Protesto histórico reúne multidão em Vitória contra os cortes de Bolsonaro

Duas caminhadas que seguiram da Ufes e do Ifes rumo à Assembleia geraram um mar de manifestantes nas ruas

Fotos: Leonardo Sá
 

Histórico. Talvez não haja outra palavra capaz de melhor definir o protesto unificado da comunidade escolar da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e do Instituto Federal capixaba (Ifes), realizado a partir do final da tarde desta quarta-feira (15). Uma verdadeira multidão caminhou por avenidas como Fernando Ferrari, Reta da Penha e Vitória, rumo à Assembleia Legislativa, contra os cortes anunciado pelo Governo Bolsonaro na educação federal. 

Justificado como “contingenciamento” pelo Ministério da Educação e com vários percentuais diferentes anunciados, de 30% a 3,5%, na prática, significa verba para funcionamento do Ifes e seus 22 campi até setembro deste ano e paralisação de inúmeros projetos da universidade, incluindo bolsas de pesquisa, mantendo apenas seu funcionamento mais básico. 

Foram dois pontos de concentração e um ponto de intercessão para unificar as caminhadas. Um grupo saiu do campus de Goiabeiras, de frente do Teatro Universitário, por volta das 17 horas, e outro da sede do Ifes Vitória, em Jucutuquara, no mesmo horário. Os grupos se encontraram na altura no Boulevard da Praia, por volta das 18h40, seguindo sentido Nossa Senhora dos Navegantes, rumo à Assembleia Legislativa. O encontro das duas caminhadas gerou um mar de manifestantes não visto há muitos anos nos protestos da Educação no Espírito Santo, talvez, nem mesmo nas passeatas dos históricos “cara-pintadas” da Era Collor nos anos 90.

A concentração dos estudante da Ufes começou por volta das 16 horas, depois de um dia de intensa mobilização, tanto no Campus Goiabeiras quanto no campus de Maruípe. Desde a manhã, foram realizadas panfletagens, aulas públicas nos dois campi e também em praça pública de Jardim da Penha. Alunos do curso de Psicologia também fizeram ato na praça Costa Pereira, no Centro de Vitória, expondo projetos de pesquisa e extensão realizados dentro da universidade. 

Também na passarela coberta da Ufes, na parte da tarde, foi realizada a 1ª Mostra Balbúdia, que expôs um pouco do que é produzido pela comunidade acadêmica nas três esferas que envolvem a universidade: ensino, pesquisa e extensão.   

Desde a saída do campus de Goiabeiras, uma impressionante massa de manifestantes, incluindo estudantes, professores, servidores, militantes dos movimentos sociais e sindicatos, além de simpatizantes, cidadãos e trabalhadores, já ocuparam de forma pujante todas as pistas da Avenida Nossa Senhora da Penha, atravessando a Ponte da Passagem. A imagem era impressionante dos pontos mais altos, de onde era possível avistar de melhor forma o mar de gente. A maior parte munida de suas faixas e cartazes.  

Completamente pacífico e sem cunho essencialmente político, apesar de também terem participado filiados a partidos, o principal tema dos discursos foi a defesa da educação pública, contra o desmonte do ensino federal, da Ufes e do Ifes.



Além de Vitória, protestos ocorreram em outras 200 cidades, nos 26 estados do país e no Distrito Federal. A UNE, uma das organizadoras da manifestação nacional, estima em 1,5 milhão o número de pessoas nas ruas quarta. No Espírito Santo, a estimativa dos organizadores é de 10 mil. 

Ao longo do trajeto pela Fernando Ferrari, o protesto recebeu apoio de motoristas, que se manifestaram favoravelmente com suas buzinas. Outros também apoiavam das calçadas e das fachadas dos prédios. Mas impressionante mesmo foi o silêncio dos eleitores de Bolsonaro; não houve objeções mais concretas, a exemplo do que ocorre nas redes sociais. 

No encontro com os estudantes do Ifes, que, além das faixas e cartazes, portavam balões verdes em referência à cor da identidade visual do Instituto, uma cena difícil de esquecer. Um mar de manifestantes, que de forma absolutamente pacífica, fazia a defesa da educação pública federal.

Do cruzamento do Boulevard da Praia, todos seguiram para a sede da Assembleia, onde o protesto foi encerrado. Não totalmente, pois ficou clara a promessa de novas manifestações, até que os cortes sejam suspensos. 

Depoimentos

De cima de um dos carros de som, Lucas Martins, diretor de Comunicação do Sindicato dos Trabalhadores da Ufes (Sintufes), explicou que os cortes de Bolsonaro já têm interferido na compra de material, desde papel higiênico a material necessário para limpeza e segurança. 



O presidente da Associação dos Docentes da Ufes (Adufes), José Antônio da Rocha, por sua vez, não descartou uma greve de professores, caso os cortes se mantenham. 

A estudante de curso pré-vestibular Fernanda Ferreira Rios, de apenas de 18 anos, fez questão de participar, acompanhada da tia Ana Maria Ramos, de 62 anos, professora aposentada da Secretaria de Estado da Educação (Sedu).

“Estou no cursinho e quero entrar na universidade federal”, justificou a jovem, que teve reforço do discurso da tia. “Sinto muito orgulho de estar, mesmo aposentada, nessa luta pela educação pública. Fui professora, diretora e sei que a Educação é o melhor caminho para ampliar os horizontes de nossos jovens”. 

Leia Também:

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para mantê-lo ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Matérias Relacionadas

Em nove meses, Estado chega a R$ 10 milhões de gastos com advogados dativos

OAB-ES comemora, mas entidades pedem valorização da Defensoria Pública, que está em apenas 26 cidades

Ufes retoma pagamento de bolsas e volta a liberar uso do ar-condicionado

Segundo o reitor Reinaldo Centoducatte, medidas são possíveis em função da economia de recursos 

Assembleia elabora decreto para sustar decisão da Corregedoria do TJES

Corregedor-geral Samuel de Meira tomou decisão administrativa de fechar 51 cartórios no interior

PL da Mordaça é arquivado na Assembleia Legislativa

Projeto de Vandinho ameaçava liberdade dos professores alegando perseguir 'ideologia de gênero'