Transvivo representa o Estado no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro

Curta-documentário capixaba acompanha diálogo de dois homens trans e estreia em junho no Canal Brasil

O filme Transvivo (2017), de Tati Franklin, acaba de ser selecionado para o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, premiação anual promovida pela Academia Brasileira de Cinema. Integrando a categoria de curta-documentários, é a única produção capixaba entre 19 concorrentes.

Transvivo é o primeiro filme sobre o universo LGBTQI+ da dupla Tati Fraklin, diretora, e Suellen Vasconcelos, assistente de direção, que já estão em fase de produção de um longa sobre a temática.

O fato de serem LGBTQI+, bem como a maior parte da equipe técnica de realização do documentário, explica um pouco do sucesso que tem sido conquistado em festivais e, principalmente, junto ao público.

“Esse lugar de ser LGBT e produzir filmes LGBT é um lugar de vivência, de experiência, de conhecimento de causa. A gente pertence à causa, pensa sobre isso, estuda sobre isso, vive isso, então é muito mais assertivo no sentido da abordagem, do que pegar talvez um homem hetero pra pensar sobre esse filme, com um olhar completamente diferente”, pondera Suellen, em entrevista a Século Diário ainda sob o impacto de mais uma rodada de sessões em que os espectadores responderam de forma emocionante à mensagem do filme.

“Toda sessão que a gente exibe Transvivo tem um relato super tocante, super pungente sobre a experiência das pessoas trans, a experiência da família”, exulta a diretora de produção, citando várias histórias.

Teve a mãe que topou ir a um acompanhamento psicológico com a filha que está em processo de transição. Teve a aluna trans de uma professora de cinema de São Paulo que mandou um e-mail pra Tati dizendo como o filme a tocou e a motivou a produzir filmes e se ver nas telas. Enfim ...

“É uma janela, um púlpito, um espaço para essas pessoas que são invisibilizadas, que são jogadas à margem”, reconhece Suellen. “Isso pra gente é muito maior do que ganhar qualquer prêmio, é um incentivo para continuar fazendo filmes, continuar num caminho nessa ponte de diálogo”, diz. “Você não precisa odiar uma pessoa porque você não concorda com a forma como ela se identifica”, afirma.

Suellen destaca que a equipe de produção do filme inclui os dois protagonistas, Murilo e Izah. “O filme foi feito com os meninos, porque eles estão presentes desde a pesquisa, desde o roteiro”, conta.


Nesse processo de pesquisa, as obras encontradas sobre a temática das transmasculinidades tratavam, via de regra, de uma realidade muito dura, um trabalho de denúncia profundo, intenso, relata a diretora. “E nessa conversa de elaborar o que seria o filme, os meninos trouxeram essa demanda, que eles queriam mostrar um ar de conquista, essas pequenas conquistas do dia a dia deles. Isso faz diferença”.

Afeto

A construção coletiva é poetizada logo no início do filme, com a voz de Tati: “Nesse processo de partilha e vivência, a gente foi caminhando, passando dias juntos ao longo dos meses trabalhando nesse filme. Nos conhecendo e levando em nós um pouco de cada um. E esse filme também é sobre isso. Sobre afetar e ser afetado. Sobre afeto”.

A narração de Tati também encerra o curta, “deixando claro o quanto essa é uma questão pessoal”, acentua o material de divulgação do documentário.

O filme acompanha e promove um diálogo entre Murilo, Izah e a própria diretora, que se insere na narrativa proposta. Os dois são homens transexuais que passam pelo processo de transição de gênero.

Em alguns momentos a câmera é colocada nas mãos do Murilo e Izah, para se mostrarem como querem ser mostrados. Isso faz com que, além de tornar a linguagem do documentário mais íntima do cotidiano dos dois, demonstra o carinho, cuidado e respeito à abordagem pretendida. A narrativa, os cenários, os planos e enquadramentos, a trilha sonora, tudo se apresenta de uma maneira extremamente delicada e tocante.



Prêmios e estreia

Com uma equipe técnica voluntária majoritariamente formada por LGBTs, o filme foi realizado pela Filmes Fritos de maneira independente com auxílio do edital 029 de Finalização da Secult/ES 2017.

Transvivo (BRA, 2017, 20’) tem distribuição da Pique Bandeira filmes e, além de exibições em outros festivais no Brasil, recebeu prêmio de Melhor Filme segundo Júri Popular do 24º Festival de Cinema de Vitória e Prêmio Incentivo “Pela forma como aborda um tema urgente na sociedade - a transexualidade - e aproxima os protagonistas do público possibilitando diálogo” pelo Júri Técnico da 12ª Mostra de Produção Independente - Aldeias da ABD Capixaba.

No próximo dia 28 de junho, Dia do Orgulho LGBTQI+, o filme fará sua estreia no Canal Brasil.  

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