Livro: período Estados Unidos

Era um sonho antigo trabalhar nos Estados Unidos com o que eu gosto de fazer

Foi um divisor de águas na minha vida. Havia uma promessa de trabalho na Voz da America, setor brasileiro em Washington D.C. Aliás, era um sonho antigo trabalhar nos Estados Unidos exercendo o que eu gosto de fazer e sendo pago em dólares. Mas nem tudo acontece como o planejado. Fui com a família. Aportei em Los Angeles. 

Só que, enquanto eu esperava o chamado de Washington, o país entrava na Guerra do Golfo e o governo federal parou todas as atividades contratuais nos órgãos federais.

Após um ano, o próprio governo americano pediu para que eu fizesse uma prova para a Voice Of America. Fiz e passei. Mas a convocação demorou mais um ano e, nesse ínterim, o serviço brasileiro na VOA foi fechado por motivos administrativos, ou seja, eles não queriam falar para América do sul, se restringiram a Cuba. 

Daí fui para New York, onde passei mais dois anos. Antes do Brazilian Branch fechar, fui várias vezes a Washigton e, com a permissão deles, consegui desenvolver algum trabalho interno na VOA. Quando isso acontecia, executava o que faria como funcionário. Traduzia do inglês para o português e gravava. Tudo sozinho, sem operador, sem editor.

Quando vivi com minha família nesses dois lugares, Los Angeles e New York, ouvia muitas emissoras de rádio, visitava outras, conversava com o pessoal, participava e etc. O rádio é mais pulsante em Los Angeles do que em New York.

A familia de Mônica foi fundamental para que pudéssemos ter firmeza de enfrentar todo esse período em terras americanas.

Em Los Angeles teve um período em que me empreguei na Pizza Hunt e, com isso, aprendi muito sobre cidadania, compromisso e contato com o povo americano. Foi lá que aprendi que “o seu direito termina quando começa o do outro”.

ALGUMAS PASSAGENS POR LÁ

Trick Harris

Enquanto dirigia no trânsito louco de Los Angeles entregando pizza, ficava ouvindo a KCSN 88.5 FM, especializada em músicas Adult Contemporary. Às 16 horas, ela sorteava dinheiro para quem soubesse dizer qual a música que tocou em um determinado horário, mais cedo. Quando sabia eu ligava, mas outros já tinham matado a charada primeiro. 

Um dia descobri que Harris morava na minha área de atuação. Fui até a casa dele com uma pizza grátis de presente. Ele me recebeu solicitamente e ainda me deu uma camisa da emissora, além, lógico, de trocarmos ideia. 

O caminho da Pepsi

Toda quinta pela manhã, havia entrega de suprimento para a pizza Hut. Quem trazia era um caminhão truck, com massa de pizza, queijos, bebidas e etc. Era eu quem o recebia. Seu motorista, de nome Tony, era de origem mexicana. A gente conversava bastante enquanto descarregava.

Quando a gente se cruzava no trânsito, ele buzinava forte ao passar por mim. Eu gostava daquilo. Parecia que já era do lugar.

Dayse

Dayse era uma colombiana baixinha, responsável pela salada servida no lunch time da pizzaria. Falava demais. Um dia pensei em pregar uma peça nela. Peguei um retrato meu, daqueles que a gente tira no Studio Universal, onde aparece a cara e o nome numa revista famosa, e levei cedo para a pizzaria. 

Neste horário só estava Quino, um pizzarolo mexicano, preparando as pizzas do dia. Cheguei, peguei uma escada sem ele ver, tirei um dos quadros da parede (a decoração era de quadros com artistas de cinema), arranquei o artista e coloquei meu retrato. Subi e coloquei na parede sem Quino ver. A localização do quadro ficava onde era formada uma fila diária no horário do lunch time, tipo meio-dia.

Tinha saído para um “delivery”. Quando voltei estavam todos agitados comigo. Um dos fregueses, na hora de pagar, virou-se para Dayse no caixa e disse: “JA VI AQUELE ALI POR AQUI!”, apontando para o quadro em que eu estava. Dayse se afastou, abaixou um pouco para ver quem era. Levou um susto quando viu meu retrato lá. 

Vim embora para o Brasil e a Pizza Hut da Sepúlveda (PCH) ainda ficou cinco anos no local ate ser destruída. Mas o meu retrato ficou lá até ela fechar. Os funcionários preservaram, não quiseram tirar.

Carros

Entregar pizza (que nunca me envergonhou) me deu a felicidade de morar em apartamento com três quartos e ter dois carros. Eram dois fuscas cabriolet, sendo um deles conversível. As crianças estudavam à tarde e sempre tinham uma pizza de lanche.

Reconhecimento

Ao sair da Pizza Hut, esta me deu uma carta de recomendação. Embora solicitada por mim, não é praxe este tipo de ação, principalmente com estrangeiros.

 “Tenho potencialidades mas não sou próspero.
  POTENCIALIDADE NÃO É PROSPERIDADE!”
                                                                                                                                                Peter Drucker


Próximo capítulo: 14 – De volta ao Brasil.

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