'Se você pode portar armas, o que te impede de cometer um crime?'

A professora Nanine Passos aponta para facilitação ao crime com a flexibilização do uso de armas

“Se você pode portar armas, o que te impede de cometer um crime?”. Ao expressar esse questionamento, relacionando-o ao massacre de 10 pessoas em Suzano, São Paulo, a professora do Instituto Federal de Educação (Ifes), Nanine Passos, especialista em Língua e Literatura e mestre em Estudos Literários, toca em pontos essenciais na discussão sobre a violência no Brasil. 

Dois pontos se destacam no debate, o primeiro, estimulado pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) e seus familiares, o porte e uso de armas de fogo, o outro, o isolamento dos jovens em uma sociedade consumista movida pelas corporações em busca de maior lucratividade, que, de igual modo, mantém as famílias excluídas e sem possibilidade de expressar afeto. 

O fetiche por armas de fogo do presidente e as declarações de agentes públicos divulgados na imprensa após a tragédia confirmam o clima de violência ascendente no País. Nesse cenário, há várias vertentes de debates em busca de pelo menos uma motivação que tenha levado os jovens Luiz Henrique de Castro, 25 anos, e Guilherme Tucci Monteiro, 17, a invadirem a escola Raul Brasil e matarem 10 pessoas, entre elas cinco jovens como eles.  

Na classe política, sobre quem pesa a responsabilidade de formular as leis, há prós e contra, sinalizados na maioria em áreas específicas ligadas diretamente ao que pode causar danos, matar. Poucos são os que se voltam para o aspecto social da violência, principalmente o isolamento social imposto às comunidades periféricas que atinge diretamente os jovens. 

O deputado estadual Lucínio Castelo de Assumção, o Capitão Assumção (PSL), é um dos que se aliam ao coro do presidente Jair Bolsonaro e diz ser a favor da flexibilização da posse de arma e se mostra contra o Estatuto do Desarmamento, ameaçado com o projeto do Governo Federal, anunciado pelo presidente da República justamente no dia do massacre. 

“O mau comportamento de motoristas também causa mortes no trânsito; com as armas de fogo acontece o mesmo”, afirma o deputado Capitão Assumção, assumindo o mesmo referencial do deputado por São Paulo Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, que disse: “Carro faz tanto mal quanto a arma de fogo”. 

Eduardo é defensor da flexibilização de armamentos para a população e ganhou notoriedade de se vestir com as cores da bandeira dos Estados Unidos, azul e vermelho, além de usar um boné com a inscrição “Trump”, o presidente norte-americano. Além disso, demonstra um submisso encantamento ao modo de vida daquele país, onde em alguns estados, o porte e uso de armas são livres. 

Os índices de violência nos Estados Unidos são extremamente elevados e, como no Brasil, atinge de forma mais direta as camadas mais pobres da população. A massificação desse modo de vida, promovida pela indústria cultural ávida de lucratividade, exerce um grau de influência alarmante na formação do pensamento da juventude brasileira. 

No massacre de Suzano, os jovens atiradores deixam claro esse envolvimento, que recebe estímulo generalizado das mais variadas formas. Dados recolhidos em mensagens dos dois atiradores na internet revelaram que eles pesquisaram sobre atentados em escolas norte-americanas. Queriam fazer um maior do que o ocorrido em Columbine, em 1999, resultando em 15 mortos. 

Para a professora Nanine Passos, é uma irresponsabilidade que o modo de vida de países como os Estados Unidos, onde tem ocorrido casos semelhantes ao de Suzano, seja defendido e estimulado “não só pelo presidente, mas pelo eleitorado dele e do ministro da Justiça, que apoiam a flexibilização do uso de armas de fogo”. 

Da mesma forma, ela discorda da postura dos filhos do presidente da República e do senador paulista Major Olímpio, que afirmou: “Se os professores portassem armas, a tragédia seria menor”. Sua fala provocou críticas nas redes sociais e protestos na classe política. 

Já o Capitão Assumção, acha que de fato a arma pode evitar o crime, mas ao ser questionado sobre as formas a serem adotadas para facilitar a aquisição, sinalizou que os mais pobres teriam a situação agravada, levando em consideração custos, testes, treinamento e controle do fluxo comercial.

Como exemplo, uma pistola Ponto 40 custa de R$ 7 mil a R$ 10 mil, preço acessível exclusivamente aos mais ricos, sem qualquer alteração no que ocorre atualmente, com destaque para a ineficiência das políticas públicas voltadas para a redução da violência.

Áreas essenciais à sociedade, como emprego e renda, saneamento e educação são colocadas abaixo de interesses corporativos. Esse contexto, afeta os laços familiares, gerando novos espaços sociais que fragilizam o processo de relacionamento e contribui para afastar o afeto. 

A psicóloga Renata Fricks do Santos aponta canais de isolamento que atingem não somente os jovens, mas toda a sociedade, especialmente as mais vulneráveis economicamente. 

Contrária à flexibilização do uso do armamento, Renata contesta os meios de controle, caso as leis sejam aprovadas, a partir de uma situação registrada atualmente, adotando a mesma postura do Conselho Regional de Psicologia. “Fala-se em testes de avaliação psicológica, mas acontece que a confiabilidade nos testes é falha e pode variar de acordo com a pressão que o portador da arma recebe”. 

O senador Fabiano Contarato (Rede), em entrevista à TV Senado, disse: “O poder público é ineficiente e, agora, quer armar a população para transferir uma responsabilidade que não cumpre: oferecer segurança, seu dever constitucional é um direito dos cidadãos; também, que a escola não consegue e não tem como cumprir o papel da família. Todas as nossas instituições, juntas, devem agir e trabalhar contra a violência que nos abala tanto. Infelizmente, como vimos, ceifando vidas tão jovens”.

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2 Comentários
  • Paulo Semblano , sábado, 16 de março de 2019

    A reportagem é mal feita e tendenciosa, e usa o episódio recente para confundir a mente das pessoas. O porte de arma continua e irá continuar restrito a agentes de segurança. O que está para passar no Congresso é o direito de posse, e mesmo assim bem restrito. Estão fazendo o jogo dos agentes internacionais que querem o Brasil com medo e sem direito de defesa. Povo trabalhador e com direito a posse é perigoso para estado corrupto e traidor. Governos e partidos decentes arma o cidadão e o tem como aliado: governos corruptos e traidores fazem o contrário.

  • Paulo Semblano , sábado, 16 de março de 2019

    O atirador do episódio em Columbine - EUA - escolheu esta universidade porque foi uma das primeiras e retirar o porte de armas para determinados professores. Este porte para professores de universidades americanas passa por um sistema muito rigoroso: além de seguidas avaliações, tem que ter um currículo invejável na vida e no trabalho, e possuir um tempo de legislatura. A mídia não mostra a quantidades de vezes que em faculdades e em outras cidades dos EUA, o cidadão comum que possui o porte impediu massacres e assaltos.