Maithuna: o sexo ritualístico no Tantra – Parte I

Para o Tantra, a energia da sexualidade é uma das formas mais poderosas de ação no mundo

Preâmbulo 

Como trabalho com o Tantrismo (cursos, aulas, massoterapia…), recebo muitas indagações sobre questões relacionadas ao sexo tântrico. Há motivos concretos sobre essa curiosidade: 

1º – A energia sexual movimenta os humanos seres… isso em várias direções…
2º – Os movimentos antissensoriais espirituais ou religiosos atiçam mais ainda essa fixação no mundo sexual.
3º – As reverberações dessas castrações espirituais ou religiosas no corpo social geram preconceitos e isso também desperta esse movimento em direção ao sexo.
4º – Gurus tântricos deixaram sua marca no nosso mundo ocidental, impulsionando a ideia de que Tantra é sinônimo de sexo livre.
5º – Surgimento de grupos tântricos no Ocidente trabalhando com terapias sexuais ditas tântricas.

Como esse tema é muito complexo, vou explicitá-lo, aqui no “Século Diário”, em etapas. Segue, então, uma introdução a esse tema, que será por mim abordado dentro de uma visão filosófica das correntes de pensamento que abraço e vivencio: Filosofias Samkhya e Tantra:


O Maithuna é um ritual tântrico ligado especificamente a uma relação entre Shiva e Shakti, a qual é levada através de uma relação sexual física, mas que pressupõe uma relação em todos os níveis, ou seja, estão presentes, também, naquela relação, o corpo energético (os Chakras - centros de força e poder - funcionam como integradores das energias dos parceiros), o corpo emocional, o corpo mental e o corpo espiritual. 

O Maithuna tem suas origens na visão tântrica de que sexualidade é algo natural e é uma forma de energia que deve ser utilizada para o crescimento espiritual do Sadhaka (discípulo tântrico) e, no caso específico, para o crescimento espiritual de ambos os parceiros. 

No Tantrismo Dravidiano não existe a visão do sexo e do corpo como sendo algo que se opõe ao espírito. Se Purusha (espírito) vivifica Prakritti (matéria), o encontro entre dois corpos significa o encontro de forças espirituais que se interagem e possibilitam a cada um desenvolver-se em nível de consciência espiritual. 

O Maithuna é uma forma de ampliação de Chitta (consciência individual) e uma forma de ativar todos os Chakras e despertar Kundalini (energia da vida e da sabedoria).

Nunca esteve presente no Tantra Dravidiano qualquer ideia relacionada a ver a sexualidade e o uso da genitália como algo menor ou de decadência humana ou algo pornográfico. Veja as esculturas em cópulas presentes nos Templos de Khajuraho (pequeno distrito pertencente ao Estado Madhya Pradesh – centro da Índia). Lá o sexo é escancarado em um sentido natural e espiritual. 

Se estamos encarnados, precisamos de dormir, beber, comer e, precisamos, também, de exercitar nossa sexualidade. Todos esses movimentos fazem parte de cada vida aqui nesse plano existencial. 

Nesse entendimento, por que a prática sexual seria algo que perverteria o espírito humano? É impossível conceber o conceito de “pecado” dentro do arcabouço teórico-prático do Tantra Tradicional Indiano, ou seja, do Tantra Dravidiano. 

Esse movimento dravídico, tântrico em suas raízes, portando matrifocal e sensorial, surgiu nas comunidades do Vale do Indo (Índia Antiga) cerca de 15.000 anos atrás. Por volta de 2.000 a.C. chegaram a essa região outros povos – os Arianos, os quais eram patrifocais, guerreiros e monistas e criadores da filosofia Vedanta, filosofia antissensorial e repressiva, que se opõe ao mundo sensorial livre presente no Tantrismo.

A ideia do sexo como algo que perverte o espírito humano surgiu com a postura dos adeptos do Vedanta, ao pensar que Atman (o espírito), que seria a centelha de Brahman (o Uno, a Realidade Suprema), se torna cada vez mais impuro (mais afastado de Brahman) na medida em que se afirma no mundo fenomênico de causa e efeito. 

A prática sexual seria a ferramenta que vincularia cada vez mais Atman a esse mundo das formas e do Eu e do Ego. O prazer corporal é algo que estaria mergulhando Atman num mundo de Ilusão (Maya) e tornando o ser cada vez mais distante da fonte primordial de luz e verdade que é Brahman. 

Assim, no mundo vedantino, sexualidade, prazer sexual, prazer corporal, prazeres mundanos se constituem no maior engodo, no maior equívoco humano, pois são fenômenos efêmeros, que só trazem uma satisfação passageira, pois logo advém a dor, uma vez que o indivíduo acaba com essas práticas a afastar mais ainda Atman de Brahman. Jivatman, o espírito corporizado, é fruto dessa ilusão (Maya) e, por isso, julga-se independente de Brahman e, portanto, vive em contínuo engodo e erro...e, dessa forma, sempre irá mergulhar no mundo sensorial ... e sexual...         

Para o Tantra, o ser humano é um ser de energia e a energia da sexualidade é uma das formas mais poderosas de ação no mundo e, sendo utilizada de forma sábia e consciente, somente trará a quem a exercita poder e sabedoria. 

Aqui entra o lado comportamental do Tantra que diz que cada um é livre para agir da forma que quiser, mas que ninguém é livre para fugir das consequências de suas ações. Dessa forma o Tantra afirma que a energia sexual é poderosa e, assim, pode ser um elemento de poder, mas que pode trazer tanto alegria, prazer e desenvolvimento espiritual, quanto também pode trazer desequilíbrio, sofrimento e Kleshas (obstáculos) e Karmas negativos para o indivíduo. 

Caberá a cada um saber utilizar essa energia da forma mais sábia possível e menos egoísta possível. O Maithuna é uma das formas de se utilizar o poder da energia da sexualidade de forma prazerosa, criativa e espiritual. Seus adeptos não são pessoas absolutamente “decaídas”, “degeneradas”, “desequilibradas” ou “pervertidas”. São iniciados no Tantra que estão a despertar em si ações conscientes, sábias e, inclusive, transformando a vida em alegria, prazer e felicidade. 

A prática do Maithuna significa um avanço do Sadhaka na sua caminhada espiritual, tornando-se mais uma das escolhas de quem já não está mais em um comportamento de indivíduo Pashu (indivíduo egocêntrico e egoísta), mas, sim, já está em um comportamento de Vira ou de Dhivya (indivíduos conscientes e sábios). 

Quanto mais avançado está o Sadhaka na Senda, mais escolhas coerentes ele é capaz de fazer. Nesse estágio, ele é capaz de vivenciar conscientemente seu Dharma de merecimento – inclusive o merecimento de encontrar um(a) parceiro(a) que esteja também caminhando na Senda. Assim, o praticante de Maithuna não é um indivíduo rebaixado na Jornada Espiritual, pelo contrário, ele se constitui em um ser com muita consciência espiritual. 
 

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