‘Que os aromas de março incendeiem nosso Abril Vermelho’

Encontro de Mulheres Sem Terra ocupa Ministério da Agricultura e fortalece luta da reforma agrária popular

Flores, frutas, ervas medicinais, oficinas e místicas de união e cooperação marcaram o I Encontro Nacional de Mulheres Sem Terra, que aconteceu entre a última quinta-feira e essa segunda (5 a 9) em Brasília, reunindo milhares de ativistas de todo o país. A caravana capixaba contou com dois ônibus de militantes, que levaram os produtos da marca Terra de Sabores e um pouco da culinária e da cultura do Espírito Santo. 

“Que os aromas de março incendeiem o nosso Abril Vermelho”, poetiza uma das participantes da caravana, Eliandra Fernandes, dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) pelo Espírito Santo, referindo-se à essência do I Encontro, que irá embalar o mês em que o MST tradicionalmente realiza a Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agrária (Abril Vermelho), em alusão ao dia 17 de abril de 1996, quando ocorreu o Massacre de Eldorado dos Carajás, em que a Polícia Militar do Pará, no norte do País, assassinou 21 trabalhadores sem terra que realizam uma manifestação em prol da Reforma Agrária na rodovia PA-275. 

“As mulheres do Espírito Santo voltam pra casa embaladas pela mística diária da luta do ser mulher no MST. A mística da luta pela reforma agrária está dentro de nós. A troca de experiências e saberes está sendo trazido no nosso balaio de saberes pro Espírito Santo. Os estudos, as noites culturais, a nossa autorganização, o nosso jeito de fazer esses encontros massivos mostram capacidade de organização da luta”, observa a dirigente.

“Voltamos com toda essa sabedoria dos estudos e formações e também com muita alegria”, declara. “As mulheres sem terra apontam o que vai ser a partir de agora, no Abril Vermelho e em todo o 2020 no Brasil inteiro”, anuncia. 

Eliandra Fernandes ressalta que a pauta da reforma agrária, que estava tão apagada, foi recolocada na sociedade pelas mulheres. “O MST não será o mesmo depois do dia de hoje, com ocupação do Ministério da Agricultura, onde a gente sabe que a reação da classe dominante, dos que defendem o poder, vai ser forte”, reconhece, citando as primeiras reações já sentidas, com a ação da Polícia Federal que parou ônibus de diversos estados na volta do I Encontro, ainda na saída de Brasília. 

“As sem terra têm que estar preparadas pra reação desse governo golpista, reacionário, fundamentalista, machista e racista, que quer acabar com o MST”, convoca.  

A ocupação do Ministério da Agricultura marcou o encerramento do I Encontro, na manhã desta segunda-feira (9). Foi um ato que manifestou a insatisfação do MST e das mulheres sem terra com a forma com que o governo federal tem tratado a reforma agrária. 

A perseguição, relata, se iniciou ainda em 2016, durante a preparação do impeachment contra a ex-presidente Dilma Roussef (PT) e se intensificou com a eleição de Jair Bolsonaro, por meio de decretos que titularizam e privatizavam as terras de assentamento já conquistadas, que inviabilizam a liberação de novas áreas pra assentamento, bem como toda ação do governo em relação às terras indígenas e quilombolas e em relação à liberação recorde de venenos agrícolas. 

“As mulheres do MST decidiram protestar dessa forma, com a ocupação do Ministério da Agricultura, onde os interesses do agronegócio e do capital são articulados”, ressalta. 

No Espírito Santo, mais de mil famílias aguardam a desapropriação de terras improdutivas para a reforma agrária, em acampamentos que, em alguns casos, já existem há uma década. Apesar de muitos contarem com lavouras produzindo alimentos saudáveis, estão sendo ameaçados por mandados de reintegração de posse pela multinacional Suzano (ex-Aracruz Celulose, ex-Fibria).

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