Torquato Neto, todas as horas do fim

Torquato tinha pleno domínio de seus recursos literários e de letrista

TEXTO – INTRODUÇÃO

Torquato Neto tem uma obra poética e de letrista muito ligada à sua vivência, ele que possui uma vida curta e, por conseguinte, uma obra de poesia escrita póstuma, mesmo que no cenário do Tropicalismo como letrista e do jornalismo ele tenha tido êxito, mas foi uma chama que se queimou. Torquato talvez não tenha tido a oportunidade de uma ponderação que poderia ter surgido bem depois da idade em que decidiu por se suicidar, aqui temos, já desfazendo a palavra anterior, o imponderável, a especulação exangue diante do que não se sabe e do que, em geral, não aceitamos, nossos inúmeros poetas suicidas, linhagem evolutiva que talvez tenha começado por Safo e que espero que já tenha cessado, em novos tempos de nossa literatura contemporânea (doce ilusão).

Torquato, como se disse, tem uma poesia póstuma, um legado textual breve, de um jovem, que antes de sua compilação, era um conjunto complexo e disperso de fragmentos, num trabalho interrompido quando Torquato, no seu aniversário de 28 anos, se mata ligando o gás, destruindo seus textos, salvos, em parte, pela sua mulher Ana Duarte, e penso em como nós podemos, muitas vezes, ser cruéis com nós mesmos, num beco sem saída, seja por motivação clínica, ambiental ou uma soma de ambas em que a existência não nos serve mais. Foi em novembro de 1972.

Torquato foi um publicista agitador, era um artista polivalente, ator, diretor de filme, fazendo bicos, divulgando discos e fazendo também trabalhos para a televisão. Tinha pleno domínio de seus recursos literários e de letrista. Torquato vai da forma em Louvação para o conflito herdado de Sousândrade do desvio, da deformação, do desalinho, quando cita o mesmo, no verso: “desafinar o coro dos contentes”.

Nos anos de 1971 e 1972, Torquato consegue, com sua coluna Geleia Geral na Última Hora, atravessar a cortina de fumaça da ditadura militar e nos trazer um brilho, uma graça, um frescor, divulgando a cultura que continuava acontecendo ao redor, mesmo com a censura e a tortura. Torquato, portanto, já fazendo vida e suicídio dialogarem, viveu o desbunde, que virou hospício, viveu a contracultura, que virou presídio, num embate entre duas forças opostas que podem ser o custo que lhe veio ao abrir o gás. No caso da internação no Hospital Psiquiátrico de Engenho de Dentro, hoje Instituto Municipal Nise da Silveira, temos um diário que descreve os impulsos autodestrutivos, que surgiam dos excessos de álcool e LSD, e a luta de Torquato para ficar lúcido.  

Quanto à obra poética póstuma de Torquato Neto, esta começa pelo livro Os últimos dias de Paupéria, lançado em 1973, organizado pela viúva Ana e por Waly Salomão. Em 1982, temos uma segunda edição ampliada, já com uma compilação maior de sua atividade de jornalista. Tais edições de Paupéria hoje são raridades.

O terceiro trabalho que aparece de Torquato, por sua vez, é a compilação chamada Torquatália, e que representa um avanço importante na organização do espólio literário do escritor, pois aqui temos uma tentativa e também uma realização considerável, de dois volumes, da obra torquatiana, tendo como organizador o editor Paulo Roberto Pires. Aqui temos a obra de Torquato reorganizada, ampliando o corpus conhecido dos escritos que ele produziu, e o mais importante, com as categorias por gêneros textuais mais esclarecidas. Contudo, sempre é bom lembrar que tal ordenamento da obra é feito por outros, pois, obviamente, Torquato já morava no silêncio. O que temos de fortuna crítica, por outro lado, envolve seu sucesso tropicalista, além do pós-Tropicalismo e sua verve praticada na contracultura.

O acervo literário de Torquato, em certo momento, é entregue à sua família no Piauí, que ficou sob os cuidados de seu primo, George Mendes, e vieram então mais dois volumes póstumos, desta vez de poemas de sua adolescência e juventude, que vira o Juvenílias, e temos, ponto interessante, O fato e a coisa, título criado por Torquato, escritos também de juventude, talvez a única obra original decidida pelo próprio Torquato, que o escritor preservou e manteve na íntegra até 1972, ano em que ocorreu a tragédia.

O poeta imberbe Torquato, por sua vez, ao vermos estas duas obras citadas acima, já tem uma poesia lírica e reflexiva, com fonte no modernismo e no pensamento universitário dos anos 1960, bebendo, sobretudo, no conterrâneo Mário Faustino, que é o poeta recitado no filme clássico de Glauber Rocha, Terra em Transe. Na música, vemos um Torquato radiante criativamente e no sentido de sucesso, na MPB pós-Bossa Nova, principalmente da invasão baiana, e compositores como Geraldo Vandré e Edu Lobo, até ao clímax com o Tropicalismo, sob o influxo modernista de Oswald de Andrade, o concretismo poético paulista e, por fim, o desbunde com Hélio Oiticica.

POEMAS E CANÇÕES

COGITO: o poema parte da ideia cartesiana ilustre, sim, apenas no título, ou o que pode erroneamente sugerir, a um filósofo açodado, exibidoso de seu saber acadêmico, mas aqui já temos o drama que vai ocorrer, o sujeito torquatiano aparece fragmentado, nenhum pouco afeito a uma razão como fonte de autonomia, aqui o sujeito é frágil, e a poesia manifesta a ideia de vulnerabilidade, o que entendo numa visão, contudo, desassombrada e não romanceada, como certa crítica literária mistificadora de teses suicidas costuma fazer, numa imprudência exegética que é uma mistura de visão fanática e ingênua sobre os poetas, a famigerada aura que gostam de colocar como um atributo da arte e dos artistas, que culminam na palavra gênio, enfim, mas aqui vem o poema, no que temos: “eu sou como eu sou/pronome/pessoal intransferível/do homem que iniciei/na medida do impossível/eu sou como eu sou/agora/sem grandes segredos dantes/sem novos secretos dentes/nesta hora/eu sou como eu sou/presente”.

A vida presente do poeta, que viria aqui como uma virtude de força, o que é de se esperar, no entanto, culmina com uma visão fatalista, o poeta vive já o fim, e Torquato aqui é peremptório. Ao contrário de T.S.Eliot, que dizendo que seu fim é seu começo e vice-versa, comete uma petição de princípio e dá por cíclica a tarefa que finda, começa e recomeça, e finda novamente, chave de prata e de ouro, um círculo, pois. O que não é o caso torquatiano, aqui temos uma linha reta, pois Torquato encara o fim como algo constante, um fim sem fim, mas que na coda anuncia como fim literal do poema, o que chamam de suicídio, uma profecia biográfica, o que eu julgo como tirar sentido psíquico do poema, e eu prefiro olhar o fim como um evento estético do poema, o que não deixa de ser uma perspectiva, não sou dono da verdade, mas o poema, logo, tem seu fim, no que vem: “eu sou como eu sou/vidente/e vivo tranquilamente/todas as horas do fim.”.

SEM TÍTULO: Aqui temos uma concepção de poesia fundante da arte, a poesia é o centro orbital de tudo, e é tão descolada, que além de artística, é também manhosa, no que temos : “A poesia é a mãe das artes/& das manhas em geral :”. O poema ganha um corpo dramático, a seguir : “Mal, muito mal : a paisagem, o verde/da manhã, rever-te sob o sol de tropical/reverso da mortalha (o mal), notícias/de jornal – vermelho e negro – naturalismo/eu cismo.”. A face naturalista é também fatalista, e nada mais certo desta morbidez do que a ideia do mal, aqui o jornal, vermelho e negro, censura e tortura, e um poema que sai de sua manha luminosa, e cai, ao fim, na real, tempos bicudos.

LET`S PLAY THAT : Let's Play That, álbum gravado por Jards Macalé e Naná Vasconcelos em 1983, só vai sair em 1994. A faixa-título é uma letra de Torquato Neto, aqui temos o material bruto, isto é, escrito, que é uma paródia do Poema de Sete Faces de Carlos Drummond de Andrade, um dos poemas mais seminais e canônicos (como você consegue isso Drummond, me ensina?) da poesia brasileira, e que termina com a citação do poeta Sousândrade, no que temos : “Quando eu nasci/Um anjo louco muito louco/Veio ler a minha mão/Não era um anjo barroco/Era um anjo muito louco, torto” (...) “Eis que esse anjo me disse” (...) “Vai bicho desafinar/O coro dos contentes/Let`s play that.”.

Canção: Jards Macalé/Torquato Neto

SEM TÍTULO : O poema bélico e belo, armas e artes, espinho e rosa, e que termina aqui, com Torquato, qual um apresentador de auditório, dá um alô, sem antes lembrar que a poesia maldita é assim por fazer manhas, uma certa esperteza, uma poesia ladina, mas que é uma convocação, escrevam (e/ou declamem) poesia, pois, no que vem :“O Poeta é a mãe das armas/& das Artes em geral –“ (...) “quem não inventa as maneiras/do corte no carnaval/(alô, malucos) é traidor/da poesia : não vale nada, lodal./A poesia é o pai das ar-/timanhas de sempre : quente/ura no forno quente/do lado de cá, no lar/das coisas malditíssimas;/alô poetas, poesia!” (...) “Poetemos pois.”.

MAMÃE, CORAGEM : A canção, emblemática no álbum portador da Tropicália, álbum que é como o opus magnum do movimento, é um dos momentos de arte maior, no que temos, com um Torquato em seu auge como letrista, a luta de filho que vai embora para uma paragem inóspita, cheirando à tragédia, mas que já tenta consolar a mãe, na palavra chave coragem, em fundo brechtiano, no que vem : “Mamãe mamãe não chore/A vida é assim mesmo/Eu fui embora/Mamãe mamãe não chore/Eu nunca mais vou voltar por aí/Mamãe mamãe não chore/A vida é assim mesmo/E eu quero mesmo/É isso aqui” (...) “Veja as contas do mercado/Pague as prestações/- ser mãe/É desdobrar fibra por fibra/Os corações dos filhos,/Seja feliz/Seja feliz” (...) “Mamãe seja feliz/Mamãe mamãe não chore/Não chore nunca mais não adianta” (...) “Eu por aqui vou indo muito bem/De vez em quando brinco o carnaval/E vou vivendo assim : felicidade/Na cidade que eu plantei pra mim/E que não tem mais fim/Não tem mais fim/Não tem mais fim.”. Torquato diz à mamãe, não chore, pois para onde ele vai, não tem mais fim.

Canção : Caetano Veloso/Torquato Neto (do álbum Tropicalia ou Panis Et Circensis, com a voz descomunal de Gal).

TODO DIA É DIA D :  Ronaldo Bastos idealizou e conseguiu lançar a coletânea Todo Dia É Dia D, marcando os 30 anos da morte de Torquato. O álbum traz versos de Torquato combinadas com melodias de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Edu Lobo, e que se trata de gravações, por sua vez, feitas nos anos 1960 e início dos anos 1970. A faixa-título, por sua vez, vem de um primeiro registro, um disco obscuro de Gilberto Gil, o “Cidade do Salvador”, por fim, e aqui vem trechos da canção, da letra, temos : “Desde que eu saí de casa?/Trouxe a viagem da volta/Gravada na minha mão” (...) “Abro a porta e a janela/Todo dia é dia D” (...) “Todo dia é mesmo dia/De amar-te e a morte morrer/Todo dia é mais dia, menos dia/É dia D.”. O fim aparece aqui mais uma vez como esta presença constante. Torquato, contudo, parece viver intensamente, pois o dia D é todo dia, quem vive em situação-limite, e faz letra, cita a palavra fim primeiro como arte, uma arte do limite, depois fica por conta do letrista, a sorte foi lançada.

Canção : Carlos Pinto/Torquato Neto

POEMAS E CANÇÕES 

COGITO

eu sou como eu sou

pronome

pessoal intransferível

do homem que iniciei

na medida do impossível

 

eu sou como eu sou

agora

sem grandes segredos dantes

sem novos secretos dentes

nesta hora

 

eu sou como eu sou

presente

desferrolhado indecente

feito um pedaço de mim

 

eu sou como eu sou

vidente

e vivo tranquilamente

todas as horas do fim.

 

SEM TÍTULO

A poesia é a mãe das artes

& das manhas em geral : alô poetas

poesia no país do carnaval,

têm a palavra calada

pelas doenças do mal.

 

Mal, muito mal : a paisagem, o verde

da manhã, rever-te sob o sol de tropical

reverso da mortalha (o mal), notícias

de jornal – vermelho e negro – naturalismo

eu cismo.

 

LET`S PLAY THAT

Quando eu nasci

Um anjo louco muito louco

Veio ler a minha mão

Não era um anjo barroco

Era um anjo muito louco, torto

Com asas de avião

Eis que esse anjo me disse

Apertando a minha mão

Com um sorriso entre dentes

Vai bicho desafinar

O coro dos contentes

Let`s play that.

 

SEM TÍTULO

O Poeta é a mãe das armas

& das Artes em geral –

alô, poetas : poesia

no país do carnaval;

alô, malucos : poesia

não tem nada a ver com os versos

dessa estação muito fria.

 

O Poeta é a mãe das Artes

& das armas em geral :

quem não inventa as maneiras

do corte no carnaval

(alô, malucos) é traidor

da poesia : não vale nada, lodal.

 

A poesia é o pai das ar-

timanhas de sempre : quent

ura no forno quente

do lado de cá, no lar

das coisas malditíssimas;

alô poetas, poesia!

poesia poesia poesia poesia!

O poeta não se cuida ao ponto

de não se cuidar : quem for cortar meu cabelo

já sabe : não está cortando nada

além da MINHA bandeira IIIIIIIIIII =

sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar

Isso : ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar. a

r : em primeiríssimo, o lugar.

 

Poetemos pois.

 

MAMÃE, CORAGEM

Mamãe mamãe não chore

A vida é assim mesmo

Eu fui embora

Mamãe mamãe não chore

Eu nunca mais vou voltar por aí

Mamãe mamãe não chore

A vida é assim mesmo

E eu quero mesmo

É isso aqui

 

Mamãe mamãe não chore

Pegue uns panos pra lavar

Leia um romance

Veja as contas do mercado

Pague as prestações

- ser mãe

É desdobrar fibra por fibra

Os corações dos filhos,

Seja feliz

Seja feliz

 

Mamãe mamãe não chore

Eu quero eu posso eu quis eu fiz

Mamãe seja feliz

Mamãe mamãe não chore

Não chore nunca mais não adianta

Eu tenho um beijo preso na garganta

Eu tenho jeito de quem não se espanta

(Braço de ouro vale dez milhões)

Eu tenho corações fora do peito

Mamãe não chore, não tem jeito

Pegue uns panos pra lavar leia um romance

leia Elzira, a morta-virgem,

O grande industrial

 

Eu por aqui vou indo muito bem

De vez em quando brinco o carnaval

E vou vivendo assim : felicidade

Na cidade que eu plantei pra mim

E que não tem mais fim

Não tem mais fim

Não tem mais fim.

 

TODO DIA É DIA D

Desde que eu saí de casa

Trouxe a viagem da volta

Gravada na minha mão

Enterrada no umbigo

Dentro e fora assim comigo

Minha própria condução

Todo dia é o dia dela

Pode não ser pode ser

Abro a porta e a janela

Todo dia é dia D

 

Há urubus no telhado

E a carne seca é servida

Escorpião encravado na sua própria ferida

Não escapa, só escapo pela porta da saída

Todo dia é mesmo dia

De amar-te e a morte morrer

Todo dia é mais dia, menos dia

É dia D.

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Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog
:http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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