O mundo contemporâneo e o Yoga moderno

O tantrismo não foi completamente ingurgitado porque se autoafirmou de onde se presumia enfraquecido

PARTE I

Tudo no mundo se transforma, cotidianamente, diariamente, anualmente... e séculos após séculos ... essa é uma ação natural presente no Universo.

No entanto, não estamos, nesse pequeno texto, querendo impedir tal movimento de transformação e de mudanças, especificamente aqui, no que diz respeito ao mundo do Yoga.

Vimos, por outro lado, pontuar algumas direções que vêm acontecendo com a arte milenar indiana, denominada de Yoga Tradicional Indiano, direções estas que, ao nosso ver, afastam o Yoga Moderno das ideias e metas traçadas pelos antigos habitantes do Vale do Indo – Índia Antiga e seus movimentos Yogues Rishis (sábios meditadores de Bharata - Bharata: antigo nome para a Índia).

Dando um salto da Índia Antiga e seu Yoga Tradicional ou Yoga de natureza tântrica para os dias atuais e, principalmente, para o mundo de hoje no Ocidente, constataremos uma afirmação de Yogas muito diversos do Yoga Tradicional Indiano (mesmo lá, naqueles tempos, já com algumas ramificações).

Aqui, no referido Ocidente, com frutíferas e fecundas e inevitáveis reverberações no Oriente, as ciências contemporâneas - como polvos - criam tentáculos que, literalmente, ingurgitam qualquer outro saber que tenha sido desenvolvido por meios não acadêmicos ou laboratoriais.

Esses tentáculos determinam o desprezo pelo passado - principalmente quando ele ressoa de milhares de anos atrás e de um país periférico às grandes potências ocidentais ou ao mundo oriental ocidentalizado, ou seja, quando esse passado espraia-se por sociedades com uma vida muito distante dos parâmetros higienistas, cientificistas, patriarcais e teístas.

A Índia se constituiu em camadas que se foram amalgamando ao longo de muitos e muitos séculos: passado e presente, tradição e contemporaneidade se imbricam, se mesclam e se autorreproduzem infinitamente.

Aqui encontramos um paradoxo:

A tântrica forma de se ser não foi completamente ingurgitada porque ela se dobrou, se envergou e surpreendentemente se autoafirmou de onde se presumia enfraquecida e mesmo morta?


PARTE II

O paradigma ocidental cientificista reverbera em variados matizes, contamina movimentos como aqueles presentes nos Yogas modernos, mas ele não conseguiu, ainda, desfigurar um comportamento livre e alegre de se ser hindu.

O Tantrismo ainda está vivo, mesmo abrindo leques, como o fez Vivekananda, no Congresso de Religiões em Chicago, e como o fazem Gurus contemporâneos nascidos no Ocidente ou na Índia.

Mesmo com esses leques abertos, o povo hindu ainda reverencia as águas (a mãe Ganga), os animais, as árvores em memoráveis, exuberantes, sensuais e impactantes Aarts.

O cântico tântrico mântrico sempre ressoou e, ainda, ressoa por toda o subcontinente hindusthan, contando e cantando uma história antiga, nascida de intuitivas, sensitivas e sábias vivências de iletrados Sadhus nus.

A energia espiritual (impossível de ser quantificada pela moderna ciência) ainda brota das frias, gélidas e sujas pedras milenares de templos imemoriais, alimentando uma população não carente, porque rica de sensações, sentimentos e reverberações samádhicas.

Cores, aromas, odores impregnam de energia, força e poder os peregrinos, os buscadores de variadas castas e classes sociais.

A força dhármica orienta o terceiro olho e o buscador, inebriado pelo tato e contato, pelo sabor de se embrenhar em um mundo de sensações, percepções, visualizações, imaginações... poesias, músicas, mitologias, reverbera com força e poder o tântrico mundo hinduísta.


PARTE III

Se vasculharmos as origens desse movimento dos Yogas contemporâneos, veremos os tentáculos das ciências ocidentais e perceberemos o processo que eles provocam, como o de Gurus indianos negando a tradição hindu (autodidata, intuitiva e sensorial) por julgá-la não científica, ultrapassada e inadequada a uma performance contemporânea acelerada e competitiva (talvez, por isso, esses Gurus se tornam mundialmente conhecidos).

Surge, em função de todo esse arcabouço teórico, ideológico e mercadológico, a nova "pegada" dos Yogas contemporâneos: um Yoga clean, artificialmente aromatizado e climatizado, onde corpos torneados brilham em esfuziantes movimentos dos Yogas Dog Down... o Yoga Fitness moderno já se torna coisa do passado... hoje ele é muito hot...

Essas linhagens de Yoga contemporâneas mergulham intensamente em laboratórios corporais, fisicamente detalhados nos discursos dos Instrutores, que, como máquinas, destrincham a anatomia humana, agora auxiliados por aparelhos, ambientes aclimatados (ou seja, desprovido de Prana), em busca de resultados não apenas imediatos, mas, principalmente, quantificados e mensurados pelas ciências da saúde.

Sequências repetidas intensamente e exaustivamente, performances apressadas, obsessão por alinhamentos corporais precisos e preciosos, analisando cientificamente a máquina muscular e esquelética desabrocham não só em linhagens de Yoga científicas,
mas em obras escritas dentro desse prisma, as quais analisam, de acordo com a linguagem da Medicina, a anatomia humana, relacionando-as com os Asanas.


www.shivamyoga.com.br

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