Internada em ala psiquiátrica, Márvila Araújo buscou tratamento para cefaleia em salvas

A fotógrafa e artista visual Márvila Araújo, reconhecida por seu trabalho que enaltece a ancestralidade afro-brasileira e a beleza negra, enfrenta uma das piores crises de sua vida, após ter sido internada no último dia 20 devido à cefaleia em salvas, uma doença considerada a pior dor da medicina. Ela e familiares denunciam negligência hospitalar da Unimed Vitória e racismo estrutural no tratamento médico, além da falta de transparência em relação aos laudos de exames.
Inicialmente internada no Hospital Cias, na Capital do Estado, a fotógrafa relatou ter sido submetida a um exame de eletroencefalograma de 12 horas, durante o qual sofreu graves convulsões. No entanto, os médicos se recusaram a fornecer o laudo e, de “forma abrupta”, passaram a afirmar que Márvila não apenas tem cefaleia em salvas, mas também um transtorno mental, recomendando sua transferência para uma clínica psiquiátrica.
A cefaleia em salvas é uma condição neurológica caracterizada por dores de cabeça extremamente intensas e recorrentes. Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, é considerada a mais dolorosa de todas as dores de cabeça, afetando aproximadamente 0,1% da população mundial. As crises podem durar de 15 minutos a três horas, e ocorrem frequentemente no mesmo horário do dia, muitas vezes durante a madrugada, por vários dias consecutivos.
Em relatos publicados nas redes sociais, Márvila denuncia que tem sido tratada de forma desumana: “Eu nunca tive convulsões antes, e agora passo por esse tipo de crise diariamente. Me recusam o direito ao meu próprio laudo, dizem que minha crise de cefaleia passou, mas eu sigo sentindo dores terríveis e perdendo a consciência. Estou sendo tratada como louca, como sempre fazem com corpos negros”, afirmou.
A artista também revelou que foi internada em um quarto localizado em frente a uma obra, o que gerava barulho incessante, agravando ainda mais seu estado. A falta de acesso ao laudo médico e a tentativa de desqualificar seu quadro como psiquiátrico são denunciadas como negligência e racismo estrutural na saúde. Após muita insistência, Márvila foi transferida para o Hospital São Luís, em Vila Velha. No entanto, ao chegar ao local, foi encaminhada diretamente para a ala psiquiátrica.
“Estou fisicamente acabada, estou cheia de dores na cabeça por conta das crises, perdi a consciência várias vezes, estou com meu psicológico destruído. Perdoem compartilhar tudo isso com vocês, mas eu jamais imaginaria que iria viver esse terror numa rede hospitalar tão ‘renomada’. Uma das vezes que eu desmaiei, enquanto me carregavam, fui recuperando a consciência e eu senti meu corpo sendo jogado na cama como se fosse um saco de lixo , eu estou em trauma”, relatou em uma das publicações.
Pedro Henrique Mareto, namorado da artista, relata a dificuldade de acesso às informações do prontuário médico. Segundo ele, a Unimed enviou os exames pelo WhatsApp, mas o acesso às informações está bloqueado por senha, que não foi fornecida. “Solicitei o laudo ao médico e ele disse que não podia nos dar acesso por se tratar de algo interno, o que não é verdade, pois é direito do paciente ter acesso ao seu próprio tratamento”, relatou.
Ele afirma que a família vai buscar apoio jurídico para processar a Unimed e garantir os direitos de Márvila como paciente. “Estão negligenciando o tratamento adequado para a cefaléia em salvas, causando danos morais e psicológicos a ela”, criticou.
Enquanto aguarda o atendimento de um psiquiatra, ela segue sofrendo novas crises de cefaleia em salvas e enfrentando condições precárias de atendimento, como expõe nas redes sociais. Ela enfatiza que sua situação evidencia um problema recorrente enfrentado por pessoas negras no sistema de saúde: a negação de suas dores e a tentativa de patologização de seu sofrimento.
Márvila é graduada em Fotografia pela Universidade Vila Velha e tem um trabalho voltado para exaltar a pele negra, recusando-se a utilizar técnicas tradicionais de luz e sombra desenvolvidas para peles brancas. Sua linha de pesquisa está focada na ancestralidade afro-brasileira, registrando histórias, cerimônias religiosas e retratos de pessoas negras.
Ela é fundadora dos projetos visuais Preta Cor, Meu Orixá e Kyanda e, no ano passado, deu início ao projeto internacional Conexões Afrodiaspóricas, na Suíça. Sua obra já foi exposta em diversas mostras pelo Brasil e sua fotografia é reconhecida como um importante instrumento de valorização da identidade negra e de resgate da história afro-brasileira.
Além de enfrentar uma doença grave e a negligência hospitalar, Márvila também precisa de apoio financeiro para sustentar sua mãe, que já sofreu três Acidente Vascular Cerebral (AVCs), e uma filha. Como a única provedora da família, a fotógrafa está impossibilitada de trabalhar e precisa da ajuda da comunidade para superar esse momento crítico. A contribuição é por meio da chave Pix 27 99865-5998.