Um mercado para turistas e empresários?

Moradores do Centro de Vitória reclamam da falta de diálogo sobre a revitalização do Mercado da Capixaba

Em março deste ano, a Prefeitura Municipal de Vitória (PMV) revelou seus planos de revitalização do Mercado da Capixaba, edifício de importância histórica que vinha funcionando com restrições desde um incêndio em 2002. A Associação de Moradores do Centro de Vitória (Amacentro) reclama que para além das informações gerais divulgadas na mídia, a prefeitura não deu detalhes nem convidou os moradores e entidades do entorno para consultá-los sobre a proposta. Por conta disso, nesta quarta-feira (28), às 19h, será realizada uma audiência pública sobre o tema na Fafi.

A exemplo de outra audiência em julho, na Câmara Municipal, a convocação não foi feita pela prefeitura, mas pelo vereador Luiz Paulo Amorim (PV). O presidente da Amacentro, Lino Feletti, considera as obras importantes, mas pede que seja aberto um diálogo com os moradores para que enviem suas sugestões e estas possam ser de fato analisadas. Ele considera que as informações apresentadas na última audiência foram superficiais e insuficientes, esperando que desta vez se possa conhecer mais a fundo o projeto.

Sobre a questão da restauração do imóvel em si e o fechamento da Rua Arariboia para carros, tornando-a uma extensão do mercado, são propostas bem aceita pela comunidade, segundo Lino. A forma de gestão do espaço, porém, preocupa a associação de moradores. Antes dos anúncios, a PMV e o Governo do Estado realizaram uma visita técnica no mercado, convidando empresários para acompanhá-los e avaliar a viabilidade econômica para a ocupação do espaço, em que se pretende instalar lojas de produtos orgânicos, artesanato, bares e restaurantes.

O modelo anunciado pela prefeitura seria o mesmo que vem sendo adotado para os quiosques das praias de Camburi e Curva da Jurema: um edital único, no qual uma empresa privada gerenciará todos os espaços comerciais, sublocando-os para outros empreendedores. 

A Amacentro questiona qual será a participação da sociedade civil na gestão deste imóvel público. "Não há nada colocado abertamente sobre isso. Se for o que vem sendo ventilado pela mídia, não atende nem aos moradores do Centro nem às expectativas dos moradores de Vitória", aponta Lino Feletti. "Simplesmente entregar o espaço para iniciativa privada sem um processo de gestão pública, sem um conselho com participação da sociedade, entregando para marcas já colocadas no mercado abrirem suas franquias, isso não atende aos munícipes", apontou. 

O líder comunitário diz que a comunidade do Centro não vai admitir projetos que sejam enfiados goela abaixo. Preocupa também o tipo de empreendimento que deve ocupar o local, se serão restaurantes elitistas e acessível a poucos, se haverá de fato espaço para os artistas e artesãos capixabas, como será o processo de valorização da memória do edifício tão marcante na história do município. "Precisa ser um projeto atrativo, não apenas repetir empreendimentos que já existem em outro locais. Precisa agregar valor à cultura estadual, aos produtores de cultura, culinária, arte, artesanato. Não basta colocar um grupo para tocar ali e pronto. Tem que envolver os grupos culturais no projeto", considera.

No discurso, algumas palavras da prefeitura até coincidem com as de Lino e da Amacentro. Na prática, fica uma grande interrogação. Conversado com empresários mas não com a comunidade, estará sendo construído um espaço voltado para os turistas e para pessoas de alto poder aquisitivo, a ponto de excluir os moradores do entorno? Talvez seja cedo para dizer. Mas o pedido de Lino parece muito justo: "desejamos que o poder público tenha ouvidos atentos e coração aberto para nos ouvir".

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