Meu reino por um lápis

Acordei com a estranha impressão de ter sonhado. O que pode parecer simples, para mim é absurdo

Acordei com a estranha impressão de ter sonhado. O que pode parecer simples para a parte feliz da humanidade, para mim é absurdo: nunca sonho e nem sei o que significa isso que o vulgo chama de sonho. Hoje,  porém, uma vaga impressão de eventos irreais persiste ao amanhecer. Bons ou ruins, não sei, pois não deixaram imagens nem lembranças. O córtex cerebral, a parte do cérebro que deveria controlar meu sonho, nunca fez seu dever de casa. Pelo menos no meu cérebro.
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Como um persistente detetive, tento encontrar pistas, descobrir rastros e impressões, qualquer coisa que me revele o que aconteceu durante as duas horas em que durmo por noite… quando durmo, ou quando cochilo na frente da televisão. A poltrona da sala de há muito adquiriu o formato do meu corpo. Nada encontro, mas nessa luminosa manhã, algo diferente ficou registrado na memória ainda sonolenta, ainda desapegada das necessidades do dia que mal começa. Para registrar-la, saio em busca de lápis e papel.

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Pode ser caneta, qualquer rabiscador que registre essa inusitada impressão. Ou um lápis de cor, qualquer cor, não tenho isso de cor preferida. O papel não é importante, a parede também serve. Mas com tanta coisa faltando no mundo, onde se esconderam meus lápis? O Brasil é o maior fabricante de lápis do mundo, e eu sofrendo de escassez temporária. Vasculho a casa à procura desse instrumento insignificante, que no entanto registrou algumas das maiores obras da humanidade. Um fino fio de grafite com a capacidade de registrar tudo que a memória não consegue reter. 

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Meu reino por um lápis! exclamo desesperadamente, mas nessa insidiosa manhã em que algo sublime me acomete, todos os  lápis foram roubados ou fugiram. Numa ironia do destino, os que encontro estão sem ponta. Apontadores? Todos cegos. Faca? Todas sem corte. O celular? Descarregado ou fora de área. A pia? Sem água. A geladeira? Sem comida. Posso furar uma veia e escrever com sangue, mas detesto ver sangue, principalmente o meu. Por um segundo, outras reflexões existenciais me acometem: Por que lápis não ganhou um plural? Lápises? Ou pires, píreses? Anil, aniles? A raça humana é farta em erros e descuidos.

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Ah, que assunto para os anais da literatura se perde pela falta  de um simples lápis? Bato na porta da vizinha? Nossos Like/Love no Facebook foram interrompidos depois que ela descobriu o gato que armei para surrupiar alguns meros quilowatts... Sou frugal, gasto pouco. Breve pausa para novas divagações desnecessárias: produtos de primeiríssima necessidade, como água e eletricidade, deveriam ser fornecidos gratuitamente pelo governo.  

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Chego atrasado para a reunião onde sou informado que vão me despedir se chegar atrasado mais uma vez. E me presenteiam com mais uma redução de salário. Apelo para o espírito natalino se aproximando, mas quem me ouve nas reuniões da empresa? Cada um em seus postos, grita Ricardo, nosso terceiro supervisor. Só então me lembro do estranho sonho: Ricardo III, gritando no final da batalha: Meu reino por um cavalo! Cavalo algum ainda vivo, Ricardo morre também, mas teria mesmo dito isso? Havia um lápis disponível no campo de batalha para que um último sobrevivente registrasse a frase histórica? Shakespeare era dado a exageros grandiloquentes. 

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