Restauração florestal gera cerca de 200 empregos diretos a cada mil hectares

Espírito Santo tem 2 milhões de hectares de monocultivos de pasto, em grande parte degradado, e eucalipto

O potencial de geração de emprego e renda com a restauração florestal é imenso no Espírito Santo. Com 40% de seu território – aproximadamente 2,1 milhões de hectares – ocupado com pastagens e monocultivos de eucaliptos, há um vasto campo de pesquisa e planejamento para movimentar a economia de comunidades e municípios inteiros, a partir da recomposição da vegetação nativa.

Reflorestamento de verdade, é preciso ressaltar, e não plantio de uma única espécie arbórea em largas extensões de terra. Reflorestamento de fato que, após estabelecido, gera ainda mais riqueza, com a disponibilização de serviços ecossistêmicos essenciais, como produção de água, regulação do clima, fertilidade do solo e ar puro.

São 200 empregos diretos para cada mil hectares em restauração com intervenção humana, aponta o estudo nacional “Restauração de Paisagens e Ecossistemas”, produzido pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e o Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), reunindo 45 pesquisadores de 25 instituições.

Lançado no final de agosto, o estudo está alinhado com a Organização das Nações Unidas (ONU), que declarou o período entre 2021 e 2030 como a Década sobre Restauração de Ecossistemas. E apresenta dados e propostas para demonstrar o benefício mútuo entre produção agrícola, conservação e restauração, em meio a uma conjuntura crítica para a agenda ambiental brasileira e capixaba.

No Espírito Santo, o amplo território propício para restauração florestal ainda não foi alvo de uma política pública que de fato encare a grandeza desse desafio. O principal programa de Estado nesse sentido, o Reflorestar, caminha timidamente, sem arranhar a arcaica estrutura político-econômica que blinda os grandes latifundiários do norte e noroeste do estado, com suas grandes pastagens extensivas e improdutivas e os desertos verdes de eucaliptais, condenando todo o território acima do Rio Doce a sofrer, de forma crescente, as agruras típicas do semiárido brasileiro.

Desde o lançamento do Programa Reflorestar, em 2013, foram recuperados 17 mil hectares, informa o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes). A próxima meta, com o edital lançado em maio deste ano, é atingir mais três mil hectares.

Segundo dados do Atlas da Mata Atlântica do Espírito Santo, lançado em abril de 2018, “a eucaliptocultura foi a atividade que mais cresceu, passando de 5,8% (2007/2008) para 6,8% (2012/2015), o que representa um aumento efetivo de 45.341,9 há em sua área plantada”, o que corresponde a mais de 276 mil hectares de desertos verdes.

Usos do solo

A mata nativa, por sua vez, cresceu, no período de 15,3% para 15,9% do território estadual, o equivalente a “um aumento efetivo de 27.179,5 hectares, totalizando uma área de 733.113 há”, prossegue o Atlas.

Na categoria “Mata Nativa em Estágio Inicial de Regeneração, o comportamento foi oposto, sendo observada redução de 0,2% da área do Estado com essa cobertura, passando de 6,4% para 6,2%, o que equivale a uma redução efetiva de 8.855,2 ha”.

Já a “Pastagem caiu 2,5%, o que equivale a uma área de 116.245,9 ha. Contudo, mesmo com a redução verificada, a Pastagem continua sendo a principal forma de uso do solo no estado do Espírito Santo, pois está presente em 39,2% do seu território”.

“O Café, principal cultura agrícola, apresentou expansão de sua área cultivada entre os períodos avaliados, passando de 8,6% (2007/2008) para 9,4% (2012/2015), ocupando a segunda maior área plantada no Estado”, o equivalente a 433 mil hectares.

Ciência e política

O coordenador do relatório do BPBES e IIS, Renato Crouzeilles, professor do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFRJ e do Centro de Ciências da Conservação e Sustentabilidade do Rio na PUC-Rio, salienta que ciência e política andam juntas e se beneficiam. “O planejamento inteligente e o manejo integrado da paisagem levam a uma situação de ganha-ganha, onde ganha o meio ambiente, ganha a produção agrícola e ganha a sociedade”, explica.

Na visão de Crouzeilles, sensibilização e engajamento são essenciais para uma sociedade consciente, com ações em todas as esferas de influência. “Para isso, governos, estados, pesquisadores, praticantes e coletivos de restauração devem disseminar conhecimento baseado em ciência para toda a sociedade, desde a população rural até a urbana. Independentemente das políticas públicas ambientais exercidas pelo governo, todos devem continuar fazendo a sua parte para que haja ganho ambiental e socioeconômico no país”, completa.

E quando se fala em sensibilização e engajamento nas áreas rurais, no Espírito Santo, os principais atores que despontam são movimentos sociais do campo, como o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que fazem da Agroecologia – e consequentemente da restauração florestal e diversidade agrícola – uma de suas principais bandeiras.

“As comunidades camponesas estão isoladas na região de tabuleiro do norte e noroeste”, conta Douglas Alvaristo, militante do MPA. “São grandes propriedades com um recorte bem característica de cana, capim e eucalipto. Enquanto as unidades de produção camponesa já possuem uma composição vegetal mais diversificada, com componente nativo”, descreve.

“A gente tem a consciência de que a agroecologia cumpre um papel fundamental como método de produção conservacionista. Mas não só. Entende a importância do ambiente nativo não antropizado, para conservação ambiental, refúgio e alimentos pra fauna, polinização”, disserta.

“O instrumento que a gente tinha e batalhou muito por ele é o Reflorestar. Apesar de não considera o ideal, ainda tem muito que otimizar, mas é um instrumento muito robusto, um dos primeiros do Brasil. Como recuperá-lo?”, indaga o camponês. “A intenção do [governador Renato] Casagrande é retomar”, ressalta, sugerindo.

SAFs

O professor Eduardo Mendonça, do Departamento de Agronomia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em Alegre, endossa a proposta camponesa e dos institutos nacionais autores do relatório.

Trabalhando na implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs) para produção de alimento e serviços ambientais, o pesquisador afirma que a restauração é o caminho. “Temos que restaurar as áreas degradadas utilizando os conhecimentos científica que temos de clima, solo e planta”.

De norte a sul do estado, “é assustador a quantidade de terra degradada”, testemunha. “Muitas áreas sob agricultura não seguem a orientação técnica quanto a erosão, adubação, tratos culturas e uso de agrotóxicos, acarretando erosão, degradação ambiental e contaminação dos alimentos e do agricultor”, observa.

“Quanto às pastagens, o dominante é encontramos pastagens conduzidas sem nenhum cuidado com o ambiente. Pastagens sem adubação básica do pasto, sem controle da quantidade de cabeças por área”, descreve.

EPIA-RIMA para eucaliptais

Também no sentido da restauração ambiental do território capixaba, tramita na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), o Projeto de Lei (PL) 646/2019, do deputado Sérgio Majeski (PSB), que torna obrigatório o Estudo Prévio de Impacto Ambiental (EPIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) na obtenção do licenciamento para exploração da planta em áreas acima de 100 hectares e atividades agropastoris que alcancem mais de mil hectares.

A medida reinsere os incisos XIV e XVII no art. n°75 da Lei n° 4.701/1992, alterada pela Lei n°10.423/2015, que dispensou tais exigências. Segundo o deputado, essa mudança contribuiu para o aumento desordenado e nocivo do cultivo dessa espécie.

“A flexibilização da norma favoreceu a expansão dos grandes latifúndios, responsáveis pela intensa degradação ambiental registrada nos municípios capixabas. A monocultura do eucalipto é prejudicial ao meio ambiente. Além disso, 95% dos pequenos produtores têm menos de cinco hectares de terra, o que é totalmente injusto”, argumenta o parlamentar.

A matéria foi lida na sessão ordinária do dia 13 de agosto e encaminhada para as Comissões de Justiça, Meio Ambiente e Finanças. Caso aprovada, a norma entrará em vigor na data de sua publicação.

 

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2 Comentários
  • Brunela Rodrigues , segunda, 02 de setembro de 2019

    Parei de ler o artigo quando chamaram eucalipto de deserto verde. Ainda isso? Por que tratar o monocultivo do eucalipto apenas? E os outros monocultivos? Fazendo uma regra de três simples com os dados aqui mencionados, café + pastagem ocupam cerca de 30% do território capixaba. Como bem fala o professor Eduardo da Ufes (Alegre-ES): "Muitas áreas sob agricultura não seguem a orientação técnica quanto a erosão, adubação, tratos culturas e uso de agrotóxicos, acarretando erosão, degradação ambiental e contaminação dos alimentos e do agricultor". A restauração florestal é necessária, isso é um fato! Mas que o texto não tenha uma vertente única de pensamento. Faltou uma visão mais dialética na contextualização geral do problema. De onde foram tirados esses dados? Diponibilizem para nós ao final do texto. Seria interessante colocar o autor do artigo e formação acadêmica também. Att, Brunela P. Rodrigues brunelafloresta@yahoo.com.br

  • José Marques Porto , terça, 03 de setembro de 2019

    Parabéns Fernanda excelente reportagem.

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