Recursos irão financiar reforma do laboratório da Abrace para atender às novas exigências da Anvisa
A Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace) realiza uma campanha de financiamento colaborativo para arrecadar recursos necessários às reformas de seu laboratório, exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Única entidade autorizada a produzir e comercializar o óleo canábico no Brasil, a Abrace atende hoje a mais de 15 mil famílias que encontram, no uso terapêutico da Cannabis sativa, popularmente conhecida como maconha, a única esperança para evoluir no tratamento de diversas doenças, como epilepsia, mal de Alzheimer, mal de Parkinson e autismo.
O Óleo Esperança da Abrace é considerado de excelente qualidade e vendido a preços muito mais acessíveis que os praticados no processo de importação, onde o medicamento chega a custar R$ 2 mil. Mas, para continuar a produzi-lo, a entidade precisa atender às novas exigências estabelecidas pela agência reguladora, realizando reformas em seu laboratório.
A determinação foi expedida no início de março e fixou o prazo de 180 dias para a implementação das reformas. “Com esse recurso vamos construir o primeiro laboratório para fabricação de medicamentos à base de Cannabis do Brasil, já que a Anvisa não permite que fiquemos no local atual com as condições de uma residência (onde tudo começou)”, expõe a entidade.
Uma das famílias atendidas pela ONG é a da advogada Ananda Rosa, que administra o Óleo Esperança para o tratamento do autismo do filho de dez anos. Ela conta que conheceu a Abrace por meio do médico neuropediatra Eduardo Faveret, uma das maiores referências no Brasil sobre uso medicinal da cannabis.
“Meu filho tinha tido uma regressão muito grande nessa época. Ele sempre foi autista, mas não tinha autoagressão. Naquele ano ele estava muito mal, com comportamento muito prejudicado, se batendo muito. A gente já tinha passado por vários psiquiatras e não conseguia achar uma alternativa. O que funcionava nos momentos de crise era dopá-lo ou usar equipamentos de proteção, como capacete. Aquilo foi uma angústia muito grande, porque eu não conseguia fazer terapia nenhuma nele”, relata.
Os progressos do filho com o Óleo Esperança motivaram Ananda a divulgar o trabalho da Abrace quando retornou ao Espírito Santo, formando um grupo de mães que, como ela, estão nessa trajetória de buscar um óleo que funcione para seus respectivos estados de saúde e que elas possam pagar.
“Geralmente, a primeira opção é a Abrace, que tem essa facilidade de preço e rapidez. E quando a pessoa não se adapta ao óleo da Abrace, ela busca os importados”, conta.
No site da campanha “A Abrace Não Pode Parar”, estão descritas as metas que, atendidas, irão funcionar várias etapas do projeto de reestruturação do laboratório. A meta 1 é de reconstrução e adaptação do laboratório atual, a um custo de R$ 300 mil, suficiente para atender até 30 mil associados. O prazo para levantar os recursos é o dia 14 de maio.
A meta 2 permite construir um novo laboratório, de quatro mil metros quadrados, para atender até 100 mil associados, ao custo de R$ 3,5 milhões. Há ainda a meta de equipamentos, que busca R$ 5 milhões para a compra de todos os equipamentos industriais necessários para atender os 100 mil associados.
“A Abrace já conta com local onde será construído o novo laboratório e todo projeto arquitetônico pronto para ser protocolado junto à Anvisa. Nesses custos estão incluídos a construtora e os equipamentos industriais”, explica a ONG no texto da campanha.
Outra opção de colaboração é a compra de produtos como camisetas, bonés, ecobags, canecas e pulseiras, na loja própria da Abrace.
Histórico
O uso medicinal da maconha no Brasil teve seu grande salto a partir da busca de pais e mães para tratarem suas crianças com síndrome de Dravet, que provoca graves crises de epilepsia, chegando casos de ocorrerem mais de vinte por dia. O óleo canábico consegue reduzir os ataques para até um ou menos por mês.
Sistema endocanabinoide
Em 2019, a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) realizou, no Rio de Janeiro, a segunda edição do Seminário Internacional Cannabis Medicinal – um olhar para o futuro, em parceria com a Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi) e apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Ativista pela legalização da maconha há quase duas décadas, e integrante do Grupo de Trabalho de Cannabis medicinal da Fiocruz, João ressalta que esse sistema consiste em “uma maquinaria molecular que produz a maconha endógena” e que tem receptores para os canabidiol (CBD) e o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) da planta, quando fumada, inalada ou ingerida.
O uso terapêutico, relata, é antigo, por meio principalmente de pomadas, chás, óleos e manteigas. Fumar é mais recente e também pode ser usada terapeuticamente. Mas faz efeito mais rapidamente e com menor duração. E essas diferenças devem ser consideradas por quem for fazer uso, considerando o problema a ser tratado, a idade e a condição física do paciente. Mas assevera: “todo uso é terapêutico”.