Terror fora do clichê do Espírito Santo para o mundo

Em cartaz no Cine Metrópolis, Mata Negra, de Rodrigo Aragão, é sucesso internacional no cinema de terror

Carol Aragão era criança quando estreou no cinema fazendo uma ponta no filme Mangue Negro, primeiro longa metragem de seu pai, o roteirista e diretor Rodrigo Aragão, cineasta de Guarapari que se tornou um dos expoentes do cinema de terror no Brasil. "Ela aparece em todos meus filmes. Foi criada no meio desse ambiente de monstros e sangue falso", comenta o pai. Crescida, Carol é protagonista de Mata Negra, quinto longa-metragem do diretor, que está em cartaz até sexta-feira no Cine Metrópolis.

O crescimento físico e artístico de Carol serve para visualizar o desenvolvimento da obra capitaneada por Rodrigo Aragão junto a sua equipe.O novo filme, que estreou em dezembro em circuito nacional em 19 estados brasileiros em parceira com a rede Cinemark, representa um salto em sua carreira em termos de produção, mas parece longe do que ainda pode alcançar. Com custo de R$ 630 mil, apresenta um resultado formidável. Enquanto esta obra circula, Rodrigo já filmou e está na pós-produção do épico Cemitério das Almas Perdidas, com orçamento de R$ 2,1 milhões.

Mata Negra foi filmado em 40 dias no sítio da família de Rodrigo em Guarapari, repleto de cenas externas e uma fotografia obscura e aterrorizante em torno da floresta. "Foi um filme bem difícil de filmar por conta das intempéries: chuva, frio, animais silvestres, insetos, cobras. Foi uma produção complicada, filmar no mato é difícil", comenta o diretor. "Mais do que no mangue?", pergunto em referência à filmagem de Mangue Negro. "Não, no mangue é mais difícil. O mangue é hors concurs", ri Rodrigo.

A trama se passa num povoado de interior quando uma jovem que vive com um senhor curandeiro encontra o Livro Perdido de Cipriano, que contém rituais de ocultismo. "Adoro lendas brasileiras e acho interessante também como o Brasil assimila lendas estrangeiras, inserindo características daqui", relata o cineasta. A lenda do livro de Cipriano é europeia, mas se disseminou no Brasil, e seu toque brasileiro fica evidente em Mata Negra. "Ouvia muitas histórias na infância sobre não poder ter o livro em casa ou nunca tocar nele. Quando comecei a estudar a história dele descobri que a lenda diz que o livro que se encontra na livraria não é o verdadeiro, que estaria perdido. Me pareceu um bom mote para brincar com a fantasia e fazer o filme".

A lenda diz que quem tem a posse do livro pode ter poder e riqueza, mas também libertar um terrível mal sobre a terra. O encontro da protagonista com o livro vai desencadear uma série de ações imprevisíveis e fora de seu controle num entorno que, além da floresta, possui camponeses, ladrões, bordéis e fanáticos religiosos em busca de combater o satanismo.

No elenco, Rodrigo uniu grandes atores do Espírito Santo como Markus Konká e Margareth Galvão com outros de destaque nacional como Jackson Antunes, que vive um pastor evangélico, Francisco Gaspar, como um matuto criador de galinhas, e Clarissa Pinheiro.

A personagem interpretada por Carol Aragão é oriunda de outro filme de Rodrigo, Mar Negro, no qual ela termina perdida. Encontrado pelo personagem de Konká, passa a viver na floresta. Esse é um traço das obras de Aragão, mas não são continuidades que exigem ver um filme para entender o outro. Suas obras dialogam de forma que quem acompanha sua filmografia poderá perceber esses entrelaçamentos.

O livro de Cipriano, que aparece pela primeira vez em Noite do Chupa Cabras, será retomado no próximo filme, Cemitério das Almas Perdidas, que conta como o livro misterioso foi escrito e veio parar no Espírito Santo. O final terrorífico de Mata Negra servirá de base para Terra Negra, cujo roteiro já está sendo finalizado por Rodrigo Aragão, que também trabalha o roteiro de Corpo Seco, baseado numa lenda brasileira.

A produtora Fábulas Negras, localizada em Guarapari, está a pleno vapor. Boa parte da equipe que iniciou os trabalhos com Rodrigo segue e outras foram se somando à medida que o trabalho foi crescendo e se profissionalizando ao longo dos anos. Ele tem planos de ainda este ano abrir o estúdio, com seu acervo de monstros e outras produções cinematográficas, para visitação do público. Outro plano é a construção de uma escola de cinema em Guarapari.

Para Rodrigo Aragão, 2018 foi um ano sem precedentes em termos de produção do que chama cinema de gênero no Brasil, que inclui filmes de ação, terror, fantasia, ficção científica. "Ainda falta o público encontrar o cinema de gênero brasileiro. Considerando que o público brasileiro é fã desses estilos de produções americanas, ainda há uma certa desconfiança com o cinema de gênero brasileiro. Mas estamos no caminho, acho que o público brasileiro vai descobrir essa produção que tem cada vez mais quantidade e qualidade".

O cineasta se diz satisfeito com o retorno do público e da crítica, principalmente aquela especializada, em relação à Mata Negra. "O cinema de gênero tem uma questão de divergências que acho fantástica. Isso aconteceu muito com o [José] Mojica [conhecido como Zé do Caixão, grande ícone do cinema de terror no Brasil]. Alguns críticos gostam muito e outros odeiam. Qualquer filme que tem originalidade vai despertar isso".

A originalidade de Rodrigo reside não só na qualidade de maquiagem e produção dos monstros e efeitos, que o consagraram, mas também por trazer uma trama fantástica e com elementos de brasilidade. "Quem estiver esperando um filme de terror padrão vai estranhar e se decepcionar. Quem chegar com a mente aberta para ver algo diferente e embarcar na fantasia, vai gostar", diz, criticando os formatos clichês que envolvem grupos de adolescentes com personagens caricatos que se perdem em algum lugar misterioso.

A originalidade e brasilidade da obra chamou a atenção em mais de 20 países onde Mata Negra foi exibido. Em breve será lançado comercialmente no Japão com o nome de "A Besta Satânica", que o diretor considera um fato um tanto divertido. Em fevereiro o cineasta capixaba embarca para Portugal, onde participa do Festival Internacional de Cinema do Porto (Fantasporto), um dos mais importantes do mundo no ramo da fantasia. Mata Negra é o único filme latino-americano na competição principal de Cinema Fantástico.

O filme que foi tão longe está muito perto. Produzido no Espírito Santo e em cartaz em Vitória, às 16h, no Cine Metrópolis. 


 

AGENDA CULTURAL

Filme Mata Negra, de Rodrigo Aragão

Quando: até sexta-feira 11 de janeiro, às 16h

Onde: Cine Metrópolis, no campus da Ufes em Goiabeiras - Vitória/ES
 

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