Revelações sobre a Lava Jato levam advogado a comparar operação às milícias

O procurador Deltan Dellagnol montou um plano de negócios de palestras para lucrar com a Lava Jato

"Uma quadrilha". "Eles são milicianos da Justiça”. Desse modo é visto o plano de negócios de eventos e palestras montado pelo procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, para lucrar com a fama e contatos obtidos durante as investigações. A revelação foi feita neste domingo (14) em reportagem conjunta do site The Intercept e o jornal Folha de São Paulo. 

“Uma quadrilha que foi revelada mais rapidamente do que se imaginava. Deltan Dallagnol e Moro (ex-juiz Sérgio Moro) estão nus”, afirma o escritor Perly Cipriano, dirigente petista no Espírito Santo, acrescentando que as ilegalidades denunciadas deveriam provocar a anulação de todos os processos do ex-presidente Lula, que se encontra preso em Curitiba. 

Para o advogado André Moreira, candidato pelo Psol ao governo do Estado nas eleições de 2018, as denúncias indicam que “eles são empresários da Lava-Jato, que agem com o mesmo modelo das milícias. São milicianos da Justiça”. 


Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

“Deve ser considerado, nesse caso, o dever funcional do Ministério Público e o lucro. Quando se começa a transformar algo que mexe com a vida das pessoas e com a vida do país em uma forma de ter lucro, obviamente que vai comprometer um julgamento”, ressalta André Moreira. 

O Ministério Público deveria estar interessado na legalidade, complementa: “O Ministério Público é uma parte importante em um processo e pode até pedir a absolvição, mas nesse caso aí, pedir absolvição poderia significar perder dinheiro”.  

André comenta que essa vinculação de Dallagnol é muito próxima de uma “teologia atual do sucesso, de que o sucesso é necessário até do ponto de vista teológico e ele é ligado a uma igreja dessas. Muito triste. Dallagnol não tem nenhuma condição de ser o promotor de um processo do Lula”, destaca. 

Da mesma opinião é o advogado da área criminal Francisco de Assis Herkenhoff: ‘As denúncias são muito graves e podem implicar na nulidade de processos. Devem ser apuradas a fundo, pois indicam a suspeição do juiz com atitudes nada republicanas”, considera, ressaltando que, apesar da gravidade, as denúncias não estão sendo tratadas com a devida seriedade.

Outro advogado consultado por Século Diário, que prefere ter o nome em sigilo, por temer retaliação, disse: “O Dallagnol infringiu a lei e pode ser punido até com demissão, por ter usado uma funcionária do Ministério Público em seus negócios pessoais”. 

Para Perly, “O Intercept presta um serviço inestimável à sociedade brasileira, e a imprensa corporativa se mostrou omissa frente a graves problemas do país, sendo responsável pela eleição de Bolsonaro e seu governo miliciano”. Ele acrescenta que “foram desmascarados os símbolos de uma direita representada na corrupção, ilegalidade e ataques à democracia”. 

Segundo a reportagem publicada neste domingo, o procurador da República Deltan Dallagnol, “coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, montou um plano de negócios de eventos e palestras para lucrar com a fama e contatos obtidos durante as investigações do caso de corrupção, apontam mensagens obtidas pelo The Intercept Brasil e analisadas em conjunto com a Folha”.

A matéria prossegue: “Em um chat sobre o tema criado no fim de 2018, Deltan e um colega da Lava Jato discutiram a constituição de uma empresa na qual eles não apareceriam formalmente como sócios, para evitar questionamentos legais e críticas”.

A justificativa da iniciativa foi apresentada por Deltan em um diálogo com a mulher dele. "Vamos organizar congressos e eventos e lucrar, ok? É um bom jeito de aproveitar nosso networking e visibilidade", escreveu, segundo a matéria da Folha e do Intercept. 
 

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