Caixa de pregos e parafusos

Um  novo quadro na parede pode ser um recomeço, o início de uma nova vida; a luz do farol guiando um barco no mar tormentoso

Um  novo quadro na parede pode ser um recomeço, o início de uma nova vida; a luz do farol guiando um barco no mar tormentoso. A casa está caindo aos pedaços, tem goteiras no teto e o piso do corredor está solto. Em um dos banheiros só o chuveiro funciona, no outro só tem água na pia.  Em nenhum dos dois o vaso pode ser usado, mas tem o lavabo, onde a pia não tem água. Então é um exercício metódico de autocontrole: usar o vaso do lavabo, lavar as mãos no banheiro social, tomar banho no banheiro da suíte.

O parapeito da escada para o segundo piso tinha tanta roupa empilhada que desmoronou, e ninguém mais lembra o que tem ali. Ou tinha, porque as roupas usadas coletivamente por todos ficaram tanto tempo espremidas umas sobre as outras que se desintegraram: os fios dos tecidos se enroscaram uns nos outros, ou uns contra os outros, criando o que os antigos outrora chamavam de ninhos de ratos. Devia ter muitos ratos nesses antanhos, pois o povo acreditava que nos trapos abandonados em um canto úmido e escuro, uma nova geração de ratos brotaria espontaneamente. A caçula leu isso em algum lugar e vigia a pilha de ex-roupas do corredor, esperando pelos ratos. 

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Um quadro cheio de cor e vida talvez possa sustentar a única parede ainda de pé na sala, trazendo renovação e esperança. No mais, tudo se esfacela como um monte de areia castigado pelo vento. O fogão há muito não cumpre sua intrínseca missão de produzir o calor exigido para cozinhar os alimentos necessários à subsistência de cinco pessoas ativas e no vigor da idade. Claro, nem tudo se perde e em cima dele instalamos a televisão, que essa ainda funciona, mesmo com chuviscos. Feito o plebiscito para decidir qual seria consertado: o fogão ou a televisão, a família votou unanimemente pelo segundo artefato, portanto ninguém pode reclamar se sobrevivemos de sanduíches. 

O que nos trouxe grande vantagem: a parte interna do fogão, aquele espaço outrora reservado para assar ou aquecer alimentos, é onde guardamos nossas relíquias: meus discos, meus livros e nada mais. Os livros nunca foram lidos mas têm belas capas e títulos convidativos: “Onde meus  pés não vão eu também não piso” ou “Pra quê pontes se os rios secaram? Os discos nunca foram ouvidos, não por indiferença ao que é belo, mas por falta de um elemento básico nesse contexto: um toca-discos, ou eletrola, ou nem sei mais como chamam esses aparatos que recuperam sons prensados em um prato redondo de vinil, outrora chamados bolachas. Como? Agora usam fitas? Ando meio desligado.

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Como já revelado acima, tendo desmoronado por excesso de peso o suporte de roupas outrora denominado parapeito do corredor, as poucas roupas que não foram unificadas em um monte cinzento e pegajoso hoje ficam devidamente acomodadas na geladeira… que apesar do nome não gela - tanto por falta de eletricidade como de alimentos. Em outro plebiscito para definir qual aparelho receberia o fio que faz o gato na rede de luz da rua - a geladeira perdeu para a televisão. O que nos trouxe uma vantagem: o largo espaço interno da geladeira hoje acomoda as roupas que sobraram do abraço mortal dos nossos revestimentos têxteis. 

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A ausência ou escassez do serviço básico denominado fornecimento de água e luz revela uma inequação social: se o serviço é básico, o governo tem o dever de prover sem ônus para o usuário. Por que o rico deixa todos os cômodos acesos enquanto o pobre vive às escuras? Qualidade de vida é o usufruto amplo, legal e gratuito do que nos faz felizes, como  lâmpadas acesas no teto e água quente no chuveiro. O quadro na parede é um protesto pacífico…Mas onde foi parar a caixa de ferramentas?

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