Itapenambi

Esse belo morro desponta entre o emaranhado de arranha-céus da Praia do Canto e torna a topografia de Vitória mais suave

                                       

"Esse belo morro já estava ali antes de Jesus passar pelo mundo", nos informa Zira Madeira, guardiã espiritual do Morro Itapenambi, uma das mais belas colinas que despontam entre o emaranhado de arranha-céus da Praia do Canto e torna a topografia de Vitória mais suave. O imponente granito mora em frente de sua janela, e embora não tenha a fama do Monte Álvaro, tem nobreza e imponência - impõe respeito. 

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Imagino os índios escalando suas íngremes escarpas até o pico, onde hoje uma cruz modesta desafia os constantes ataques das intempéries e o defende de futuros favelados. Lá de cima os silvícolas podiam apreciar a vista exuberante: o matagal da Serra do Mar se esticando como um tapete até o mar sereno e indomado. Imagino o susto vendo as estranhas caravelas portuguesas deslizando baía adentro, como veríamos hoje espaçonaves aterrissando suavemente nas areias de Camburi. 

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Deu sorte o Itapenambi: íngreme demais, sobreviveu ao impiedoso ataque dos martelos para transformá-la em paralelepipedos e ao avanço irreversível das favelas. Além da dificuldade de acesso, ela está protegida por seus próprios inimigos: contornada por prédios em todo seu entorno, não há como conquistá-la. Muitas outras pedras apontam aqui e ali na caprichosa geografia capixaba, exibindo nomes exóticos ou indígenas que poucos conhecem: Morro do Bode, do Sururu, das Pombas ou do Araçá  - qual deles será? -  Itapebuçu, Guajuru...  Lindos de ver.

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O Itapenambi é um prazer para os olhos e um descanso para a alma. Os moradores dos prédios que o rodeiam suspiram aliviados por sua natureza rebelde, enquanto os que gostariam de ali fixar seus barracos os chamam de egoístas. Mas o futuro surpreende até os mais ousados futurólogos ou os mais impiedosos desastrólogos, e o que hoje parece esdrúxulo ou inimaginável, pode se tornar a única opção viável. 

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Com as calotas polares derretendo e o nível do mar subindo, o mundo se transformará numa vasta Veneza, e moraremos apenas nos últimos andares dos edifícios. Ou escalaremos os morros e navegaremos em barcos-coletivos, barcos-táxis, barcos-Uber. Ou nada disto acontecerá: ainda temos tempo de salvar nosso coletivo lar global, aprendendo a respeitar seu ecossistema, preservar suas belezas, reparar os estragos e viver em paz. Difícil, mas não impossível. 
 

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