Hotel LeDour, aberto a todos

Considerado nobre e estando bem de vida, LeDour virou republicano, portanto, votou no Trump

O caminho franqueado por canteiros de hortênsias leva ao hotelzinho simpático de dois andares que um dia foi residência de um nobre senhor de escravos. Vinte quartos, duas cozinhas imensas, vasta sala de visitas e quilométrica sala de jantar que outrora abrigou uma mesa tão longa que daria para fazer baile funk em cima dela. A mesa virou lenha em algum ano de frio mais intenso, e das 40 cadeiras sobraram duas, hoje solenemente ladeando a lareira que há mais de um século não é acesa. Quadros, lustres e adornos são quase todos originais. Para tudo isso apenas dois banheiros, hoje cognominados o de cima e o de baixo.

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Conde Charles LeDour, o atual dono, gerente e administrador do hotel, é o último descendente da família que construiu a vetusta residência. Ambos deram sorte: a propriedade, por ter resistido ao passar dos anos e ao vandalismo de muitos herdeiros, mantém-se quase intocada; LeDour por ser o único herdeiro, sem ter como manter o elefante branco que lhe caiu nas mãos de paraquedas, teve a feliz ideia de transformá-lo em um hotel. Exceto pela adição de eletricidade, Internet e mais banheiros, a casa pouco mudou e os 20 quartos estão sempre com reservas antecipadas o ano todo.

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Apesar da origem modesta, ao assumir o hotel Charles LeDour se deu ares de importância: inventou um título de conde, que mandou desenhar, emoldurar e hoje se destaca em cima da lareira. Vivendo e agindo como se nobre realmente fosse, adotou as antigas tradições e preconceitos que caíram de moda ou pelo menos deixaram de ser explícitas. O sujeito voltou no tempo, mas os hóspedes o adoram e muitos acabam imitando também a fala, o falso sotaque e os maneirismos do proprietário. Se o hotel está sempre cheio e a conta no banco cada vez aumenta mais, LeDour não tem do que reclamar.

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Para  o feriadão de Thanksgiving, em novembro, uma família inteira reserva os vinte quartos com quase um ano de antecedência, por toda uma semana. Sem saber como estará a economia após mais um ano de governo Trump, LeDour põe o preço nas alturas: “Se o Impeachment acontecer, como fico?” Desnecessário dizer que, considerando-se nobre e estando bem de vida, LeDour virou republicano, portanto votou no homem. A queda de Trump pode levar seu fabuloso negócio à falência. Os futuros hóspedes não reclamaram do preço e pagaram antecipado. O famoso LeDour Aristocratic Resort vai de vento em popa. 

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Em novembro comemora-se o Thanksgiving, o dia em que os pilgrims, os primeiros colonizadores da América do Norte, convidaram os índios para desfrutar uma refeição com eles. Os massacres começaram pouco depois, mas quem somos nós para atirar a primeira pedra? Esse feriado é tão importante quanto o Natal, e o prato tradicional da ceia é peru assado. Portanto, a cada ano, 46 milhões de perus são também massacrados para manter essa tradição. A sobremesa é torta de abóbora, e não há registro do número de abóboras sacrificadas na festa.

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Pescado na Internet: Como conseguir um peru de graça para o Thanksgiving? Alguns supermercados dão um peru (cru) de brinde se você fizer uma compra acima de 100 dólares. E quem consegue entrar em um supermercado e gastar menos de 100 dólares? Só guru indiano mesmo. Os supermercados: Acme, Albertsons, Fareway, Giant Food Stores, ShopRite. Preço médio de um peru congelado: 30 a 40 dólares. Peru assado: 90 a 100 dólares (o preço depende do status do local onde for saboreado).

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LeDour não serviu peru assado às suas hóspedes, na verdade não serviu nada. Pela primeira vez a  semana do Thanksgiving, justamente a época mais disputada do ano, se tornou um pesadelo em seu hotel, porque a família que lá chegou era composta apenas por mulheres, todas ativas participantes da liga LGBT, a qual elas acrescentaram mais duas letras: BW -   LGBT BlackWomen. Eram, portanto, tudo que o guru Trump mais odeia e repudia: mulheres, lésbicas, negras. “Não no meu hotel! Não admito!" Em vão elas tentaram dialogar, “Somos uma entidade reconhecida por lei e amparada na igualdade de sexo, raça e gênero”. 

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LeDour ficou num impasse - se as mandasse embora teria um tremendo prejuízo, além da propaganda negativa. Portanto, deu férias aos empregados, arrumou as malas e partiu para as Bermudas, avisando às hóspedes indesejadas: “Podem ficar mas se virem. Quando voltar quero o hotel limpo e arrumado, ou processo vocês". Elas arregaçaram as mangas, comeram do bom e do melhor, se divertiram, e criaram um novo estilo: doravante só alugamos hotéis sem servidores. Ficou melhor e mais barato. 

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