Sempre se dá um jeitinho

Comprar a passagem é fácil, as empresas aéreas parcelam a perder de vista. Mas você precisa de um visto

Você está perdendo o sono, preocupado com tudo e todos. O emprego tá pagando mal ou você corre o risco de ser despedido, os concursos para cargos públicos sumiram, a pessoa amada se mandou, a casa tá caindo ou o aluguel subiu outra vez, a escola dos filhos não ensina, o custo de vida está te matando, seu time corre o risco de cair nas tabelas, o vizinho é um criador de caso, as novas medidas do novo governo estão cada vez mais esdrúxulas. Sem nem mencionar os assaltos, ou o constante medo de ser assaltado. E você fica ruminando a saída mais fácil: o novo aeroporto.

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Todos os amigos que partiram dizem que estão muito bem, de carro novo e apartamento com vista para o lago. Ganhando em dólares, seja no Polo Norte ou nas Bermudas. Estão mesmo? O mundo anda complicado, com gente demais e recursos de menos. Não bastassem as crises econômicas, temos agora as crises políticas, com hordas de migrantes forçados a abandonar a pátria que não pretendiam deixar para enfrentar países desconhecidos e hostis. Além disso, tem o Trump escondido atrás das cortinas da Casabranca, vigiando as fronteiras de binóculos na mão. Mesmo assim...

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Comprar a passagem é fácil, as empresas aéreas parcelam a perder de vista. Mas você precisa de um visto. O de turista hoje em dia está fácil de conseguir, mas lhe dá apenas seis meses de vida paradisíaca - sem autorização para trabalhar. Havendo cash disponível, o melhor visto é o de estudante - sem prazo de vencimento, pode durar a vida toda, ou enquanto seu cash durar. Tem que frequentar uma faculdade e também não pode trabalhar,  mas fica mais fácil driblar a vigilância. Também é um bom lugar para garantir seu futuro, ou seja, encontrar alguém. Casar ainda é o jeito mais fácil de ficar no país escolhido. Com sorte você acha amor puro e verdadeiro, pelo menos da parte da noiva/noivo, e não vai cobrar para casar. Ou uma simples transação comercial, sem sentimentos envolvidos, mas que vai lhe custar uma boa nota. 

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Os valores também variam, mas nada menos de $$$$$ - Google tradutor: 5 mil verdinhas, dependendo do status da segunda pessoa envolvida na transação. O que pode dar errado? Depois de casados, vocês terão um agente da imigração, que poderá desconfiar da trama e negar o visto. Mas é difícil de acontecer, porque eles não têm como fiscalizar tantos casamentos "de conveniência". A não ser que haja uma denúncia, os falsos casamentos têm um final feliz. Depois de dois anos de vida-comum - mesmo que separados - o casal terá uma segunda audiência, para confirmar que continuam juntos de fato e de direito. 

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Só então você pega o ambicionado visto definitivo e pode morar por toda a vida. Pode divorciar e casar com quem escolher e pode trabalhar onde quiser. Com cinco anos pode pedir a cidadania definitiva. Única exigência para não ser deportado: bom comportamento. O que pode dar errado? O esposo ou esposa dar o bolo e não comparecer na segunda reunião. Portanto, nunca pague o total do valor combinado na hora do casamento. Para evitar surpresas desagradáveis, pague 50% antes (ou menos), e o restante na segunda audiência. Ou vai ter que começar tudo de novo. 

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Quem não tem dinheiro para pagar um casamento ou uma faculdade tem que rezar pro Trump não se reeleger e as leis de imigração afrouxarem outra vez. Do jeito que as coisas andam, tudo pode acontecer, aqui como aí. Outra opção é ir para a Costa Rica, onde as condições de vida são boas e o governo está aceitando qualquer um, com faculdades gratuitas e plano de saúde grátis para todos. Há outras opções mundo afora, mas na Costa Rica  você vai estar perto das fronteiras americanas, caso as coisas mudem de repente. E com qualidade de vida. Boa sorte.

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