Promessa é dúvida

Não há registros na nossa história de que um fio de cabelo feminino tivesse o mesmo valor do fio de barba

Em algum momento de sua evolução social o homem inventou a promessa: um compromisso moral de fazer alguma coisa em um futuro próximo ou distante. Nesses primórdios, a palavra empenhada era garantia de honestidade e caráter – o prometido haveria de ser cumprido. Essa confiança no contrato não escrito evoluiu para o fio-de-barba, garantia absoluta de que a promessa, fosse qual fosse, seria honrada no tempo estipulado. Não há registros na nossa história de que um fio de cabelo feminino tivesse o mesmo valor do fio de barba, embora fosse mais longo e melhor cuidado. Não, a mulher não merecia crédito, com ou sem garantias.

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Nesses cavernosos tempos, a mulher era um elemento secundário na escala social, mantida com a promessa não escrita de multiplicar a espécie e fazer o homem feliz: no aniversário do seu marido eu faço um gavião ao molho pardo se você prometer assar um javali no casamento da minha filha. Para  selar o contrato, ambas solenemente arrancavam fios das longas tranças, e tudo correria bem. As coisas mudaram um pouco, temos que admitir, mas a essência continua a mesma. Mas aí o diabo – provavelmente vestido de mulher - inventou o calote. “É tão fácil o prometer, tão difícil o cumprir”, sentenciou sabiamente o Marquês de Maricá.

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Já não vivemos em cavernas, e longe vai o tempo em que andávamos pelas trilhas desviando de cocô de macacos. Evoluímos, e se na Idade Média íamos pelas ruas desviando de cocô de cavalo, hoje desviamos de cocô de cachorro. Nessa trajetória a promessa, essa algema moral, vem perdendo credibilidade. Não vou me casar com você porque seu primo foi pego no hacker do celular do governador. Mas você prometeu! Promessas são fiapos de nuvens vagando ao léu, não trazem tempestades. Se não tem documento assinado com firma reconhecida e duas testemunhas, fica o dito por não dito e adeus.  Se vai mesmo me abandonar, leve seu cachorro. Mas você prometeu cuidar dele. Eu sei, mas promessa é uma nuvem que já passou. “Beijos não são contratos e presentes não são promessas”, assim falou Shakespeare.

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Promessa é dívida, disse Confúcio; Promessa é dúvida, disse o caloteiro. Se emprestou é porque não precisava. Era um chato, emprestei para ficar livre dele. Promessas não são escritas nas estrelas nem talhadas em pedra. Mas jurar é fácil, acredite quem quiser... Jurei que devolvia aquele livro da Bernadette Lyra, mas roubaram no ônibus. Jurei chegar na hora mas o trânsito na ponte estava engarrafado. Jurei fazer o depósito mas os banqueiros entraram em greve. Sem avisar aos bancários. Jurei pagar mas o dinheiro acabou, a moeda mudou, o dólar subiu outra vez. Jurei te levar no aeroporto, mas não sabia que você levava tantas malas... O que você carrega, contrabando de influências?

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Juras de amor são as mais fáceis de quebrar – o tempo passa e o amor esgarça, dizem os sábios. As promessas mais difíceis de cumprir são as financeiras: quanto mais $$$ pior. Se tudo correr bem, pago no ano que vem. Prometi entregar o carro com o tanque cheio, mas o posto estava fechado. Tudo que prometo eu cumpro: se não chover, se não for feriado, se ainda estiver viva, se a casa não cair, se o banco não falir, se a canoa não virar, se o governo não mudar, se o sol ainda brilhar. “Devemos ter boa memória para lembrar de cumprir todas as promessas que fazemos”, disse Friedish Nietzsche, que morreu endividado.

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De juras e promessas andamos fartos, e já ninguém sonha que alguma promessa de campanha política seja cumprida. Mesmo assim vamos às urnas, na esperança de que desta vez vai dar tudo certo. Doutor, votei no senhor. Fez muito bem, eleitor, prometo não decepcioná-lo. Pois é, acabei de perder o emprego e talvez o senhor... Ah, meu amigo, bem que gostaria, mas a oposição me deixa de mãos atadas. Conto com seu voto na reeleição. Prometo, doutor. “Promessas e bolachas nasceram para ser quebradas”,  sentenciou Jonathan Swift, o austero.

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Promessas se propagam nas redes sociais com a força das tempestades. As mensagens de texto estão mudando a sociedade e a escrita, eliminando o supérfluo - entre um hashtag e uma curtida as promessas estão sendo eliminadas, tal como os advérbios e a sinceridade. Mas prometem voltar com força total, com a volta en-masse das barbas e bigodes. Fios não vão faltar, portanto prevejo um retorno aos tempos em que quem prometia, cumpria, mesmo que para si mesmo, como lindamente poetou Ana Carolina: Tenho ainda muitas coisas pra arrumar, promessas que me fiz e ainda não cumpri...” Quem não tem?

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