A anágua e o vento

A rua tem donos e donas. Vozes, tropeções, um cumprimento, um palavrão

Seguindo seu rumo, cada pessoa é uma peça distinta e inviolável no confuso emaranhado das ruas, cada qual mergulhado em seu próprio vazio existencial, mesmo quando encontra sua alma-gêmea. Por mais que  socialize, está  sozinho. Manter a individualidade a todo custo, mas cercado de invasores. Os espaços urbanos nos massacram, seja no elevador rumo ao milésimo andar, seja na fila do banco que não anda. O banco, não a fila. Seja na praia de um domingo sem sol ou no quilo-mais-próximo na segunda feira.

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A rua tem donos e donas. Vozes, tropeções, um cumprimento, um palavrão. Cuidado! grita o anônimo para o aposentado que não vê o sinal fechado. Tudo bem, se me atropelam não se perde muito. Cenas corriqueiras de todo dia, o mundo gira por conta própria. O camelô vendendo capas de celulares, o guarda apitando na confluência das passagens ocultas, o flanelinha atrás de seu pára-brisas atrás de seus trocados. Melhor do que roubar, diz o Frade para a Freira, que do alto a tudo assistem. 

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A rua tem cavernas e sinais de trânsito. O poeta vendendo seus poemas eróticos anti-éticos na esquina, enquanto recita versos de pé amputado contra o barulho dos motores acelerados. “A que me viu partir e não chorou, deixou um beijo que feriu mas nunca cicatrizou”. Cada um com seus motivos pra ter pressa, sem ter hora marcada no dentista. O poeta interrompe o solilóquio para admirar a adolescente de mini saia e sandália havaiana. “Ah, que gosto ver-te, menina, tão bela e sinuosa. Os cabelos ao vento, a boca prazerosa.” 

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A menina manda de lá um dedo em riste, obsceno, e segue em frente.  O poeta manda-lhe um beijo e  apregoa seus bens, Comprem ‘A anágua e o vento’, meu livro de poesias, publicado com recursos próprios. Compre um e leve dois, apoie o  talento local”. Algumas pessoas esperando o sinal abrir ou fechar acham graça. O que é injusto, se até o autor de ‘Podres de Ricos’ teve que bancar o filme com seus  recursos próprios, embora recursos não lhe faltem.

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 A rua tem executivos e executados. Ônibus passando lotados, mais em pé do que sentados. Do alto do edifício das Nações Desunidas, o funcionário recém-demitido sem justa causa joga nos passantes uma jarra de café africano fortíssimo. Quentíssimo, mas até chegar lá em baixo a temperatura do café e a raiva do sujeito já esfriaram. Nuvens indo e vindo das montanhas, ventos indo e vindo do mar. A rua é um oceano anônimo, inadimplente, inadequado. inoperante. Atlântico. O poeta já está meio rouco, “Quem te viu quem te vê, ontem rico e prepotente, hoje sem carro e sem TV”. 

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O povo passa, cada um carregando sua redoma de silêncios no centro da multidão, sozinhos e cercados de estranhos. Livre para ir e vir, arrastando seus grilhões - contas a pagar, saldos negativos, o próximo a ser assaltado, o sol dando câncer de pele, o sal entupindo as veias,  o único que ainda não sabe, o que está com os dias contados, o que perdeu o mapa de casa. A cada passo um grito de socorro. O ar poluído a que cada um tem direito está ficando cada vez mais escasso. O poeta afronta a noite com sua última estrofe, “Volte pra casa, companheiro, o mundo  é um buraco sem fundo, e a rua formigueiro..”

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