Ali na esquina

Acho os modernos filmes de ação um exagero, mas de repente a vida imita a arte, e as coisas acontecem tal e qual no cinema

            

Acho os modernos filmes de ação um exagero, mas de repente a vida imita a arte, e as coisas acontecem tal e qual no cinema. Como no caso do assalto a uma joalheria, no sul de Miami, nesta última quinta-feira (5). O dono reagiu, houve troca de tiros e os assaltantes tentaram fugir, mas a polícia chegou e tudo se complicou ainda mais. Na fuga, os ladrões sequestraram um caminhão de entregas da UPS, uma empresa de logística, mantendo o motorista como refém. O incidente terminou com a morte de quatro pessoas: além dos dois bandidos, o chofer do caminhão e o motorista de outro carro. 

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Os dois deram o azar de estar no lugar errado na hora imprópria. Para se livrar da perseguição policial, os bandidos tentaram se manter nas vias de maior trânsito, achando que os doze policiais que os perseguiam não atirariam. Mas a troca de tiros aconteceu e deu no que deu, bem na minha porta. Nos vinte anos que moro na grande Miami, essa foi a primeira vez que algo ocorrido na minha área aparece na televisão, além dos estragos eventuais de algum furacão mais violento.

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 Esse trágico incidente põe mais lenha no debate sobre a legalização versus proibição do porte de armas: de acordo com Mr. Trump, ainda bem que o dono da joalheria tinha uma arma para defender seu patrimônio. Esquecendo que, se não tivessem armas, os bandidos não assaltariam, embora esses não precisem de autorização para ter acesso a um revólver. De acordo com os que pleiteiam a proibição ou pelo menos maior rigor na venda indiscriminada de armas, principalmente as de alto calibre, se o dono da joalheria não tivesse uma arma perderia a féria do dia, que com certeza estava no seguro, e quatro vidas seriam salvas. 

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Quanto aos furacões, mesmo quando ocorrem em outros estados, a quilômetros de distância, nossos telefones não descansam: familiares e amigos, correligionários e afins nos ligam preocupados, perguntando se estamos bem, se fomos atingidos, essas coisas. Desta vez, porém, com as coisas acontecendo ali na esquina, ninguém ligou.  Voltando para casa ao anoitecer, mesmo sabendo que havia uma perseguição policial sendo transmitida pela TV,  não nos ocorreu checar o Google mapa para saber como estava o trânsito… ou onde exatamente estava o problema.

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Levamos duas horas para percorrer um trecho de 10 minutos, tendo que achar rotas alternativas para chegar em casa. O que deu para ver: muitos carros da polícia com as luzes do teto piscando, muitas tiras de plástico amarelo tentando evitar o ataque dos curiosos, ambulâncias e carros parados nas pistas. Não tendo como passar pelo local, as pessoas deixavam os carros e iam ver de perto o que estava acontecendo. Portanto, muita gente nas ruas, algo totalmente inusitado nessa cidade onde ninguém anda nas ruas. Um assalto com quatro mortes também é algo inusitado, daí o rebuliço. 

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Naturalmente teremos muita discussão sobre o final infeliz dessa história. Que bala atingiu o motorista do caminhão, a da polícia ou a dos bandidos? Havia como evitar as mortes de duas pessoas inocentes? Difícil saber, e muita água vai passar sob a ponte, tanto nas redes sociais como na mídia tradicional. Certo é que na esquina da minha rua, onde a perseguição chegou ao fim, mais hoje mais amanhã, um pequeno "sacrário" será erguido: uma cruz adornada com flores e fitas, velas, as fotos e os nomes dos dois inocentes que não conseguiram chegar em casa nessa noite. Esse é o costume aqui. 

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