Os ufanológos

Um livro publicado em 1900, Porque me ufano de meu país, foi ressuscitado em 1997 e fez grande sucesso


(A primavera chegou no Polo Norte) 

 

Um livro publicado em 1900, Porque me ufano de meu país, foi ressuscitado em 1997 pela Expressão e Cultura, e fez grande sucesso, desconfio que mais pelo uso do verbo ufanar, que virou moda.  Nossa cozinha?  A melhor do mundo. A natureza? A mais bela e exuberante. Terra de Nosso Senhor, cantou Ary Barroso. A ideia era, o mundo precisa conhecer nossa supremacia e grandeza.  Antes disso, porém, quando morei pela primeira vez nos States, vivia pregando as belezas e benesses da terra brasilis, com fartura de tudo que é bom e belo, talvez sofrendo da síndrome que aqui chamam homesick. 

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Para divulgar os inigualáveis sabores da nossa cozinha, eu estava sempre servindo cafezinho e brigadeiro para amigos e vizinhos. Só que morávamos no campus de uma universidade internacional, onde Michel labutava para tirar um mestrado, com 20 mil alunos de todos os países do mundo. E por toda  parte se ouvia o mesmo discurso: O Paquistão é o melhor país do mundo; Camarão tem o povo mais bonito e mais hospitaleiro do mundo; O Líbano é a Suíça do leste… Enfim, todos se ufanavam da terra que haviam deixado para trás e para a qual pretendiam voltar assim que… Embora muitos não voltassem.

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Meus sogros vieram do Líbano ainda jovens. O sogro não conheci, mas a sogra vivia cantando as maravilhas de sua terra natal: Todas as estradas do Líbano são asfaltadas. Isso num tempo em que a única estrada asfaltada do Espírito Santo era o pequeno trecho Cachoeiro-Safra, portanto, ninguém acreditava. Os brasileiros tinham o mau hábito de generalizar a raça árabe como um só  povo e uma só cultura: turco, sírio, libanês, ou sírio-libanês, sauditas, muçulmanos, todos eram turcos. A sogra ficava irritadíssima com essa globalização: Vocês gostariam de ser chamados de argentinos? perguntava. Por mim tanto faz quanto fez, não me ofenderia em absoluto. Ela duvidava: Você diz isso porque nunca saiu do Brasil. Se algum dia morar em outro país, vai me entender.

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Sair do Brasil nunca passou pela minha cabeça, embora uma das avós do meu marido, com o dom de prever o futuro, tivesse profetizado: Quando crescer você vai morar na América do Norte. A avó acertou e a mãe também: hoje nós brasileiros nos ofendemos quando nos documentos oficiais deparamos com a opção Hispânica para os sul americanos em geral. Isso está mudando, mas os formulários oficiais com quadrinhos para assinalar a opção correta continuam muito racistas:  Ɦ Branco Ɦ Afro-americano Ɦ Hispano Ɦ  Asiático Ɦ Latino. Ou seja, se você é hispano de cabelos louros naturais e olhos azuis, você não pode assinalar o quadrinho Branco. Mesmo quando afro-americanos podem ser brancos. 

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Quanto ao livro, Porque me ufano do meu país, no capítulo final (XLII) Affonso Celso profetiza: “Nenhum problema insolúvel, nenhum perigo inevitável ameaça o desenvolvimento do Brasil. Não vive ele, como os países de Europa, sob a pressão de questões irritantes e conflitos iminentes com os vizinhos. Apenas duas apreensões assaltam o espírito de quem medita sobre os seus destinos, se continuar a ter maus governos e instituições incompatíveis com a sua índole." Isso em 1910!

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