ONG Raízes da Piedade critica política de segurança do Estado

Em tom de tristeza, entidade lamenta falta de diálogo da Secretaria de Segurança com moradores

O Instituto Raízes da Piedade divulgou uma nota em que faz duras críticas à política de segurança do governo do Estado. Mais uma vez, há uma enorme rejeição dos movimentos sociais à falta de diálogo dos gestores públicos estaduais, em especial, o secretário da pasta (Sesp), Nylton Rodrigues, que, de costume, comunica suas ações definidas em gabinete à imprensa num tom midiático e nada democrático. Nessa semana, o secretário, por exemplo, anunciou que iniciará as obras de reforma da casa que abrigará a base policial da comunidade. 

“Finalmente a base policial no Morro da Piedade foi anunciada hoje (13/9) às comunidades. Sem ouvir os anseios dos moradores, a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Espírito definiu o local de instalação do equipamento. Ao contrário da PMV [Prefeitura Municipal de Vitória], a Sesp não dialogou com nenhum representante da comunidade ou do Raízes de forma ampliada”, diz a nota.

Segundo informações do Instituto, desde março deste ano, a onda de violência na comunidade foi intensificada e o trágico resultado foram quatro brutais assassinatos e a evasão de 40 famílias, no total, mais de 180 pessoas deixando suas casas.

“De lá pra cá, menos de 10 famílias retornaram aos seus lares. Outras 26 famílias, com apoio do Raízes, acionaram a Defensoria Pública para requerer o direito fundamental de moradia, pela falta de condição de retornar à Piedade e de não terem recursos financeiros para pagar aluguel. Quem ficou no morro, se pudesse, já tinha saído. E tem mais, a Polícia, agora, fica com uma viatura e dois policiais diariamente parados na base (viatura), diferente do prometido pela Sesp, gerando apreensão e sensação de insegurança de moradores que moram nas principais zonas de conflitos”, diz ainda o texto.

Comunidade traumatizada

A nota do Instituto Raízes confirma que o medo ainda rodeia os moradores e as ações que a ONG realiza. Neste mês, foi realizado um evento na Casa da Memória, que incluiu feijoada com samba, oficina de jardinagem, torneio de futebol e cineclube. Foi a primeira vez que a Casa da Memória abriu ao público depois de um assassinato ocorrido a poucos metros da entidade. 

“Embora o esforço coletivo da própria comunidade e de outras instituições para superação do terror, não se tem sentido a normalidade de volta, como afirma a Sesp, principalmente com a ausência de diálogo e informações. Em julho, enviamos um ofício à Sesp com a decisão dos moradores, que teve a presença de mais de 100 pessoas que indicavam a instalação da base no alto do Morro, até hoje não tivemos respostas. A nossa segurança é construída por ações que fortaleçam a educação, a saúde, o esporte e o lazer (como uma reestruturação do campo Benjamin Mathias) e não somente com base de policiamento imóvel”. 

E completa: A sensação triste é "de que é melhor ali, do que nada". Não somos contrários à base ou qualquer ação que beneficie à comunidade e aos seus moradores, mas sim ao processo de definição de sua instalação”, finaliza a nota.

Neste ano, quatro jovens foram assassinados no morro, incluindo os irmãos Damião, 22 anos, e Ruan, 20, crimes que alcançaram grande repercussão no final de março. Em junho, Walace de Jesus Santana, 26 anos, foi assassinado próximo ao projeto social Raízes da Piedade, cancelando uma festa junina prevista. Além do assassinato, os criminosos invadiram a casa da mãe do jovem, onde também morava sua avó de 93 anos, e colocaram fogo nos cômodos. Além dos três jovens, Lucas Teixeira Verli, de 19 anos, por sua vez, foi assassinado no dia 28 de maio. 

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