O influenciador

Outro assalto? Agosto mal começou e ele já sofreu cinco

Como sempre acontece nos piores momentos, o imprevisível vem por acaso. Com o jornal do dia debaixo do braço, JC passa apressado pelo ponto de ônibus na esquina, onde dia sim dia não é assaltado, e se assusta quando o sujeito se aproxima - Outro assalto? Agosto mal começou e ele já sofreu cinco. Com alívio, porém, JC percebe que é um inofensivo ruante, um sem-teto, aqueles outrora chamados de pedintes, embora nem sempre peçam alguma coisa. Leu a seção de economia de hoje, Amigão? Estou pasmo com essas novas medidas… JC se espanta: um mendicante que lê jornal e acompanha os zigue-zagues do noticiário? 

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Mas por que não?  É preconceito achar que um desses outrora chamados parasitas da sociedade, vivendo de esmolar a paciência alheia, não tenha capacidade para ler os jornais do dia. Curioso, JC faz perguntas, pede a opinião do sujeito. Ele se entusiasma, dá palpites, censura uns, elogia outros, está bem informado. E lá vão eles, discutindo economistas e políticos ao caminhar pela calçada vazia no meio da noite. De repente JC percebe que caiu numa cilada, e está sendo levado para uma área isolada onde será assaltado, assassinado ou algo muito pior…

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Vai me assaltar? pergunta, aflito, e o ruante o encara, ofendido, É sempre assim, a gente quer ajudar e é mal interpretado. Estou lhe fazendo companhia para que não seja assaltado nesse trecho isolado da rua, a bandidagem da área me respeita. JC pede mil desculpas, Ouve-se tantas histórias… Fui injusto, grosseiro, na verdade. Chega são e salvo ao lar-doce-lar, mas sem o jornal que nem tinha lido ainda: deu pro mendigo, que prometeu retribuir o favor assim que… Com certeza não o verá outra vez.

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Ledo engano, disse o destino, tal como se dizia no tempo em que jornaleiros apregoavam pelas ruas as manchetes do dia. Outra noite solitária e JC segue em seu trajeto habitual, morrendo de medo dos assaltos, e passa pelo mesmo ponto de ônibus vazio, a essas horas sem ônibus nem passageiros, e leva um susto quando uma sombra sai das trevas e se aproxima... Outro assalto? Boa noite, Amigão. Ah, você de novo… diz com alívio, surpreso de ver que na  sacola de supermercado o ruante carrega vários jornais e não uma arma.

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Trouxe uns jornais que você não conhece. A gente tem que diversificar, ler a opinião de uns e outros… JC olha espantado os vários jornais do dia, de outros estados e até outros países. JC: Onde arranjou tudo isso? pergunta, temendo que sejam fruto de assaltos a mão armada. Ele: Recolho os jornais que jogam nas lixeiras dos prédios, assim a gente fica bem informado. Você lê inglês? JC se espanta, reparando nas manchas de gema de ovo na primeira página do New York Times. Ruante: Leio tudo que encontro, entendo um pouco de francês e espanhol também…

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E assim, de uma ocorrência corriqueira, embora inusitada, formou-se uma estranha interação cultural: o intelectual e o ruante, ou morador de rua, roupas sujas, tênis diferentes em cada pé, cabelos desgrenhados ao vento, na boca a falha de dois dentes, perdidos em alguma briga com os do-mal, como ele chama os assaltantes que infestam a área. Se sai no jornal ele fica sabendo, desde as mazelas políticas, os desmandos da economia, a alta disso e a falta daquilo, até as realidades da vida, que nem só de más notícias vive o homem. Falam de literatura, do estranho aumento de crimes contra as mulheres, do desrespeito à santa  ecologia. 

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JC diversifica os jornais que acha nas bancas e o ruante traz o que acha nas lixeiras, alguns indicando preferências gustativas - uma folha de alface nos classificados, um sujinho que deve ser feijão preto nas colunas sociais… um cheiro de bife rançoso numa página de esporte. Queijo, presunto, suco de laranja… dá de tudo nas mesas do bairro, e os jornais que ele recolhe com amor têm variados estilos. Não precisa devolver, Amigão, mas se trouxer de volta passo pra outros. Tem muito ruante aqui nessa área que aprecia as leituras. 

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JC entende. O sujeito é o que hoje andam chamando de influenciador cultural. No começo dessa estranha amizade JC aceitava os jornais mas não lia nenhum deles, sabendo bem de onde vinham e imaginando em que outras mãos andaram. Mas com o tempo foi sendo conquistado, e agora até se sente honrado em participar desse clube de leitores que não vê mas sabe que estão por ali, lendo os colunistas e ensaístas que ele lê. Além dos jornais serem gratuitos e de altíssimo nível, JC nunca mais foi assaltado na volta do trabalho. 

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