Fábulas fatais

O gênio da sorte pode atender nossos desejos, mas nos perdemos nas opções colaterais

Vou eu a caminhar pela praia deserta, ninguém ajustou ainda o relógio biológico à mudança do horário de verão.  E dizer que Benjamin Franklin foi o pioneiro dessa ideia idiota! Devia sofrer de insônia.  Voltando à minha praia, de repente tropeço em alguma coisa enterrada na areia: uma pequena garrafa antiga, com minúsculas conchas e algas grudadas no vidro há séculos. Uma aparência misteriosa, refletindo uma luz interior azulada. Portanto, recolho e esfrego com um Clinex para limpar.  E qual não é meu espanto…

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Eu sei, você lembrou do Aladim e sua lanterna mágica, mas veja as diferenças: não era uma lamparina, e sim uma garrafa, dessas que os náufragos de antanho usavam para enviar pedidos de socorro, embora a história não registre o caso de nenhum navegador das conquistas marinhas sendo salvo com tais mensagens engarrafadas. Outra diferença, o gênio que se materializou na minha frente não era um gigante de tanga e rabo de cavalo, mas um pequeno ser de sunguinha super-herói,  com o fedor característico de quem não toma banho há mil anos. Levo o maior susto. 

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O geniozinho também, mas logo se espreguiça e espirra, entendendo sua boa sorte. Mas não parece muito agradecido com quem o libertou da longa prisão, e dá seu recado: Muito obrigado e até nunca mais… Como assim, muito obrigado? Não vai realizar meus desejos, como é de praxe? Ele coça a cabeça, Manda aí  um pedido, verei o que posso fazer. Parece que não dei sorte com meu gênio, portanto protesto, Quero três desejos, conforme estabelecido no Manual das Mágicas Milenares.. Ele concorda:  Três desejos em três minutos, tenho um compromisso e estou bastante atrasado. 

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Três minutos farão pouca diferença em mil anos de atraso, mas serão escassos na escolha das três graças que vão mudar minha vida e os rumos da humanidade. Não sou egoísta, e dos três pedidos um será para a felicidade geral da nação, disse Pedro I. O gênio concorda, Tá bom, 10 minutos. Agradeço, mas se 10 minutos é pouquíssimo tempo para escolher três desejos decisivos, é muito tempo para ficar em pé, pesando prós e contras, prioridades e necessidades: acabo com a corrupção ou com minhas rugas? Curo minha artrite ou o aquecimento global? Ganho a maior loteria de todos os tempos ou elimino do dicionário o termo ditadura, por falta de uso? O gênio está com pressa: Pode sentar.

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Já disse Einstein, o tempo é relativo. Um minuto na praia dura pouco, um minuto na fila do banheiro, em caso de urgência, dura uma eternidade. Meus dez minutos voam, e por fim tenho minhas escolhas definidas, das quais provavelmente vou me arrepender mais tarde, na insegurança habitual do ser humano: devia ter pedido A em vez de B, dólar em vez do euro… a Índia em vez do Brasil como a maior potência mundial do Século 22, que o 21 mal começou e já perdemos. Indiferente aos meus dilemas, o gênio confere um relógio invisível e declara: Trato é trato, seus desejos foram atendidos. E desaparece numa fumacinha esverdeada. 

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Ei, gênio, volta aqui! Meu grito se dissolve no ar poluído da cidade. Não voltou, e ando sempre com a garrafinha na bolsa... Quem sabe ainda o pego de volta? Essa singela história parece plagiada das Mil e uma noites, mas acontece todos os dias. O gênio da sorte pode atender nossos desejos, mas nos perdemos nas opções colaterais - acabo com o excesso de peso ou com a poluição ambiental, que começa no meu quintal? Acabo com a lipoaspiração ou com a corrupção, que começa com minha votação? Ou com minha apatia?

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Uma amiga passou pela mesma experiência, mas deu mais sorte. Aceitou um único pedido e foi decisiva: Quero que todo mundo seja feliz. Resolveria com um só voto, todos os problemas da humanidade. Foi  atendida, e todos viveram felizes para sempre, apesar de continuarem com os mesmos problemas. Isso me consola um pouco. Melhor fez Aladim que só queria o coração da princesa, e alcançou muito mais. 

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