Efeito colateral

Para qualquer situação, seja uma dor de amor ou de tendinite, um comprimido de aspirina pode ser a solução

Ana acordou com dor de cabeça, embora saiba que não pode ficar lendo até tarde na luz fraca do abajur. No quarto ao lado, sua irmã Janete pegou uma gripe. As razões de se pegar uma gripe são tão vastas quanto a impaciência humana. Pode ter sido um vento mais frio, ou o sereno da noite, que os antigos temiam e os modernos refutam como crendice popular. No entanto, pesquisas atuais confirmam: o sereno da noite pode provocar ou piorar uma gripe. Talvez tenha sido uma alergia, ou o contato com outra pessoa gripada, que você não conhece e nem percebeu que passou por perto. Mas pode ser também que seu horóscopo tivesse previsto uma gripe para os nascidos sob o signo de Touro. Pois é, nunca se sabe.

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Não muito distante da casa de Ana mora Luís, que  acordou indisposto porque exagerou na feijoada, um prato que, todos sabem, sempre  exagera nas calorias. Quando Luís tinha três anos, o pai decidiu que ele seria goleiro, e começou seu treinamento. A persistência vencendo a incompetência, era seu lema. Todas as manhãs antes das aulas, o pai levava o infeliz garoto para o quintal, onde instalou uma trave e uma rede, e praticavam por exatamente uma hora – o pai chutando uma bola de futebol maior que o menino, que devia impedir sua trajetória até o gol. Raras vezes conseguiu  e quase sempre o treinamento terminava em choro.

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Luís suportou essa rotina até os 17 anos, idade em que tomou coragem para decretar oficialmente o fim dos treinamentos, para desgosto do pai e alívio do filho. Hoje com 26 anos,  Luis  gosta de bater uma bola com os colegas do escritório, mas nunca aceita que o escalem como goleiro. Por falta de alongamento antes do jogo, como o pai havia ensinado, quando a partida do sábado se encerrou, Luís foi acometido por uma aguda dor muscular. Enquanto isso, desiludido de seu sonho de ficar rico às custas do filho, o pai de Luís dormiu na poltrona da sala e acordou com torcicolo. 

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Para qualquer situação, seja uma dor de amor ou de tendinite, um minúsculo comprimido de aspirina pode ser a solução mais rápida e mais barata. Bastou tomar,  e todos os envolvidos nesse pequeno drama popular puderam ter um final de semana normal, sem faltar à praia, no caso de Ana, ao cinema com o namorado, no caso de Janete, ao churrasco do time, no caso de Luís. Ou continuar dormindo na poltrona, no caso do pai de Luís. Não sem razão, a aspirina é chamada de ‘droga milagrosa’.

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O ácido acetilsalicílico está entre nós há 2.400 anos.  Os gregos usavam um extrato das folhas do salgueiro para criar um bálsamo contra as dores: foram os precursores da aspirina. A alemã Bayer, em 1899 criou um medicamento com o nome Aspirina e o patenteou no mundo todo. O laboratório perdeu a exclusividade da marca quando o país foi derrotado na primeira guerra. Com a chegada do Tylenol e do Ibuprofen, a aspirina saiu de moda, mas ressuscitou com força total quando descobriram seus efeitos anticoagulantes. 

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Uma dose baixa de aspirina (81 mg) previne o entupimento das veias, evitando ataques cardíacos e tromboses. Estudos mais recentes revelam que a droga é mais milagrosa do que se imaginava – seu uso diário previne vários tipos de câncer e protege o fígado. Se também fizesse emagrecer, seria considerado o medicamento perfeito. O consumo anual dessas pílulas mágicas hoje é estimado em 40.000 toneladas, o que oscila entre 50. e 120 milhões, dependendo do tamanho, claro. Portanto, se você ingere suas 81 miligramas diárias concentradas em uma pequena pastilha geralmente amarela, não está sozinho e vai garantir  mais 30% em sua vida. 

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Mas algo mais que uma simples aspirina se tornou o fator comum entre Ana e Janete, Luís e seu desiludido pai - a falta do produto, que se acabou precisa  ser reposto. Portanto, alguém tem que ir à farmácia  comprar um vidrinho. Janete diz que se for vai chegar atrasada no cinema e perder o início do filme. O pai de Luís diz que está na hora do futebol. Comprando o mesmo produto na mesma hora e na mesma farmácia, Luis e Ana se dirigem ao mesmo caixa, quando a  atendente novata tem que trocar a fita da registradora.  Só os dois na fila, o efeito colateral de um simples vidrinho de aspirina nesse encontro casual infelizmente não está  listado na bula. 

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