Não é necessário sonhar

Embora não me seja exigido, no domingo de sol que bem merecia uma caminhada na praia ou um piquenique no parque, fui votar

Embora não me seja exigido, neste domingo de sol que bem merecia uma caminhada na praia ou um piquenique no parque, fui votar. Para atender os expatriados, o Tribunal Eleitoral aluga o imenso prédio do Dade College no centro de Miami, que vira território brasileiro. É uma festa colorida e animada - gente bonita e alegre, falando alto e rindo idem, mas um alarido agradável, sem gritaria e música a todo volume. Uma agitação educada.  

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Não é necessário pagar. Para facilitar a vida e o bolso, adjacente ao prédio tem um vasto estacionamento. Coisa rara no centrão, era grátis - não sei se por causa do domingo ou se o Eleitoral alugava também. Particípio passado, porque esse ano estava fechado. Estacionar no centro, mesmo num domingo de sol, é uma tragédia. Votar é preciso, mesmo quando não obrigatório, mesmo sem candidatos. Sempre gostei desse dia, desde meus alegres idos alegrenses, mas era um tempo sem  TV, Internet ou telefone, e falo do fixo. Qualquer evento era um grande evento. O chão salpicado de ‘santinhos’ equivalia às bandeirolas das festas juninas. 

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Não é necessário votar. De volta ao presente, aqui vota quem quer, e a eleição não ocorre obrigatoriamente num domingo. Chão salpicado de santinhos, muros pichados, auto-falantes berrando pelas ruas? Nem pensar. A eleição correu sem incidentes, mesários e mesárias puxando conversa, pessoal de apoio orientando filas e sessões, essas coisas. Meu voto americano vai pelo correio: vem uma cédula de três páginas, faço meus cálculos, consulto as bases, pesquiso o que os principais candidatos fizeram ou deixaram de fazer, ignoro a raia miúda - juízes, diretores de escolas, onde gastar a verba tal, etc - e mando de volta. Não é necessário selar. 

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Não é necessário esperar - acho minha longa fila e uma senhora simpática atrás de mim puxa conversa, reclamando dos candidatos. Minha filha me vê e informa que os idosos têm privilégios, Pode entrar na frente. Ah, tinha esquecido, porque aqui isso não existe. Os amigos americanos se espantam, Que maravilha! Mas será mesmo? Não conto que tem gente que manda a tia aposentada ir no banco, que põe volume na barriga pra fingir de grávida, ou pede emprestada a bengala do vizinho. Conheço um que aluga a cadeira de rodas.vou votar no segundo turno por dois motivos. Um deles é para não encontrá-la. 

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Saio da fila e tenho a infeliz ideia de perguntar à senhora atrás de mim, Vem também?  Ela me lança aquele famoso, Se olhar matasse… e eu saio correndo, sem saber onde me esconder. Confúcio disse: Em boca fechada não entra mosquito. Parece que a brasileirada toda ouviu a gafe. Não vou votar no segundo turno por dois motivos. Um deles é para não encontrá-la. 

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