Tamanho não prova nada

Pequenos, incômodos e teimosos, projéteis voadores chamados mosquitos são de longe os piores inimigos da espécie humana

Tá na Bíblia: a vida humana, dita inteligente, começou num paraíso, e quando as coisas deram errado puseram a culpa na Eva, esquecendo que para o tango e o pecado precisa ter mais alguém do lado. E aqui estamos, exilados em um planeta perdido em uma pequena galáxia que acomoda 40 bilhões de estrelas iguais ao nosso sol. Ufa! Se nossa vã filosofia não alcança a grandeza do universo, menos ainda entendemos os minúsculos inimigos postos aqui para nos atormentar. Com toda certeza o castigo por termos descoberto o pecado - que nem andava muito escondido, foi a inclusão do mosquito no reino animal da esfera terrestre.

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Quando vemos a beleza de um pássaro, a utilidade de um boi, o companheirismo de um cão, a pergunta é óbvia - por que mosquitos?  As baratas também confirmam o que a jurisprudência catalogou como um castigo maior que o crime,  mas os atentos cientistas modernos só agora descobriram que esses pequenos, incômodos e teimosos projéteis voadores chamados mosquitos, são de longe os piores inimigos da espécie humana. Esse inútil ser vivo que podemos eliminar com um simples tapa - com sorte - foram imputados como os causadores da  maioria das mortes no mundo. 

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Campeões absolutos, deixaram no chinelo todas as guerras, os acidentes naturais ou provocados, os ditadores mais sanguinários, o trânsito e outras doenças não provocadas por eles - é muita coisa para um ser tão pequeno, leve e solto. Em 1698, cinco navios partiram da Escócia assolada pela fome, levando 1.200 colonizadores para iniciar vida nova no Panamá. Levavam tudo que poderiam precisar para se adaptarem nos trópicos e com contratos com  empreendedores da Europa para futuros negócios. Calcula-se que de ¼ a ½ de todo o dinheiro em circulação na Escócia foi investido na aventura. Que afundou por causa dos mosquitos. 

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Vindos das regiões geladas do norte da Europa, os colonizadores não estavam preparados para a febre amarela e a malária, e seis meses depois, a metade da expedição havia morrido, e dos que retornaram nos navios, quase todos morreram durante a viagem. Fato narrado no livro do historiador Timothy C. Winegard: “Mosquitos: Uma história humana dos nossos mais mortais predadores”. O autor sugere ainda que os dinossauros  também…não duvido, que tamanho não é documento. Nas guerras da antiguidade, soldados gregos e romanos morriam aos montões por causa dessas picadinhas venenosas, que muitas vezes decidiram o resultado das batalhas. 

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Para nós nada disso é surpresa, de vez que enfrentamos - e perdemos - uma guerra sem tréguas com esse inimigo liliputiano há 500 anos. E continuando ameaçados por dengue, zika, malária, etc. Tem gente que nem percebe que foi picado.  Quem ainda se lembra do Jeca Tatu, derrubado pela febre amarela, que acabou se tornando nosso super-herói? “Jeca Tatu se calçou, tomou remédio sarou…ou em boa hora se tornou garoto-propaganda das campanhas de saneamento do governo. Antigamente essas doenças eram atribuídas aos ares nefandos ou castigo dos deuses. O fato de serem transmitidas por picadas de mosquitos é considerado uma das grandes descobertas da ciência moderna. Mas continuamos em desvantagem: só as fêmeas picam, transmitindo as doenças. 

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