'Todos estão muito assustados', diz morador após conflitos em Vitória

Clima é de apreensão nos morros da Capital depois da retaliação de traficantes por morte de jovem

A morte de um jovem no bairro Bonfim provocou pânico na manhã desta sexta-feira (14) em moradores de Vitória, devido a ações que envolveram bloqueio nas avenidas Leitão da Silva e Marechal Campos, tiros e lançamento de fogos de artifício. Embora a polícia tenha contido a situação no asfalto, nas comunidades acima dos morros o clima ainda é de muita apreensão.

"A gente que mora dentro do bairro fica sem entender. É um pânico total. Todos estão muito assustados. Mudou totalmente a rotina nesta sexta-feira", disse um morador que não quis se identificar. Ele observou que desde as 7h30 começou a movimentação de traficantes na região impondo toque de recolher, culminando na ação nas avenidas a partir das 8h. 

A situação gerou uma série de problemas e transtornos para os moradores do chamado Território do Bem, que envolve diversos bairros e comunidades. Por conta do medo, a maioria das crianças não foi para a escola e os ônibus, táxis e carros de aplicativos pararam de circular na região, dificultando a locomoção.

Por pressão ou medo, muitos comércios fecharam as portas, gerando perdas para famílias de pequenos comerciantes. Unidades de saúde também encerraram o expediente, num momento em que há vários casos de dengue nas comunidades, segundo relata um líder comunitário. Outro morador que trabalha fora das comunidades relatou preocupação por retornar à noite sem saber o que pode lhe esperar.

"O problema é que que isso não acabou, com certeza vai acontecer mais alguma coisa, a gente já conhece como isso funciona. Vai continuar e a gente fica no meio disso tudo aí", disse o morador, por observar pessoas circulando fortemente armadas e lembrando que ainda deve haver o velório do jovem morto a tiros, que segundo relatos teriam sido disparados pela polícia.

Operativos policiais têm estado presentes nos últimos dias nos bairros da região em busca de lideranças do tráfico. Uma liderança comunitária atribui responsabilidades também ao poder público pelo conflito. "Eles têm a máquina pública na mão. Nós somos vítimas, a sociedade é vítima. A gente acaba se matando entre nós mesmos. De certa forma, para chegar a esse ponto é porque se perdeu o controle. E o prejuízo é muito grande para a comunidade".

Segundo ele, as crianças são as que mais sofrem com a situação. "As crianças ficam privadas de brincar, de estudar, de sair na rua", afirmou. "Esse tipo de situação também acaba rotulando nossas comunidades", disse sobre os estigmas que envolvem os bairros atingidos pelos conflitos.

A situação parece adquirir uma complexidade devido às tensões também que vem ocorrendo entre policiais e o governo do Estado. "A gente tem que se precaver para não acontecer o que aconteceu em fevereiro de 2017. Acho que essa ação de hoje está associada a todo esse movimento que vem acontecendo já há alguns meses e que o Estado precisa encontrar uma solução com relação à possível paralisação da Polícia Militar. Para mim as coisas não são isoladas não, são fatos que dialogam entre si. Então a gente tem que tomar muito cuidado pra não disseminar clima de pânico, medo e terror na Grande Vitória", alertou um padre que atua na região do Território do Bem.

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