O futuro ali na esquina

O mundo está ficando muito complicado, e talvez esteja na hora de comprarmos online um terreno em Marte. Ou na lua


Amanhecer em Vix, um novo dia abençoado pela “luz de Deus”.


Vou eu no trem glacier todo de vidro subindo as montanhas da Suíça - a visão dos Alpes com seus picos eternamente congelados é um espetáculo incrível. Mas por um desses azares da sorte, ou imprevistos do azar, caio no sono e nada vejo. O trem rola macio sobre os trilhos e em volta os demais passageiros emitem Oh! Ah! Olha ali! Olha lá! e eu roncando, talvez até de boca aberta… Já passei por  vexame pior? Sim, mas esse é o que lembro no momento. Ao acordar imagino todos apontando para mim e rindo… mas quem ri sou eu: foi um sonho, e se perdi a viagem, pelo menos não passei vergonha. 

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No supermercado quero o pacote de quinoa que, não sei porque, fica sempre na última prateleira. Ninguém compra ou quem compra é mais alto que os outros? Olha em volta em busca de auxílio, talvez um jogador de basquete passe no momento. Mas ninguém passa, parece que as cinquenta  pessoas que vão estar na minha frente na fila do caixa não pisam nessa ala… Portanto, uso minhas qualidades atléticas e dou um belo e preciso salto para pegar o pacote. Caio e arrasto comigo uma prateleira inteira. 

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O barulho atrai o gerente, dois seguranças, e as cinquenta pessoas que vão estar na minha frente na fila do caixa. Se fingir que quebrei a perna eles me deixam passar na frente? Esse é um fenômeno comum nos supermercados modernos: tudo que me interessa está fora do meu alcance, ou porque puseram nas prateleiras mais altas ou porque o preço subiu. Você entra e vê apenas dois gatos pingados em um dos 100 caixas, os outros 99 vazios. Você encerra sua compra e vai para o caixa: todos estão com filas imensas, carrinhos superlotados. P.S. Não sei porque eles não falam “vai para o caixa", e sim, “dirija-se para o caixa”. 

Que tal, caminhe para o caixa mais próximo, ou mais vazio.

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Os caixas com autoatendimento, sem atendentes, estão no seu futuro. Todo supermercado que se preza já tem uma ala reservada para os ousados, que nem nos aeroportos. Sem ter que pagar um funcionário atrás de cada registradora, o produto sairá mais barato, o atendimento será mais rápido, e todos sairão felizes. Tem certeza? Nas alas do faça-você-mesmo tem sempre vários funcionários ajudando os incautos a resolver a corrida de obstáculos de passar pelas registradoras, escanear o preço de cada produto e passar o cartão. Alguma coisa sempre sai errado. Acabaremos aprendendo, ou não iremos mais aos supermercados.

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O que nos leva a outro impasse: as lojas estão com os dias contados? Minha amiga Luana compra tudo online: supermercado, farmácia, restaurante (UberEat), até a compra do carro e uma cirurgia de catarata. E, naturalmente, os relacionamentos amorosos. Divorciada, Luana não pretende se casar,  mas todos os amigos são casados ou interligados, e ela não quer ser o chamado "dois de paus". Por que dois e não três ou quatro, não sei. Luana acha parceiros online, se encontram para um jantar, e Tchau. Bye, bye baby. As amigas avisam: Um dia você acaba gostando de um deles. Que nada! Existem serviços de escort online só para saídas sociais, mas aí tem que pagar o serviço e o jantar.  Com sorte, o pretendente até paga o jantar sozinho.

O mundo está ficando muito complicado, e talvez esteja na hora de comprarmos online um terreno em Marte. Então seria um marteno. Ou na lua, e seria um lurreno. Com as calotas glaciais derretendo a olhos nus, isso aqui vai ficar alagado. Viveremos em navios, e como tudo se compra online, não será difícil nos adaptarmos. Quem viver verá: o futuro já está ali na esquina. 

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