Projeto leva informações sobre DSTs onde políticas públicas não chegam

Associação Gold promove ações informativas e testes em áreas periféricas e horários alternativos

Dados do Ministério da Saúde apontam que 73% de novos casos de pessoas que contraíram o vírus HIV ocorreram no sexo masculino, sendo que um em cada cinco novos casos se deu entre homens de 15 a 24 anos. Foi pensando nesse público que a Associação Gold criou o projeto “Jovem é massa ficar sabendo”. 

Com uma equipe de seis pessoas capacitadas para tirar dúvidas e levantar informações com foco no público jovem e adolescente, eles percorrem bairros de Vitória e Cariacica informando sobre Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) e Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) por meio de panfletos e conversas, entrega de insumos como preservativos vaginais e penianos e lubrificantes, e realizando testagem de HIV por meio da saliva. 

Em uma jornada de seis horas de atividades, o grupo chega a realizar até 30 testes de HIV em locais onde as pessoas dificilmente teriam acesso. “Nosso projeto é extra-muros, indo onde a prefeitura não está, atendendo pessoas que não têm cultura de ir às unidades de saúde nem para buscar preservativos, nem para fazer exames clínicos e muito menos para fazer testes de DSTs e ISTs. Nossa ideia é quebrar esse preconceito, esse medo de fazer os testes e incentivar as pessoas a utilizar preservativos, que é um dos melhores métodos de prevenção que existe, e dialogar para que vá à unidade de saúde para fazer outros testes como o de sífilis e hepatite, que são de maior incidência hoje no Espírito Santo”, explica Deborah Sabará, coordenadora da Associação Gold.

Justamente para atingir esse público, os horários de trabalho do projeto acontecem pela tarde e noite, podendo se estender até as 23h, incluindo pracinhas das comunidades, bares e até entrada de boates, casas de prostituição e apartamentos em que há atendimento a clientes. “As pessoas têm preconceito em relação às mulheres profissionais do sexo que atuam trabalhando nas noites, mas as casas têm aberto as portas e as meninas têm feito uma prevenção muito grande, sempre dialogando conosco, tirando dúvidas, se cuidando e fazendo testes que se repetem a cada 30 dias”, explicou Deborah.

Como muitas vezes o tema da educação sexual é um tabu nas escolas, o projeto ajuda a chegar a esses jovens. “Há uma ideia equivocada de que falar sobre relação sexual protegida estaria incentivando jovens a fazer sexo. O que temos visto nas ações é que os adolescentes querem falar sobre isso, querem ter mais informações”. Ela cita como bom exemplo o caso num bairro em que faziam atividades na praça e um professor da escola ao lado liberou dois alunos que quiseram fazer o teste e regressar para a aula.

A coordenadora conta que o foco das ações é trabalhar a prevenção e a redução de danos, informando sobre as diversas formas de prevenção. Desde o preservativo, reforçando que são públicos e de alta qualidade, ao contrário do que alguns pensam, até outras mais recentes e menos conhecidas como a Profilaxia Pós Exposição (PEP) e Profilaxia Pré-Exposição (PrEP).

No caso do primeiro se trata de medicamentos antiretrovirais que podem ser usados por pessoas após terem tido possível contato com o vírus HIV em situações como violência sexual, relação sexual desprotegida ou acidente ocupacional com cortes. Já a PrEP, que é de uso prioritário para grupos que concentram maior número de HIV no país como população gay, pessoas trans, trabalhadores do sexo e parcerias sociodiferentes, é de uso feito antes da exposição ao vírus, reduzindo a possibilidade da pessoas ser infectada.

O grupo de conscientização trabalha com a linguagem dos direitos humanos e questões de gênero, considerando, por exemplo, o fato de que em relações machistas as mulheres são induzidas ou obrigadas a não usar preservativos, sendo necessário abordar os cuidados e a autoestima da mulher.

Deborah Sabará cita o caso marcante de uma jovem de 16 anos num bairro de Cariacica, que tinha um filho de quatro meses e não sabia escrever. Com ela conversou sobre a importância do uso de preservativos e o risco de que o uso de que o consumo de drogas lícitas ou ilícitas possa levar ao não uso, sobre a importância do pré-natal, dos testes de HIV, hepatite e sífilis. “Me chocou porque era uma menina que não tinha escolaridade, não tinha documentos, estava numa situação de vulnerabilidade por falta de políticas e de informação. Penso em como aquele diálogo na rua pode ter contribuído para ela”.

O projeto conta com apoio da coordenação estadual e das coordenações municipais de saúde de Vitória e Cariacica e foi aprovado num projeto do Ministério da Saúde junto à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Iniciado no último 8 de março e com duração de um ano, o "Jovem É Bom Ficar Sabendo" já passou por locais de Vitória como Centro e arredores, bairros do Território do Bem, como Itararé, Bairro da Penha, Santa Marta e Engenharia e também pela Rua da Lama, onde se reúne pela noite uma grande quantidade de jovens oriundos dos diferentes municípios da Grande Vitória. Em Cariacica, passaram por bairros como Nova Rosa da Penha e por diversas boates e casas de prostituição. 

O grupo ainda encontra dificuldades, porém, para entrar em alguns bairros, razão pela qual pede apoio de associações de moradores, comerciantes ou outras instituições que queriam ser parceiras e se encontrem em locais com circulação de grande número de jovens na faixa etária de 15 a 24 anos nos municípios de Vitória e Cariacica.

O contato com a Associação Gold pode ser feito pelo telefone (27) 99956-6004 ou pelo e-mail goldlgbt@gmail.com. O exame de HIV por meio de saliva também pode ser realizado na sede da associação na Avenida Presidente Florentino Avidos, 502, sala 904, no Centro de Vitória. Fundada em 2005, a Gold, que significa Grupo Orgulho, Liberdade e Dignidade, atua com foco em promover a cidadania e defender direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.

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