Sobre rios e relógios

O quadro na parede conta uma história que se perdeu no tempo


Placa de carro na highway, embora recomende: Sempre pegue a rota mais cênica

O quadro na parede mostra uma paisagem muito antiga: um rio tranquilo refletindo um céu primaveril; frondosas árvores parecendo duplicadas nas águas imóveis, de cabeça para baixo feito acrobatas. Atrás de um florido flamboaiã que se debruça sobre o rio e também se repete na água se esconde uma cabana, ou uma casa de veraneio, revelada apenas pela fumaça da chaminé que sobe aos céus. Devagar, como uma prece. 

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As casas antigas tinham chaminés, e a fumaça da lenha estalando no fogão era um jeito singelo de agradecer pela refeição a ser servida, devidamente apreciada e calmamente consumida. Os únicos sons quebrando essa calma eram a crítica dos grilos e o coral dos pássaros. Um tempo sem pressa, tal e qual as águas imóveis do rio. Parecendo dormir, mas só na superfície. No fundo elas seguem sua incansável missão de escorrer lentamente para lugar nenhum, que todas as águas se renovam num ciclo perpétuo, teimosamente retornando para o leito dos mesmos rios. 

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Isso se algum desastre ecológico provocado pelo homem não interferir no ciclo. Que sabem os rios sobre relógios? Para eles a hora não conta e nem é contada, a sina de todos os rios se regula por si mesma, sem obedecer a um maestro com duas batutas girando incessantemente dentro de sua prisão numérica. Doze guardas aparentemente imóveis, tal como a superfície do rio, mas caminhando para um final inevitável. Do rio ou do relógio?

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O quadro na parede reflete um tempo que deixou de existir. O rio ainda plácido hoje está poluído por produtos químicos criados para facilitar nossa vida. As velhas árvores que mantinham o solo fértil e o ar limpo cederam a vez para verdes capinzais que contribuem para a expansão do buraco na camada de ozônio. Se virem uma fumaça saindo pela chaminé, chama os bombeiros que é incêndio. “Se quer comer alguma coisa, pega aí no freezer… 5 minutos no microondas”. 

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A vida se enredou numa corrida de obstáculos, com  muitos impedimentos mas sem a bandeirinha no final da linha. Cadê meu celular? Não durmo sem ele. Agora não posso, aguardo um e-mail importante, uma chamada urgente, uma mensagem de texto. Preciso terminar esse projeto ainda hoje (ou essa coluna, ou essa encomenda).  O contrato tem que ser assinado no prazo estipulado ou perdemos o cliente. O filme já começou, se chegamos atrasados não se entende o enredo. Antigamente a gente perguntava ao cara na poltrona do lado o que está acontecendo na tela, mas se fizer isso hoje é expulso do cinema. Expulso, eu? Claro, muitas vezes.

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O quadro na parede conta uma história que se perdeu no tempo, feito relógios de água e de sol. Porque o tempo já não nos pertence, corremos no sentido oposto de  dois ponteiros mancos, prisioneiros de 12 algarismos divididos em micropartículas de horas, minutos, segundos: sonhos, desejos, esperanças, guerra e paz, ontem e amanhã, vida e morte, o nada para daqui a pouco. O tempo é infinito, mas a contagem regressiva começa quando nascemos. 

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