Seculo

 

Emily Dickinson: a maior poetisa dos Estados Unidos


14/05/2017 às 13:24
A ESCRITORA EMILY DICKINSON
 
Emily Dickinson é uma das maiores escritoras do século XIX, uma das raras mulheres a praticar literatura com propriedade ainda naquele século, o qual só tinha como tradições literárias femininas ainda somente a literatura inglesa ou francesa, e Emily era norte-americana. Aqui fica o registro que a literatura feita por mulheres terá mais vulto na entrada do século XX, e não ainda no século XIX em que viveu Emily Dickinson.
Emily Dickinson, um verdadeiro fenômeno literário póstumo, teve uma biografia monótona e sem grandes acontecimentos, vivendo reclusa em uma afastada comunidade no interior da Nova Inglaterra, o que era um contraste com a sua vasta produção em poesia, e com um brilho intenso de originalidade e profundidade.
 
ATIVIDADE LITERÁRIA DE EMILY DICKINSON
 
Emily Dickinson foi contemporânea de Walt Whitman e da Guerra Civil norte-americana, e publicou em vida apenas menos de uma dezena de poemas sem assinatura, e que ainda sofreram modificações e edições à revelia da autora. Em vida a escritora só era conhecida na sua atividade literária por um pequeno círculo de amigos íntimos, como se sua atividade literária tivesse sido algo bem secreto, mas que na posteridade revelou uma das maiores poetisas de todos os tempos, sendo considerada a maior poetisa dos Estados Unidos e uma das maiores de língua inglesa.
A poesia de Emily Dickinson é marcada por uma independência formal em relação às regras poéticas de sua época, com liberdade sintática e pontuações originais, o que provocava ojeriza em alguns dos editores que se propuseram a publicar sua obra, tendo como resultado publicações mutiladas em relação aos originais deixados pela escritora.
O conteúdo da poesia de Emily Dickinson, por sua vez, revelam um romantismo, o tema da morte como recorrente, e também problemas mais gerais e universais da humanidade, contendo também poemas sobre a natureza.
 
A POSTERIDADE
 
Uma das razões de Emily Dickinson não publicar sua poesia era um reflexo da estranheza do contexto no qual a escritora estava inserida, num ato de rejeição da sociedade de sua época. Era uma ruptura que também representou o efeito de sua reclusão, de seu isolamento, contra a mentalidade estreita da burguesia norte-americana de sua época. Emily Dickinson, por fim, encarregou a sua irmã de queimar todos os seus textos após sua morte, no que a irmã rejeitou o pedido, e a importante produção de Emily Dickinson sobreviveu tanto ao seu isolamento quanto aos seus impulsos destrutivos, e sua irmã atuou para salvar a obra toda do fogo, e nos demos bem, e a literatura sobretudo.
 
ASPECTOS BIOGRÁFICOS
 
Emily Dickinson nasceu em dezembro de 1830, no vilarejo de Amherst, em Massachusetts, na região da Nova Inglaterra, região Nordeste da costa norte-americana, e era a mais velha dos três filhos do advogado Edward Dickinson, este que trabalhou por cerca de 40 anos como tesoureiro do tradicional Amherst College, além de ter sido um destacado político local, tendo sido deputado estadual.
Amherst, localizada na região do vale do Rio Connecticut, era na época em que viveu Emily Dickinson uma vila isolada, local em que a poetisa morou por quase toda a sua vida, em reclusão. Por sua vez, o pai de Emily colocou seus três filhos para ter uma educação excepcional para os padrões norte-americanos de então, incluindo estudos que iam da literatura e filosofia clássicas, latim, como também botânica, geologia, história e aritmética, possibilitando a Emily uma sólida base intelectual, na qual ela foi capaz de criar na sua atividade literária uma obra com profundidade e extensão crítica.
 
POEMAS:
 
(obs: a escritora não colocava títulos em seus poemas, no que aqui uso a convenção de apenas numerá-los)
 
POEMA I : O poema é um dos de Emily sobre a natureza que a cerca, com base prosaica ela capta o extraordinário, no que temos: “Bem pouco a fazer tem o pasto:/Reino de irrestrito verde,/Só tem borboletas para criar,”. Os sentidos entram aqui no jogo: “E ondular o dia inteiro aos sons/Que a brisa consigo arrasta;”. E o clima ganha aromas, os nardos entram no ambiente aqui pacato e pacífico: “E acabar-se, ao fenecer,/Por entre aromas divinais/De especiarias dormidas/Ou de agonizantes nardos –“ (...). E volta o pasto, onde finda o poema num grande abraço preguiçoso, com o sonho escoando o tempo: “E, pelo sonho, levar a escoar-se o tempo;/Bem pouco a fazer tem o pasto,”.
 
POEMA II : Um dos poemas clássicos de Emily Dickinson, a messe se faz presença, o trigo e sua estação faz o poema nutrir-se, os versos surgem: “Há certo mês de junho em que se corta o trigo/E as rosas na semente –/É um verão mais breve que o primeiro,/Porém mais suave, certamente,”. O verão dos justos dá ao poema abertura, mas a geada também vem, e o poema contrasta para findar: “Há duas estações, dizem –/O verão dos justos/E este nosso, diferenciado,/De esperanças feito, e de geadas.”.
 
POEMA III : Este poema brevíssimo é de uma beleza estonteante, a púrpura vai ao poente de um sol que convida ao verso, âmbar e berilo dançam nestes sons, o poema é uma pintura natural, e Emily Dickinson é uma observadora privilegiada em seu refúgio pacato em que ela cria tais pérolas como este poema: “Púrpura –/A cor das rainhas é esta –/A cor de um sol, no poente;/Ainda, além dessa, o âmbar;/E o berilo – se o dia vai a meio./Mas quando à noite amplidões de aurora/Atingem de súbito os homens –/Essa cor, e o feitiço. A Natureza, porém,/Reserva ainda um lugar para os cristais de iodo.”.
 
POEMA IV : O poema vai do outono em poesia para uma visão prosaica de que também se faz a poesia, no que temos: “Além do outono, os poetas cantam/Uns poucos dias prosaicos,”. A rarefação das coisas do poema o tornam esguio e quieto, o rumor do regato também aqui silencia, sossega, no que temos: “Poucas manhãs incisivas –/Noites ascéticas, poucas” (...) “Aquietou-se o rumor no regato,”. E os dedos tateiam hipnóticos, com visões mitológicas, e o poema clama por uma mente forte e solar, na qual todo o tormento divino seja objeto de uma poesia que resiste firme em seu lugar de expressão: “Dedos mesméricos tocam suaves/Os olhos de muitos elfos.” (...) “Dá-me, Senhor, uma ensolarada mente/Para suportar Teu desejo tormentoso!”.
 
POEMA V : Outro poema breve de Emily Dickinson, que vai dos diamantes e percorre seu pequeno trecho de diademas, e o cultivo para venda, em que o poema se abre em dia estival, numa obra que já teve mecenas, numa poesia que foi rainha e depois borboleta: “Quando os diamantes são mito/E os diademas, uma lenda,/Broches e brincos semeio/E cultivo para venda./E embora meu parco renome,/Minha obra – um dia estival – já teve mecenas:/Primeiro, foi uma rainha;/Depois, uma borboleta.”.
 
POEMA VI : O poema de Emily Dickinson aqui ganha o retrato do que é uma mente poética, tabernáculo de pássaros, uma entidade incorpórea, de lares etéreos, no que temos um poema que finda com clarins para visões de reinos insondáveis, numa intuição solar e livre de amarras: “Não me fales de árvores estivais/A folhagem da mente/É tabernáculo de pássaros/De espécie incorpórea/E ventos à tarde nesse rumo sopram/Em busca de seus lares etéreos/Onde clarins convocam o mais humilde ser/Para indescritíveis reinos.”.
 
POEMAS:
 
POEMA I
 
Bem pouco a fazer tem o pasto:
Reino de irrestrito verde,
Só tem borboletas para criar,
E abelhas para entreter –
 
E ondular o dia inteiro aos sons
Que a brisa consigo arrasta;
Cumprimentar a todas as coisas
E embalar, ao colo, a luz solar –
 
Fazer com rocio, à noite, colares de pérola,
Compostos com tal requinte,
Que uma fidalga não saberia
Perceber a diferença –
 
E acabar-se, ao fenecer,
Por entre aromas divinais
De especiarias dormidas
Ou de agonizantes nardos –
 
Quedar-se, por fim, em nobres celeiros
E, pelo sonho, levar a escoar-se o tempo;
Bem pouco a fazer tem o pasto,
Feno eu quisera ser –
 
POEMA II
 
Há certo mês de junho em que se corta o trigo
E as rosas na semente –
É um verão mais breve que o primeiro,
Porém mais suave, certamente,
 
Como se um rosto, dado por sepulto,
Na erma tarde emergisse
E em refulgências envolto
Nos afetasse e partisse.
 
Há duas estações, dizem –
O verão dos justos
E este nosso, diferenciado,
De esperanças feito, e de geadas.
 
Não podíamos o nosso ao primeiro
De tal modo justapor
Que um deles relembrássemos
Tão-só para escolher o outro?
 
POEMA III
 
Púrpura –
A cor das rainhas é esta –
A cor de um sol, no poente;
Ainda, além dessa, o âmbar;
E o berilo – se o dia vai a meio.
 
Mas quando à noite amplidões de aurora
Atingem de súbito os homens –
Essa cor, e o feitiço. A Natureza, porém,
Reserva ainda um lugar para os cristais de iodo.
 
POEMA IV
 
Além do outono, os poetas cantam
Uns poucos dias prosaicos,
Um tanto este lado da neve
E, da neblina, o outro lado –
 
Poucas manhãs incisivas –
Noites ascéticas, poucas –
Terminaram-se as dálias de Mr.Bryant –
E as medas de Mr.Thomson.
 
Aquietou-se o rumor no regato,
Fechadas estão as vagens-de-cheiro;
Dedos mesméricos tocam suaves
Os olhos de muitos elfos.
 
Talvez permaneça um esquilo,
Com quem partilhe minhas aflições –
Dá-me, Senhor, uma ensolarada mente
Para suportar Teu desejo tormentoso!
 
POEMA V
 
Quando os diamantes são mito
E os diademas, uma lenda,
Broches e brincos semeio
E cultivo para venda.
 
E embora meu parco renome,
Minha obra – um dia estival – já teve mecenas:
Primeiro, foi uma rainha;
Depois, uma borboleta.
 
POEMA VI
 
Não me fales de árvores estivais
A folhagem da mente
É tabernáculo de pássaros
De espécie incorpórea
E ventos à tarde nesse rumo sopram
Em busca de seus lares etéreos
Onde clarins convocam o mais humilde ser
Para indescritíveis reinos.
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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