Saúde Pública da Grande Vitória registra mês de caos

PA’s e hospitais superlotados questionam atuação de gestores, que prometem discutir a questão em conjunto 

Entra ano, sai ano e o problema persiste. Unidades de Pronto-Atendimento (PAs) lotadas, gerando um caos metropolitano na saúde. Neste mês de abril, um barril de pólvora parece prestes a explodir com denúncias borbulhando em Cariacica (PA do Trevo de Alto Laje), Vitória (PAs de São Pedro e da Praia do Suá), Vila Velha (PA da Glória, além do Hospital Infantil - Himaba) e Serra (PA de Carapina e Serra Sede). Diante do cenário, secretários de saúde das cidades e representantes do governo prometem uma reunião para discutir ações na área.

Entre os problemas estão a superlotação e as longas esperas que podem chegar até 10 horas, deixando pacientes e acompanhantes à beira de um ataque de nervos. Em mais de um caso, foi preciso acionar a Polícia Militar para tentar acalmar os ânimos. Em Cariacica, o absurdo tem sido recorrente: o fechamento do pronto-socorro infantil da unidade. Fato registrado duas vezes em 2018 e mais uma vez no último feriado, o que motivou denúncias de vereadores ao Ministério Público Estadual por negligência e omissão de socorro a menores. 

Já em relação ao Hospital Infantil de Vila Velha (Himaba), foi preciso que a Defensoria Pública do Estado (DPES) intervisse. A entidade enviou uma recomendação à Secretaria de Saúde do Estado (Sesa) para que, até o último dia 18 deste mês, apresentasse um projeto para ampliação de leitos na unidade. A DPES, por meio do Núcleo da Infância e Juventude, recebeu denúncias da população sobre a superlotação no hospital. Até o final da noite dessa quarta-feira (23), no entanto, nenhuma resposta formal dos gestores estaduais havia sido registrada no órgão. 

Os defensores públicos realizaram uma inspeção, no final do mês de março, em que a superlotação foi constatada, além de problemas de infraestrutura. Segundo o documento, enviado à Secretaria de Estado de Saúde no dia 4 deste mês, apesar dos esforços da equipe do Himaba para criar novos leitos no espaço do Pronto Socorro, o local não tem estrutura adequada e não atende às demandas da população infanto-juvenil do hospital.

Para eles, é visível a sobrecarga de atendimento no pronto-socorro, tanto que, no momento da inspeção, comportava 27 crianças acima do número de leitos disponíveis. Outro agravante é que espaço para atendimento e espera são muito pequenos e não há cadeiras suficientes para as crianças e seus acompanhantes.

“Observamos que muitas mães aguardavam o atendimento em cadeiras de plásticos, com os filhos no colo, sem uma estrutura adequada. Além disso, o Hospital não conta com equipamento de tomografia, o que dificulta os atendimentos. Devido à ausência do aparelho, crianças e adolescentes precisam ser direcionados a outras unidades de saúde para a realização do exame”, afirmou à época o coordenador de Direitos Humanos, Infância e Juventude, Hugo Matias Fernandes.

Sindicatos que representam servidores da saúde estadual, como Sindsaúde-ES e Sindienfermeiros-ES, também receberam denúncias de que, em apenas um dia do feriado de Páscoa, quatro bebês vieram à óbito no Infantil de Vila Velha.  Duas mortes teriam ocorrido na emergência, uma no repouso do Pronto-Socorro e outra na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (Utin). No caso da Sindsaúde-ES, a entidade ainda aguarda o Comitê de Verificação de Óbitos enviar o relatório sobre as mortes que estão sendo registradas no Himaba desde a terceirização do hospital, em outubro de 2017.

Relatório com dados oficiais da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) ao qual Século Diário teve acesso, em maio de 2018, indica que, no período de seis de outubro até 22 de dezembro de 2017, logo após a mudança de gestão para a Organização Social (OS) Instituto de Gestão e Humanização (IGH), quase 30 recém-nascidos teriam morrido na Utin do Himaba. De acordo com a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID), indicado por próprios trabalhadores da unidade no relatório, boa parte por infecção, o que levou a quadros de septicemia.

Mas não apenas isso. Antigos e atuais trabalhadores, incluindo médicos que atuaram na Utin e o Sindsaúde, elencaram outros fatores à época, como a iatrogenia (aplicação equivocada de remédios) e também a não administração devida dos medicamentos, além de descuidos com diversos protocolos, incluindo os de higienização. 

O defensor Hugo Matias explicou que, caso a Secretaria de Saúde não apresentasse o plano de ampliação no prazo recomendado pela Defensoria Pública, medidas judiciais cabíveis seriam tomadas. De acordo ele, a entidade ingressará contra os gestores do Himaba e a estratégia está sendo definida.

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