Agrotóxicos aplicados no ES em um ano matariam a população capixaba onze vezes

Edegar Formentini baseou-se em dados do Fesciat, que mostram consumo de 8 mil toneladas/ano de venenos

Durante o primeiro semestre de 2018, foram comercializados quatro milhões de quilos de agrotóxicos (ou 1,94 milhão kg de princípios ativos) no Espírito Santo. Considerando um consumo similar também no segundo semestre, temos, em um ano, o montante estimado de oito mil toneladas de venenos agrícolas, o que é equivalente para matar, por intoxicação aguda, 44.163.348 pessoas ou, 11,46 vezes a população capixaba. 

A estimativa é do engenheiro agrônomo Edegar Formentini, com base em dados do Fórum Espírito-Santense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos (FESCIAT), sistematizados a partir da ficha semestral de agrotóxicos do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal (Idaf), formada a partir das receitas de agrotóxicos vendidos nas lojas especializadas enviadas semestralmente ao Idaf. 

Representante da Associação dos Servidores do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Assin) na Comissão de Saúde e Meio Ambiente do Fórum, Edegar explica que, a partir dos dados do Fesciat, foi realizado um trabalho de cálculo do potencial da toxicidade aguda dos 30 princípios ativos mais comercializados no Espírito Santo, a partir de informações sobre a dose letal média (DL50) dos respectivos princípios ativos disponível na literatura científica, e considerando o peso médio da população capixaba em 70 kg. 

“A DL50 mata 50 % dos indivíduos submetidos a ela. No grupo sempre existem indivíduos que só morrem ao se submeterem a dosagens significativamente maiores, mas há outros indivíduos que morrem ao se submeterem a dosagens significativamente menores, portanto a quantidade a mais de produto que alguns indivíduos exigem sobrou noutros”, esmiúça.

A população só não está sendo dizimada de fato por essas mais de oito mil toneladas de venenos porque nem toda ela chega a ser diretamente consumida pelas pessoas. “Uma parte fica nos alimentos, outra vai para a água, outra fica retida no solo e outra se degrada”, explica o agrônomo. 

Cada princípio ativo, explana, tem uma velocidade própria para se degradar no meio ambiente. “O solo tem capacidade de absorver uma quantidade de segurar a partícula do agrotóxico na própria argila. Em outros, a argila não segura e ele vai parar na água”, compara. 

A argila, diz, “tem cargas negativas na estrutura dela que se ligam às cargas positivas dos agrotóxicos, que ficam presos. Em alguns solos, a própria luz degrada a partícula, ou os microrganismos a degradam”, conta. 

Há diferenças também nos produtos. Alguns são mais estáveis, como o DDT, que permanece no solo por até 30 anos. E a ciência ainda não consegue ter precisão absoluta sobre esses números, pois há bulas que indicam meia-vida (tempo de degradação no ambiente) de seis dias, sendo que, na prática, é possível perceber sua permanência por meses, relata o pesquisador. 

No estudo, Edegar lista os trinta venenos mais usados no Estado e informa a fonte que usou para calcular o poder letal de cada um. Os primeiros 15 venenos do ranking são: glifosato;  2,4-D; mancozeb; clorpirifós; Xilol; flutriafol; glifosato potássico; dicloreto de paraquat; glifosato-sal de potássio; tiofanato-metílico; paraquate; diurom; e clorotalonil

O estudo ainda vai ser apresentado ao Fórum, onde, espera Edegar, colabore para que medidas de segurança, controle e fiscalização sejam tomadas de forma mais enérgica pelos órgãos oficiais e entidades de classe. “Tem que ter um cuidado especial porque não é pouca coisa, é muita, e mata”.

Bacias hidrográficas 

Apesar das diferentes formas de dispersão, degradação e persistência no ambiente, Edegar enfatiza: “não é pouco agrotóxico que se joga no Espírito Santo”. Além disso, certamente o volume real é maior do que o registrado pelo Idaf e sistematizado pelo Fesciat, porque há muitos relatos de comercialização clandestina. 

Essa realidade oculta ficou mais expressiva no sul do Estado, onde alguns municípios simplesmente não registraram sequer uma única venda de agrotóxicos - Muqui, Atílio Vivacqua, Jerônimo Monteiro, Vargem Alta e Itapemirim - e outros, como Rio Novo do Sul, mostraram números oficiais muito aquém da realidade agrícola similar de seus vizinhos , indicando muito possivelmente uma subnotificação significativa. 

O glifosato é usado em todas as bacias hidrográficas capixabas, sendo que no sul, a supremacia do agrotóxico da Monsanto é ainda mais gritante, representado 54% do total. Já no norte – bacias dos rios Cricaré, Barra Seca e Itaúnas - chama atenção o elevado consumo de paraquat, produto que, tamanha toxidade comprovada, já teve seu fim declarado no Brasil para setembro deste ano. 

Na Bacia do Rio Doce, um dado alarmante é que, entre os oito mais utilizados, três – glifosato, 2,4D e Mancozeb – não são analisados pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) desde 2014, quanto aos resíduos que permanecem na água potável servida à população 

Já na Bacias dos Rios Jucu e Santa Maria da Vitória, os mesmos três perigosíssimos venenos, não analisados pela Sesa, correspondem a mais de 70% dos registros.  

No contexto geral do Estado, considerando os agrotóxicos já banidos recentemente na União Europeia devido à sua letalidade contra as abelhas, insetos considerados essenciais para a sustentabilidade da agricultura e biodiversidade das florestas, três deles – Fipronil, Tiametoxan e Imidicloprid ou Imidacloprido – estão entre os mais consumidos pelo agronegócio capixaba, especialmente nas monoculturas de eucalipto, cana-de-açúcar, pastagem e café.  

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