A ideologia do gigantismo aprisiona o futuro do ES numa pequeneza anacrônica

Nova expansão do deserto verde mostra como as elites capixabas enxergam apenas o PIB e não a realidade

A ideologia do gigantismo é provavelmente o que melhor explica a incapacidade das elites políticas capixabas de se entusiasmarem e apoiarem modelos de desenvolvimento realmente inovadores e geradores de riqueza e justiça social e não apenas de Produto Interno Bruto (PIB). 

A hipótese foi levantada pelo economista Arlindo Villaschi ao falar a este Século Diário sobre as possíveis razões pelas quais o Executivo, o Legislativo e a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) insistem em apoiar, em pleno século XXI, mais uma expansão dos monocultivos de eucalipto no território capixaba, desta vez, para abastecer uma fábrica de papel higiênico a ser instalada em Cachoeiro de Itapemirim, no sul do Estado, com recursos estornados por meio de uma manobra legal engendrada no ano passado com objetivo de beneficiar diretamente a Suzano (ex-Fibria, ex-Aracruz Celulose)

Com todo um lastro de destruição ambiental e social no norte e noroeste do Estado, ainda em pleno curso; com o mal exemplo das monoculturas de eucalipto de Portugal e seus incêndios constantes; com as mostras de exaustão hídrica no próprio sul capixaba; com a já tão conhecida matemática que mostra serem as pequenas – propriedades rurais e empresas – as provedoras principais do emprego e da renda (e, no caso da agricultura, de 70% do alimento que chega à mesa das famílias no campo e na cidade) que de fato geram saúde e justiça social; com tantas evidências reais e vivas da supremacia do pequeno empreendimento (muitas das vezes familiar) sobre o grande negócio (via de regra com capital estrangeiro e sem qualquer empatia/compromisso com a realidade local) ... como é possível insistir no gigantismo anacrônico, que já mostrou sua insustentabilidade intrínseca e irreversível? Cegueira? Algum tipo de cegueira não diretamente romanceada pelo célebre escritor de língua portuguesa José Saramago?

“Essa cegueira que você fala é o componente ideológico que define como você se coloca no mundo. Há quem se coloque no mundo encantado com essas coisas grandes, grandes empreendimentos”, pondera o economista, citando um exemplo italiano. Lá, enquanto o sul apostou nas “grandes locomotivas” que puxariam o desenvolvimento regional, seguindo antigas teorias econômicas, o norte investiu em pequenas e médias empresas, que produziram muito mais progresso. “Mas alguns aqui na periferia intelectual continuam achando que essas são as repostas”, lamenta. 

Periferia intelectual que não consegue olhar sequer para o lado, critica o professor. “A Federação [Findes] permanece nessa apologia dos grandes empreendimentos, que sequer dá muita importância a ela. Quem dialoga com a classe empresarial do ES são o terceiro e quarto escalão dessas empresas”, alfineta. 

Agricultura familiar

“Eu confesso que ficaria muito feliz se visse o mesmo tipo de entusiasmo [que se vê sobre os grandes projetos] voltado aos pequenos agricultores familiares. O MPA [Movimento dos Pequenos Agricultores] tem um trabalho fantástico com agroecologia, que é sim portador de futuro, gera muitos postos de trabalho”, provoca, com um exemplo do meio rural, onde a Suzano se prepara para estender ainda mais seus tentáculos. No entanto, o apoio do Estado a eles, sublinha o acadêmico, seja em assistência técnica ou financeira, é incipiente, principalmente se comparado aos benefícios concedidos aos grandes latifúndios do agronegócio. 

Há muitos anos, recorda, numa tentativa de sensibilizar o Banco de Desenvolvimento do Estado do Espírito Santo (Bandes) a apoiar as micro, pequenas e médias, Arlindo diz que percebeu ser aparentemente mais trabalhoso dedicar-se a elas do que às grandes. “A análise é mais trabalhosa, o cadastro também, são empresas muitas vezes familiares, com uma série de contingências. Mas tem que apostar nisso, criar mecanismos, envolver instituições, como IEL, Ideies, Sebrae, ao invés de ficar fazendo apologia às gigantes e às empresas que fornecem para elas, que integram a cadeia produtiva delas”, ensina. “Do ponto de vista de inclusão social, geração de postos de trabalho e distribuição de renda, é óbvio que as micro e pequenas são mais eficientes”, aduz. 

Arlindo Villaschi afirma que é preciso “incentivar essa meninada que sai das universidades, com mestrado e doutorado, a ficar no Estado e desenvolver atividades próprias. Mas fornecendo pra essas grandes empresas? Não! Podem desenvolver trabalhos muito interessantes pra esse universo de micro, pequenas e médias empresas. Pernambuco fez isso com polo digital e há muitos outros casos de sucesso”, argumenta. 

Raciocínio semelhante nos traz o também professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), no departamento de História, Ueber José de Oliveira, cuja tese de doutorado em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) resultou no livro Elites Capixabas no Golpe de 64 – o Bipartidarismo e a convergência de agendas desenvolvimentistas (1964-1982), lançado em meados de 2019.

Muletas

“O interesse econômico se sobrepõe às outras coisas. [As elites políticas e econômicas] olham para o PIB, mas não olham para as demandas de saúde e educação, que o poder público tem que arcar. Esses projetos econômicos geraram um êxodo rural brutal. O Espírito Santo era 80% rural até a década de 1960. Em vinte anos, inverteu, aumentando as demandas por escolas, creches, saúde, infraestrutura, saneamento, moradia. E quem arca com isso é o Estado”, afirma Ueber Oliveira.

A urbanização acelerada se deu principalmente após a criação da “segunda muleta” econômica, pelo ex-governador, ex-presidente da Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST) e ex-presidente da ONG ES Em Ação, Arthur Carlos Gerhardt Santos, hoje com 91 anos. 

Segunda muleta porque a primeira muleta foi a Vale, que iniciou a industrialização no Estado, incentivando pequenas indústrias incipientes na época. Mas mesmo com a mineradora e o Fundap, aprovado em 1970, a economia capixaba passava por penúria, ainda cambaleando da erradicação do café, que exterminou 52% dos cafezais menos produtivos. 

“O café capixaba não era deficitário, era de baixa produtividade, não tinha como gerar capital como em São Paulo e Paraná. Aqui era muito predatório, derrubava-se a mata e plantava-se o café sem técnica. O solo então degradava, virava pasto”, descreve o historiador, referindo-se ao ciclo mata-café-pasto. “Num dado momento isso se esgotou, chegou no limite, não tinha mais mata pra derrubar”, relata. 

Sem poupança/capital para investir, a segunda muleta dos grandes empreendimentos, apresentada por Arthur Gerhardt foi ovacionada pelas elites, que tinham uma visão positiva do Golpe de 64: indústria paraquímica (Aracruz Celulose) e siderúrgica (CST e porto). Outros projetos não foram à frente, sendo atraídos pelo Rio de Janeiro e Bahia, como o estaleiro de reparos que se pretendia instalar em Camburi. 

Desautonomia relativa

Desde então, passados cinquenta anos, nada mudou na economia capixaba. Café e grandes projetos industriais continuam sendo muletas arcaicas a sustentar a degradação ambiental, a desigualdade social e, um pouco menos conhecida, a “desautonomia relativa”, como bem conceituou Antonio Carlos de Medeiros, em sua dissertação de Mestrado defendida em 1977. 

“As elites capixabas perderam parcialmente o controle da agenda político-econômica, hoje controlada pelas empresas vinculadas aos grandes projetos e capital estrangeiro”, explica Ueber, em referência ao trabalho de Antonio Carlos de Medeiros. “E o homem desse capital estrangeiro atualmente ainda é Paulo Hartung”, afirma. 

“Paulo Hartung assume o governo em 2003 como o homem pra retomar a ética e o progresso econômico. É alçado ao poder por meio da ong ES Em Ação e Arthur Gerhardt”, ressalta o acadêmico. O objetivo? Implementar a velha agenda dos grandes empreendimentos industriais, da ES Em Ação. 

De fato, mesmo fora do Palácio Anchieta e mesmo do dia a dia da política capixaba, que trocou pela “assessoria” ao potencial candidato à presidência da República Luciano Huck, Paulo Hartung é o garoto-propaganda da silvicultura, no papel de presidente da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), associação que reúne 70 empresas do setor. 

Sua mais recente aparição nacional na defesa dos monocultivos de eucalipto foi em artigo no Estadão na última terça-feira (7) intitulado A hora da bioeconomia. Depois de uma introdução exaltando os novos tempos na economia mundial e as maravilhas da biotecnologia e bioenergia, com exemplos brilhantes que conheceu pessoalmente na Europa, Paulo Hartung diz que “o setor florestal nacional é referência em árvores cultivadas para fins industriais e seus resíduos têm alto valor. A economia circular já faz parte do processo produtivo dessa indústria. Tocos de árvores, galhos e outros resíduos são utilizados para gerar energia, por exemplo. Na indústria de papel a reciclagem é muito forte”, discursa, usando, ao que parece, os melhores argumentos em favor do deserto verde. Depois disso, nem é preciso dizer mais nada.  
 

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