Torquato Neto é poesia e cinema

Sua poesia, centro de sua obra, é uma matriz que vem toda aberta

CINEMA E CONTRACULTURA

Torquato vai ao mundo, se torna também cosmopolita, mas as suas raízes no nordeste se mantêm intactas, e sua ligação com Teresina aparece sobretudo na sua experiência marginal com o cinema, que vai produzir pérolas em superoito, como o artesanal Terror da vermelha, que contrabalançava a sua vivência já intensa na metrópole.

No roteiro de Terror da vermelha, temos a ideia-estrofe do poema “vir/ver/ou/vir”, este é o tema ou leitmotiv do filme. Por sua vez, em Navilouca, revista vanguardista e contracultural, que montou com Waly Salomão, já quando morreria logo em seguida, revista esta publicada em 1974, temos este poema novamente em destaque quando Torquato usa o mesmo em uma versão pós-tropicalista, pós-concretista, como mote. Portanto, “vir/ver/ou/vir” é uma estrofe-valise que serve ao poema gráfico e ao filme. Em Terror da vermelha temos Torquato no que se pode chamar de performance, ele que aqui faz o trabalho amplo de ator e diretor.

O POEMA TORQUATIANO

Podemos fazer uma leitura contínua do tema de Torquato, isto é, sua produção poética tem uma linha que pode conduzir a um texto que é como um work in progress, temos um leitmotiv, o poema evolui em poemas diversos, Torquato e sua obsessão, o poeta e sua recondução ininterrupta. Lembrando, por sua vez, que o poema torquatiano tem elemento biográfico, vida e obra se fundem e formam o amálgama aonde irá se misturar o tropicalismo, a ruptura com o tropicalismo, o diálogo com o concretismo e a posterior quebra deste diálogo, já antecipando a poesia marginal, marginalidade esta que virá com força na forma-filme, ele como vampiro-ator, diretor de si mesmo, num gesto artesanal de ousadia.

Torquato se torna um ser híbrido que faz poema e prosa, com texto e intertextualidade, com apropriações, citações, palavras-valise, faz experimento com a palavra, dialoga com um espectro amplo de vanguardas literárias, clímax multifacetado este que se dará, por sua vez, com a Navilouca. Na obra torquatiana, temos a escrita íntima de seus cadernos, e a escrita-limite no seu diário de internação. Torquato, mesmo no fio da navalha, consegue escrever sobre cinema, e faz sucesso em sua coluna geleia geral no jornal Última Hora, com a chamada telegrafia oswaldiana sendo um dos motes em que se dá a produção textual torquatiana já no seu canto do cisne.

Torquato combina diversos elementos, e sua poesia, centro de sua obra, é uma matriz que vem toda aberta, polifônica, com esta herança antropofágica, intertextual, polifônica, que é uma voz em várias, com o leitmotiv do fim que não tem mais fim. Torquato traz a sua originalidade, mas também devora seus semelhantes, e seu texto é o resultado do que sai de sua cabeça e do que ele importa do que vê, lê e ouve.

Temos, nesta apropriação, o “desafinar o coro dos contentes” de Sousândrade, a “alegria como prova dos nove” de Oswald de Andrade, o “minha terra tem palmeiras” de Gonçalves Dias, a brisa do Brasil que “beija e balança” de Castro Alves, o “anjo torto” de Drummond, e com tudo isso sendo remodelado com a assinatura de Torquato Neto.

A apropriação é um gesto poético de Torquato que se dará, sobretudo, em sua fase tropicalista, em que temos os amálgamas dos poemas-canções como “Marginália II” e talvez o opus magnus de Torquato, que é “Geleia Geral”. Músicas estas que são manifestos tropicalistas emblemáticos de todo o movimento. Apropriação aqui que forma o chamado amálgama através da técnica da justaposição.

E temos aqui a chamada polêmica tropicalista, que dividiu o mundo da música, entre puristas da MPB e o outro lado, de tropicalistas, que traziam novidades internacionais, como o uso da guitarra elétrica, e no plano da crítica literária, por sua vez, temos um racha, duas frentes opostas, com Roberto Schwarz lhes acusando um traço conservador, e os adesistas que são os concretistas e a vertente universitária carioca, que incluía aí figuras como Heloísa Buarque de Hollanda e Silviano Santiago, ala crítica esta que tanto apoiou o tropicalismo, como acompanhou o desdobramento setentista disto, que daria, por exemplo, na poesia marginal. Podemos dizer, por fim, que a fase tropicalista de Torquato Neto é um estado vigoroso de bricolagem poética.

POEMAS E CANÇÕES

TRÊS DA MADRUGADA : Canção que ficou conhecida na voz de Gal Costa, temos um canto perdido na madrugada, aqui a voz de Gal canta a voz de Torquato, ou melhor, seu eu lírico, no que vem : “Três da madrugada/Quase nada, a cidade abandonada/E essa rua que não tem mais fim”. Aqui, como sempre, a palavra-valise da obra torquatiana, fim, esta que, também, vem com sem fim, não tem mais fim, o fim torquatiano insiste em ser paradoxo, teima por não ter fim, e a madrugada é este portal do infinito do pensamento em que a cidade está abandonada, e continua o périplo do letrista-poeta, no que temos, em seguida: “Nada, noite alta madrugada/Essa cidade que me guarda/Que me mata de saudade/É sempre assim/Triste madrugada”. A sutil melancolia, uma certa tristeza elegante, harmônica, compõe a triste madrugada torquatiana, e temos : “Pelas três da madrugada/Toda palavra calada/Dessa rua da cidade que não tem mais fim.”. Sem fim aqui só tem um ponto no tempo, três da madrugada.

MARGINÁLIA II : Canção assinada por Gilberto Gil e Torquato Neto, a letra canta um tempo duro, é o regime militar, a ditadura, o mundo marginal se esgueira, neste contexto denso e tenso, e produz arte, o tropicalismo nos aparece aqui em sua magnitude, e uma de suas pérolas é o segundo álbum de estúdio de Gilberto Gil, pela Philips, que tem esta canção, no que vem : “Eu, brasileiro, confesso/Minha culpa meu pecado/Meu sonho desesperado”. O brasileiro tem o pecado, a culpa, o desespero, e Torquato confessa esta tensão social, política, existencial, que cobre o país num momento exasperante, no que vem : “Eu, brasileiro, confesso/Minha culpa meu degredo”. O degredado, a ideia de exílio, que logo levarão Caetano e Gil, e Torquato antevê, é o fim do mundo, pois : “Aqui é o fim do mundo/Aqui é o fim do mundo/Ou lá/Aqui o Terceiro Mundo/Pede a bênção e vai dormir/Entre cascatas palmeiras/Araçás e bananeiras/Ao canto da juriti”. Dor de terceiro mundo, a culpa toda dorida, entre fábulas e espetáculos naturais, uma terra já cantada por Gonçalves Dias, que aqui tem palmeiras, bananeiras e araçás ao canto da juriti, no que segue : “Conheço bem minha história/Começa na lua cheia/E termina antes do fim”. Agora Torquato é biográfico, veja bem, e não profético, ele conta a sua história, a consequência natural não é mística, ele não é o vidente rimbaudiano, sua desordem dos sentidos termina antes do fim, aqui é a expressão poética, um produto da obsessão do fim, palavra-valise, estribilho em toda a obra torquatiana, no que temos, aqui com a metáfora de Gonçalves Dias, ao fim : “Minha terra tem palmeiras/Onde sopra o vento forte/Da fome do medo e muito/Principalmente/Da morte/O-lelê, lalá/A bomba explode lá fora/E agora, o que vou temer?/Yes : nós temos banana/Até pra dar,/E vender”. A ditadura e o desbunde, ao mesmo tempo, são esta coda, o festivo se depara com a bomba, a repressão, o medo da morte, esta verdade universal, só negada através de bravatas, e que vem como um olêlê, olálá, e se vende o melhor do melhor, yes, bananas.

GELEIA GERAL : Uma das canções mais bem acabadas do tropicalismo, funde antropofagia oswaldiana com uma paródia do beletrismo bacharelesco de uma tradição poética ufanista, afetada e rebuscada de rimas bem urdidas, pois, quando se trata da chave de prata e da primeira estrofe, canção-poema aqui é um canto sutil de versos que lidam com o arcaico em uma chave moderna de interpretação, pois já teremos, logo a seguir, referência ao folclore nordestino, no estribilho-refrão do bumba-meu-boi, e a própria antropofagia aparecendo como esta fonte que também funda o tropicalismo, em seu nacional-internacional de linguagem sugestiva, não-evidente, já com Caetano e Gil, e aqui também Torquato, canção geleia geral que estará no icônico esforço coletivo do movimento, o álbum tropicalia ou panis et circencis, antropofagia que é aqui o devoramento de Oswald de Andrade na prova dos nove e, para variar, também de um dos poetas brasileiros mais devorados da História, Gonçalves Dias, no que segue : “Um poeta desfolha a bandeira/E a manhã tropical se inicia” (...) “Na geleia geral brasileira/Que o jornal do brasil anuncia/É bumba iê, iê boi/Ano que vem mês que foi/Ê bumba iê, iê iê/É a mesma dança, meu boi/“A alegria é a prova dos nove”/E a tristeza é teu porto seguro/Minha terra onde o sol é mais limpo/E Mangueira onde o samba é mais puro/Tumbadora na selva-selvagem/Pindorama, país do futuro”. Temos a dupla face de uma letra-poema que lida com a natureza e o caráter de indústria da civilização, temos a terra, o sol, a cultura popular com a escola de samba Mangueira, e o fato industrial na citação do Jornal do Brasil, o nome indígena do Brasil, Pindorama, nos fazendo mais uma vez esta viagem de retorno, no que segue :  “Doce mulata malvada/Um elepê de Sinatra/Maracujá mês de abril/Santo barroco baiano” (...) “Carne-seca na janela/Alguém que chora por mim/Um carnaval de verdade/Hospitaleira amizade/Brutalidade jardim” (...) “Um poeta desfolha a bandeira/E eu me sinto melhor colorido/Pego um jato viajo arrebento/Com o roteiro do sexto sentido/Voz do morro, pilão de concreto/Tropicália, bananas ao vento”. Eis o manifesto- letra, está posto o lema, palavra de ordem, slogan, sugestão, direção, mais uma vez, emblema, e que vira clichê torquatiano, tropicalista, na perspectiva histórica, esta grande visão que nos diz, Tropicália, bananas ao vento. Coda-referência, definitiva. Chave de ouro.

DEUS VOS SALVE A CASA SANTA : Canção que junta Torquato Neto, Caetano Veloso e Nara Leão, tem uma letra simples e direta, e que é narrativa, à primeira vista, mas que também se trata de uma alegoria tropicalista, no que temos : “Um bom menino perdeu-se um dia/Entre a cozinha e o corredor/O pai deu ordem a toda família/Que o procurasse e ninguém achou”. E a canção tem versos que suscitam a ternura, uma certa paz mortiça, no entanto, que nos diz : “Ó deus vos salve esta casa santa/Onde a gente janta com nossos pais/Ó deus vos salve esta mesa farta/Feijão verdura ternura e paz” (...) “A luz mortiça ilumina a mesa/E a brasa acesa queima o porão”. Luz exangue, paz amolecida, na casa santa, em que deus é invocado, inaugurando a refeição.

SEM TÍTULO : O poema aqui tem a descrição de que o poeta nasce feito, e como diz Gilberto Gil, e uma música sua, o poeta fala do incontível, isto é, o poeta é aquele afobado que sempre se transborda, e, voilá, está pronto o poema, no que temos : “o poeta nasce feito/assim como dois mais dois;/se por aqui me deleito/é por questão de depois/a glória canta na cama/faz poemas, enche a cara/mas é com quem mais se ama/que a gente mais se depara”. O poeta transbordante enche a cara e ama, sem contradição, ele é tudo, o poeta é justamente o que diz e desdiz, o único artista que pode ter todas as opiniões ao mesmo tempo, e segue : “saiba, Ronaldo, acontece/uma vez em qualquer vida :/as teias que a gente tece/abrem sempre uma ferida”. O caminho tece, e se fere, inevitável, a aritmética da vida e do coração nos saúda e nos aperta, como em altos e baixos, e que segue : “nem sei se eu sou o caso/que mais mereço entender –/de qualquer forma, o A-caso/me deixa tonto, e querer/não é sentar, ter na mesa/uma questão de depois :/é, melhor, ver com certeza/quem imagina um mais dois./paris, europa, o brasil lá no brasil,/seis de setembro de 1969.”. O acaso que o poeta deslinda aqui vira viagem, jornada, exílio do poeta.

LITERATO CANTABILE : O poema vem como a palavra guardada, bem cuidada, para não ser exibida para abelhudos de plantão, o poema diz e desdiz, não precisa falar tudo o tempo todo, cada gesto é importante, e os silêncios fundamentais, no que segue : “Agora não se fala mais/toda palavra guarda uma cilada/e qualquer gesto é o fim/do seu início;/agora não se fala nada/e tudo é transparente em cada forma/qualquer palavra é um gesto”. A transparência não vem da sinceridade irrestrita, ela vem de uma alma resoluta, pronta, que sabe o que faz, e o poema faz sua guerra, a quem vence que ganhe as congratulações, pois vencer tem que ser mérito, ao menos no poema, neste mundo empírico repleto de injustiças, mas vem : “a guerra acabou/quem perdeu agradeça/a quem ganhou.”. E aqui temos, recapitulando o início do poema, as razões do lusco-fusco dos dizeres, eles guardam abismos, precipícios, é um terreno escorregadio, em que o gesto mostra e guarda, estratégia e não ardil, prudência e não covardia, função de sabedoria fundamentada na experiência, senão os literatos vão ao hospício, aonde se diz qualquer coisa à qualquer hora, só que lá ninguém é ouvido, é o grito dos malditos, gritando para surdos, no que vem : “toda palavra envolve o precipício/e os literatos foram todos para o hospício./e não se sabe nunca mais do fim. agora o nunca./agora não se fala nada, sim. fim, a guerra/acabou/e quem perdeu agradeça a quem ganhou.”. Não se fala nada na loucura, pois se fala o tempo todo na loucura. A quem ganhou, este vence, está são, e os que caíram no precipício, tanto perderam como enlouqueceram. Na sua interpretação política, por sua vez, o poema fala do silêncio que também é a censura, calar à força o que explode faz a loucura dos que perdem e não podem mais falar, a tortura ganha pela força, pois não sabe falar, por isso mesmo ela quer fazer calar.

POEMAS E CANÇÕES :

TRÊS DA MADRUGADA

Três da madrugada

Quase nada, a cidade abandonada

E essa rua que não tem mais fim

Três da madrugada

Tudo em nada

A cidade abandonada

E essa rua não tem mais nada de mim

Nada, noite alta madrugada

Essa cidade que me guarda

Que me mata de saudade

É sempre assim

Triste madrugada

Tudo e nada, a mão fria mão gelada toca bem de leve em mim

Saiba, meu pobre coração não vale nada

Pelas três da madrugada

Toda palavra calada

Dessa rua da cidade que não tem mais fim.

(CANÇÃO)

 

MARGINÁLIA II

Eu, brasileiro, confesso

Minha culpa meu pecado

Meu sonho desesperado

Meu bem guardado segredo

Minha aflição

Eu, brasileiro, confesso

Minha culpa meu degredo

Pão seco de cada dia

Tropical melancolia

Negra solidão :

 

Aqui é o fim do mundo

Aqui é o fim do mundo

Ou lá

 

Aqui o Terceiro Mundo

Pede a bênção e vai dormir

Entre cascatas palmeiras

Araçás e bananeiras

Ao canto da juriti

Aqui meu pânico e glória

Aqui meu laço e cadeia

Conheço bem minha história

Começa na lua cheia

E termina antes do fim

 

Aqui é o fim do mundo

Aqui é o fim do mundo

Ou lá

 

Minha terra tem palmeiras

Onde sopra o vento forte

 

Da fome do medo e muito

Principalmente

Da morte

O-lelê, lalá

A bomba explode lá fora

E agora, o que vou temer?

Yes : nós temos banana

Até pra dar,

E vender

 

Aqui é o fim do mundo

Aqui é o fim do mundo

Ou lá.

(CANÇÃO)

 

GELEIA GERAL

Um poeta desfolha a bandeira

E a manhã tropical se inicia

Resplandente cadente fagueira

Num calor girassol com alegria

Na geleia geral brasileira

Que o jornal do brasil anuncia

 

É bumba iê, iê boi

Ano que vem mês que foi

Ê bumba iê, iê iê

É a mesma dança, meu boi

 

“A alegria é a prova dos nove”

E a tristeza é teu porto seguro

Minha terra onde o sol é mais limpo

E Mangueira onde o samba é mais puro

Tumbadora na selva-selvagem

Pindorama, país do futuro

 

Ê bumba iê, iê boi

Ano que vem mês que foi

Ê bumba iê, iê iê

É a mesma dança, meu boi

 

É a mesma dança na sala

No Canecão na TV

E quem não dança não fala

Assiste a tudo e se cala

Não vê no meio da sala

As relíquias do Brasil :

 

Doce mulata malvada

Um elepê de Sinatra

Maracujá mês de abril

Santo barroco baiano

Superpoder de paisano

Formiplac e céu de anil

Três destaques da Portela

Carne-seca na janela

Alguém que chora por mim

Um carnaval de verdade

Hospitaleira amizade

Brutalidade jardim

 

Ê bumba iê, iê boi

Ano que vem mês que foi

Ê bumba iê, iê iê

É a mesma dança, meu boi

 

Plurialva contente e brejeira

Miss Linda Brasil diz bom dia

E outra moça também Carolina

Da janela examina a folia

Salve o lindo pendão dos seus olhos

E a saúde que o olhar irradia

 

Ê bumba iê, iê boi

Ano que vem mês que foi

Ê bumba iê, iê iê

É a mesma dança, meu boi

 

Um poeta desfolha a bandeira

E eu me sinto melhor colorido

Pego um jato viajo arrebento

Com o roteiro do sexto sentido

 

Voz do morro, pilão de concreto

Tropicália, bananas ao vento

 

Ê bumba iê, iê boi

Ano que vem mês que foi

Ê bumba iê, iê iê

É a mesma dança, meu boi.

(CANÇÃO)

 

DEUS VOS SALVE A CASA SANTA

Um bom menino perdeu-se um dia

Entre a cozinha e o corredor

O pai deu ordem a toda família

Que o procurasse e ninguém achou

A mãe deu ordem a toda polícia

Que o perseguisse e ninguém achou

 

Ó deus vos salve esta casa santa

Onde a gente janta com nossos pais

Ó deus vos salve esta mesa farta

Feijão verdura ternura e paz

 

No apartamento vizinho ao meu

Que fica em frente ao elevador

Mora uma gente que não se entende

Que não entende o que se passou

Maria Amélia, filha da casa,

Passou da idade e não se casou

 

Ó deus vos salve esta casa santa

Onde a gente janta com nossos pais

Ó deus vos salve esta mesa farta

Feijão verdura ternura e paz

 

Um trem de ferro sobre o colchão

A porta aberta pra escuridão

A luz mortiça ilumina a mesa

E a brasa acesa queima o porão

Os pais conversam na sala e a moça

Olha em silencia pro seu irmão

 

Ó deus vos salve esta casa santa

Onde a gente janta com nossos pais

Ó deus vos salve esta mesa farta

Feijão verdura ternura e paz.

(CANÇÃO)

 

SEM TÍTULO

o poeta nasce feito

assim como dois mais dois;

se por aqui me deleito

é por questão de depois

 

a glória canta na cama

faz poemas, enche a cara

mas é com quem mais se ama

que a gente mais se depara

 

ou seja :

 

quarenta e sete quilates

sessenta e nove tragadas

vinte e sete sonhos, noites

calmas, desperdiçadas.

 

saiba, Ronaldo, acontece

uma vez em qualquer vida :

as teias que a gente tece

abrem sempre uma ferida

 

no canto esquerdo do riso?

No lado torto da gente?

talvez.

o que mais for preciso

não sei sequer se é urgente.

 

nem sei se eu sou o caso

que mais mereço entender –

de qualquer forma, o A-caso

me deixa tonto, e querer

 

não é sentar, ter na mesa

uma questão de depois :

é, melhor, ver com certeza

quem imagina um mais dois.

 

                             paris, europa, o brasil lá no brasil,

                                            seis de setembro de 1969.

 

LITERATO CANTABILE

Agora não se fala mais

toda palavra guarda uma cilada

e qualquer gesto é o fim

do seu início;

agora não se fala nada

e tudo é transparente em cada forma

qualquer palavra é um gesto

e em sua orla

os pássaros de sempre cantam assim,

do precipício :

 

a guerra acabou

quem perdeu agradeça

a quem ganhou.

não se fala. não é permitido

mudar de ideia. é proibido.

não se permite nunca mais olhares

tensões de cismas crises e outros tempos

está vetado qualquer movimento

do corpo ou onde quer que alhures.

toda palavra envolve o precipício

e os literatos foram todos para o hospício.

e não se sabe nunca mais do fim. agora o nunca.

agora não se fala nada, sim. fim, a guerra

acabou

e quem perdeu agradeça a quem ganhou.

Link recomendado :  Gilberto Gil & Torquato Neto - Geleia Geral

 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog:
http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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