminalização de professores e professoras. Além de um desrespeito total à autonomia das escolas e das universidades, dos institutos federais e Cefet”, explica.

Caroline lembra ainda que a luta contra a reforma da Previdência está na pauta do dia 15 de maio e nas demais datas da agenda de mobilização. Ela ressalta a desconstitucionalização dos direitos previdenciários prevista na PEC 06/2019, que aumenta a incerteza quanto à aposentadoria e aponta ainda que a reforma ataca professoras e professores do ensino fundamental, que terão o tempo contribuição elevado em quase 10 anos.

“O que está muito nítido é que esse governo colocou professores e professoras como inimigos. E a paralisação unificada do dia 15 de maio é para dizermos que basta de ataques à educação, basta de ataques à nossa categoria. E também dizermos não a essa reforma da Previdência que é perversa, cruel e seletiva”, diz.

Nota

A Andes-SN também divulgou uma nota de repúdio ao anúncio de mais um corte 30% no orçamento das universidades federais. Segundo declaração do ministro Abraham Weintraub ao jornal O Estado de São Paulo, o contingenciamento atingiria inicialmente três universidades: a Universidade de Brasília (UnB), a Federal Fluminense (UFF) e a Federal da Bahia (UFBA), que já tiveram seus repasses reduzidos.

Segundo o periódico, o MEC está sendo forçado a definir cortes após o governo anunciar um contingenciamento orçamentário de R$ 30 bilhões. Desse total, R$ 5,8 bilhões terão de vir da Educação. Weintraub teria dito que os cortes estariam relacionados ao desempenho acadêmico das instituições e que elas estariam “promovendo ‘balbúrdia’ em seus câmpus (sic)”. E, ainda, que a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em Minas Gerais, também está sob avaliação. De acordo com o divulgado, o ministro caracteriza como “balbúrdia” a presença de “sem terra” e a realização de festas nas universidades.

Para Antonio Gonçalves, presidente do Andes-SN, o contingenciamento divulgado, de forma ainda não oficial, é absurdo e ilegal. “A Universidade deve ser um espaço de formação emancipatória do sujeito, por isso tem que ser um espaço de criticidade e autonomia. O governo, para impor sua política educacional, que é uma política de retrocesso, de pensamento único, e de ataque aos direitos fundamentais, elege como prioridade o contingenciamento de verbas das universidades, usando uma argumentação ilegal e inaceitável politicamente”, explica.

“Nossas universidades continuam primando pela qualidade e isso é comprovado em inúmeras pesquisas nacionais e internacionais”, acrescenta.

O presidente do Sindicato Nacional reforça a importância social das universidades federais e destaca que esse novo corte terá impacto em todas as áreas, inclusive no acesso e permanência dos estudantes. Pode, inclusive, inviabilizar a continuidade das atividades acadêmicas nessas instituições de ensino superior.

“A política estudantil, por exemplo, já está com recursos contingenciados, já não tem mais bolsas e já não conseguimos ampliar o número de vagas. Novos cortes vão prejudicar sobremaneira o acesso, a permanência e a produção do conhecimento tão necessária para a evolução da sociedade e do homem e da mulher, trabalhadores do nosso país”, alerta Gonçalves. 

Outros ataques


Em 29 de março, o governo publicou o decreto 9, 7 mil, no qual contingenciou R$ 29,5 bilhões do Orçamento Federal de 2019. Da Educação foram cortados R$ 5,8 bilhões, cerca de 25% do orçamento do previsto para esse ano. Já da Ciência, Tecnologia e Inovação foram retirados R$ 2,1 bilhões.

Além do ataque ao financiamento e manutenção das instituições, o governo vem promovendo outras ofensivas à educação pública e aos educadores. Recentemente, ameaçou acabar com cursos da área de humanas como filosofia e sociologia. Editou a MP 783/2019, que impede o desconto da mensalidade sindical no contracheque de educadores docentes, tentando fragilizar a organização sindical.

No domingo (28), Weintraub e Jair Bolsonaro divulgaram declarações incentivando a gravação de professores em sala de aula, sem autorização. “É um discurso que abre espaço para diferentes formas de assédio contra os professores. São falas inaceitáveis para qualquer autoridade pública, principalmente daquelas responsáveis pela educação”, afirma Antonio Gonçalves.

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4 Comentários
  • Marco Antônio , quinta, 02 de maio de 2019

    É só cortar o ponto que eles voltam rapidinho ao trabalho. Tem que cortar verba mesmo, pois precisamos acabar com essa balbúrdia nas universidades públicas.

  • machado , sexta, 03 de maio de 2019

    Mais uma grevizinha de férias para variar; por isso, penso que essas instituições devem ser privatizadas, pelo menos o ônus de pagar salário de grevista que não trabalha sai das costas do povo pagador de impostos.

  • Elizeu Moreira , sexta, 03 de maio de 2019

    Quem não deve, não teme. O professor que não quer ser filmado trabalhando é porque não está agindo de boa fé, caso contrário, não se importaria com a transparência, muito pelo contrário, se sentiria feliz por está sendo visto por milhares de pessoas desempenhando sua atividade profissional. Os exemplos das "humanidades" nas universidades públicas, que temos visto nas redes sociais são deploráves.

  • MARCOS ELENILDO FERREIRA , sexta, 03 de maio de 2019

    Consertando meu comentário anterior : O governo está certíssimo nessa situação !!

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