Um trem para lugar nenhum

Houve um tempo em que os trens eram o meio de transporte mais usado no Brasil. Desapareceram, feito fumaça

Houve um tempo em que os trens eram o meio de transporte mais usado no Brasil. Desapareceram, feito a fumaça das locomotivas movidas a vapor - empurrando as rodas de aço sobre os trilhos, os trilhos sobre os dormentes, indo e vindo, apitando nas curvas e jogando no ar fagulhas que imitavam estrelas esvoaçantes. Mas não sumiram de todo - muitos ainda correm por aí, com as fornalhas substituídas por máquinas a diesel ou elétricas. Acho. Onde já não correm, os trilhos foram vendidos para sustentação de paredes e telhados, pontes sobre riachos secos e pontilhões em desuso.

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Quando criança, Laurena Fontenova ia passar as férias na fazenda dos avós lá pelo interior de Colatina. O tempo passou, tudo se modernizou, às vezes para melhor, outras nem tanto, ou vice versa, que dá tudo no mesmo. Mas tem coisas que ficam guardadas na memória, ali se agarram feito trepadeira teimosa, não tem Alzheimer que faça esquecer. Os ciclos da vida trazem alegrias e desgostos, mais desses que daquelas - no balanço final os bons momentos estão sempre no negativo. Ou vice-versa.

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A residência dos Fontenova foi aos poucos se esvaziando: os filhos cresceram, casaram, tiveram seus próprios filhos, cujas opções de férias não incluíam a casa da avó. O marido a trocou por outra mais velha, pero mais rica. Pelos muitos desvios da sorte, Laurena herda a fazenda que foi dos avós e se muda de mala e a coleção de Agatha Christie para o interior de Colatina, onde os trens já não apitam e aviões não aterrissam. Não tem Internet? O espanto dos netos.

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Procura daqui, pesquisa dali, com a ajuda da sorte e dinheiro no bolso, Laurena sai em busca de seu passado, recuperando a sucata que ainda existe pelo interior: uma casa recém-demolida tinha as estacas feita de trilhos; o almoxarifado de uma prefeitura mantinha algumas rodas de aço, que  pretendiam derreter e reusar a matéria prima. O Achatudo.com surpreendeu com alguns bons achados; os bancos de uma igreja eram os assentos de palhinha do carro-restaurante da segunda classe. 

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Algumas árvores tiveram que ser derrubadas, mas um trem fantasma corre hoje na fazenda de Laurena, com locomotiva a vapor bufando e um único vagão. Os trilhos não se esticam até Vitória, nem mesmo chegam a Colatina, mas toda a sucata recolhida, consertada, remendada, adicionada, polida e pintada, deu para ir da varanda de entrada da antiga casa grande até a estrada de rodagem com bom asfalto, onde os ônibus param duas vezes por dia. E se a proprietária raramente embarca em seu trem azul para voltar à civilização, vai no entanto até a rodoviária buscar e levar os netos nas férias e feriados. 

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