Venda de refinarias da Petrobras não garante maior concorrência, diz economista

Para Arlindo Villaschi, é mais um caso de desnacionalização, fruto do ''complexo de vira-latas' brasileiro

O discurso de que privatizar metade da Petrobras é uma forma de aumentar a concorrência do setor “é um grande engodo”, avalia o professor de Economia aposentado da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Arlindo Villaschi. Aparecerão novas empresas ou quem comprará são as mesmas, meia dúzia de multinacionais que atuam em forma de cartel?, questiona.

A provocação se deve à notícia de que o governo federal prepara um acordo entre a Petrobras e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para viabilizar a venda de oito das 13 refinarias da estatal, o que equivale a 48% da sua capacidade de refino.

A intenção, segundo noticiou o Estadão nessa terça-feira (3), é que a negociação seja fechada ainda em junho, dando fim a investigações iniciadas no final de 2018 contra a petroleira, por abusos no mercado de refino, onde ela detém praticamente um monopólio.

Um acordo com o Cade facilitaria o trabalho do governo federal, informa a reportagem, “já que partiria do órgão regulador a exigência da venda de ativos, cabendo à estatal cumprir a determinação”.

Arlindo Villaschi enfatiza que esse tipo de privatização é, na verdade, um processo de desnacionalização das riquezas do País, que não traz qualquer benefício para a economia.

Privatização, explica, seria se os ativos fossem vendidos para empresas nacionais. Mas o que tem ocorrido ao longo da nossa história, diz, é a desnacionalização. A Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), por exemplo, quando privatizada, foi comprada pelo Banco Bozano Simonsen, que um ano depois, não tinha mais interesse em gerir uma empresa de aço, vendendo-a com lucro extraordinário, para a Arcelor, de Luxemburgo, que depois foi comprada pelo Grupo Mittal, da Índia.

A saga acontece em praticamente todos os setores importantes da economia, conta o professor. Existem hoje interesses financeiros que são proprietários das empresas que de fato produzem. E essa produção obedece a lógica do interesse financeiro. Empresas que aparentemente são concorrentes umas das outras podem pertencer a um mesmo grupo de controladores financeiros, revela. “Isso tem implicações muito profundas pra nossa economia”, preocupa-se.

Raciocínio econômico

Outro caso concreto no Espírito Santo foi o da Chocolates Garoto. “Quando pertencia a um empresário brasileiro, no final do ano, o lucro auferido era investido na própria empresa ou em outros negócios no Estado, quando muito no Brasil. O lucro auferido agora pela Nestlé vai, como na maioria dos casos, para o exterior”, protesta.

O mais grave, afirma, é que além de entregar as riquezas naturais petróleo e gás, também entrega a tecnologia. A Embrapa está sofrendo pressão pra ser desnacionalizada, a aviação comercial, nossa Embraer, já foi entregue pra Boeing. A Fiocruz está passando por um processo de desmoralização pelo governo federal. “Primeiro tentam desmoralizar e desvalorizar, pra facilitar uma aparente privatização, que na verdade é desnacionalização”, descreve.

A crítica à desnacionalização que os governos neoliberais vêm impondo não é fruto de um “nacionalismo pequeno”, mas sim de um raciocínio puramente econômico. “Do ponto de vista econômico, é melhor ter empresa nacionais do que estrangeiras”, sintetiza.

Em casos de setores e segmentos que não há tecnologia avançada para produção, a venda a empresas estrangeiras faz sentido, explana, citando a indústria automobilística. Caso contrário, como no caso da Embraer, da Fiocruz, da exploração do pré-sal, do manejo na agricultura, não há qualquer justificativa econômica plausível.

A explicação, argumenta, é sociológica: o “complexo de cachorro vira-lata”, que leva a não valorizar o que o Brasil tem de melhor. A nossa chamada “elite do atraso” procura incutir na sociedade, via meios de comunicação hegemônicos, que temos de nos submeter aos interesses estrangeiros, pois somos um 'povinho” sem valor.

Mas o brasileiro é o que há de melhor no Brasil, recita Villaschi, citando Câmara Cascudo. Somos uma etnia nova, diz, referindo-se a Darci Ribeiro, formada pela miscigenação do europeu, do africano e do nativo. “Uma nova etnia no mundo, alegre e criativa”.

Essa ideologia nos permeia há séculos, acrescenta, e embasava a elite a dizer que o Brasil não se sustentaria sem a escravidão, ou que não podemos existir sem o agronegócio predatório ou sem explorar as nossas riquezas naturais de forma tão destrutiva como estamos fazendo agora. “Ideologia que diz para não fazermos voos mais altos sem antes adotar um alinhamento automático aos interesses do imperialismo estadunidense”, adverte.

BRICS

E toda vez que no Brasil surge algum governo que minimamente se rebela contra esse alinhamento automático, ele é defenestrado. Podem ser ditadores como Vargas (que defendeu a siderurgia, o petróleo e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico - BNDES) e Geisel (com a energia nuclear e o petróleo), ou governos democráticos como de Juscelino Kubistchek (e sua defesa da indústria automobilística e luta pela autonomia em relação ao Fundo Monetário Internacional - FMI - e Bando Mundial), Lula e Dilma (defensores da Petrobras e da indústria forte, especialmente da construção civil).

O alinhamento com outros blocos da geopolítica mundial, como o BRICS, surgiu como mecanismo diplomático internacional em 2006, durante a 61ª Assembleia Geral das Nações Unidas. O nome é um acrônimo formados pelas iniciais de seus integrantes: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (South Africa, em inglês), países que mais crescem atualmente no mundo.

Tem um segmento do nosso Itamaraty que reconhece a importância dos EUA, mas não se submete a um alinhamento automático dos interesses estadunidenses. Estadunidense, aliás, é usada oficialmente pelo Itamaraty, em lugar de “americano”, e que visa ressaltar a identidade do continente americano, que os Estados Unidos tentam usurpar.

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1 Comentários
  • ralfo bolsonaro bueno penteado , sexta, 07 de junho de 2019

    Chicago Guedes Boy é primitivo e recalcado. O país precisa para ontem processar mais 300.000 barris de petróleo (que era seu) e formar o preço aqui, preço brasileiro.. que é de u$7 contra u$ 70 o internacional. Assim vai aumentar a importação sempre a preço internacional e pagar com subsolo, floresta, soja e boi. É um ignorante atrás do outro. As refinarias de São Paulo já são da Shell, é só esperar. Bolsonaro, lamentável. Subdedsenvolbomrnto petista + bolsonsrista = primitivismo acelerado.

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