Nem Einstein

Há muitos adjetivos para definir o final de um romance

Mona veio do interior para ser babá em casa de gente fina, e embora já tivesse ouvido falar na Internet e nos telefones que falavam sem fio, de qualquer lugar, onde morava nunca teve o prazer de conhecer um ou outro. O que não se deve estranhar, porque as estatísticas são arrepiantes: grande parte da população mundial nunca viu um telefone fixo, que dirá o celular. Quanto a essa rede de intrigas que nos espiona chamada Internet, para muita gente ainda é um mito.

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Burrinha mas bonitinha, Mona logo atrai os olhares do Moura, caixa da padaria, que lhe passa recadinhos rabiscados atrás da nota fiscal: moura.divino@amormail.com. Simples, mas revelador. Mona perdia o sono tentando decifrar aqueles hieróglifos, sonhando com o rapaz: cabelo no ombro, olhos castanhos, brinquinho em uma orelha. Lá na Caixa D' água nunca viu ninguém tão bonito. Perfeito, mas o problema era as tais mensagens enigmáticas.

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Diz o vulgo, quem não sabe talvez seja ignorante, mas quem não pergunta é burro. E Mona, com vergonha de perguntar a alguém mais antenado na modernidade, temendo se expor ao ridículo, nada perguntou. O tempo correu, a vida tocou seus rumos ladeira acima, e o decepcionado Moura, pensando que a garota não estava interessada, achou outro alguém para encher sua caixa de mensagens. Esqueceu da Mona.

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Historia improvável? Talvez  não. Alguns poucos anos atrás, lá pelos meus 14 anos, minha primeira sonhada viagem ao Rio de Janeiro, então capital federal, um jovem ficou me seguindo por toda parte. Lânguidos olhares. Eu estava hospedada na casa de um tio, e ele devia morar por perto, porque onde íamos o moço, como se dizia então, aparecia também - Corcovado, Copacabana, Pão de Açúcar. Até no auditório de um programa de rádio, esqueci qual. Passava perto e me passava um papelzinho com o nome  - ainda me lembro, Maurício - e o número do telefone. 

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Final de tarde, de volta à casa do tio, cadê que eu sabia fazer a ligação naqueles imensos aparelhos negros e pesados, com uma roleta russa numerada de 0 a 9? Não sabia, e as primas eram muito críticas, não tive coragem de pedir ajuda. O passeio terminou, voltei ao Alegre, e minha primeira história de amor morreu sem ter nascido. Não telefonei, mas ele também não perguntou ao meu tio o telefone da casa... Pegou o trem da Leopoldina e foi parar lá no Alegre, tal como acontece nos filmes?

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Há muitos adjetivos para definir o final de um romance: feliz ou triste, dramático, sombrio, esperado ou inesperado, inconsequente, previsível, cinematográfico, absurdo ou chocante: Quem diria? Nunca teria imaginado, Acontece nas melhores famílias, Ninguém traz estrela na testa, Tinha que ser, Foi o destino, Culpa daquela sem-vergonha, Não dou um ano, Já se esperava, Não ouviu meus conselhos, Todo mundo sabia, menos ele, Pareciam feitos um para o outro… Meu primeiro romance de amor teve um final ridículo. 

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O que nos leva ao caso das gêmeas Liana e Diana. Casaram juntas, ignorando todos os prognósticos desfavoráveis - um sempre dá errado. Passada a fase probatória, ficou claro que Diana e Douglas era o par errado: viviam às turras, quando um batia o outro apanhava. Liana e Lauro viviam entre flores e bombons, meu bem pra lá, amorzim pra cá… até se separarem. Diana e Douglas continuam juntos, 30 anos comemorados entre tapas e beijos. Nem Einstein conseguiu decifrar as equações do casamento. 

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