Assassinato do Padre Gabriel completa 30 anos sem esclarecimento

Religioso francês atuava junto a comunidades periféricas e foi executado em 1989 em Cariacica

Padre francês que atuou por nove anos em comunidades empobrecidas nas periferias da Grande Vitória, Gabriel Maire foi assassinado há exatos 30 anos, no dia 23 de dezembro de 1989. Três décadas depois, o crime não foi considerado esclarecido e já prescreveu, mas a memória de Padre Gabriel segue muito viva, por sua dedicação à Igreja e aos menos favorecidos socialmente, tendo ajudado a mobilizar e organizar o povo em sua luta por direitos.

Sua morte foi lembrada com um tríduo, três dias consecutivos de celebração. No dia 21 de dezembro o local foi o bairro Castelo Branco, em Cariacica, onde o padre rezou sua última missa, um matrimônio. Uma testemunha relatou que homens num carro teriam perguntado: "Este é o Padre Gabriel?". Dali teria sido perseguido e interceptado no areal de Vale Encantado, em Vila Velha, onde segundo peritos teria recebido uma coronhada na cabeça e um tiro no peito, que não o matou imediatamente. Ali foi realizado o segundo ato de memória, nesse último domingo (21).

Em Cobi de Cima, também em Vila Velha, os assassinos abandonaram Padre Gabriel baleado em seu Fusca. No local de morte, se reúnem todos os anos no dia 23 de dezembro amigos, companheiros e outros admiradores de Gabriel, para fazer-lhe tributo e lembrar das lições deixadas por ele. 

"Celebrar a memória do Padre Gabriel é muito mais do que fazer memória a alguém que morreu. É reforçar em nós a semente de esperança e a força de lutar por um mundo melhor. Gabriel foi martirizado porque defendia o direitos dos pequenos e temos que continuar essa luta hoje", declara Jovanir Poleze, do grupo Ecos de Gaby, que cuida da memória do padre.

Na atividade do ano passado, marcando o início das celebrações em torno dos 30 anos de martírio do religioso, foi pintado em Cobi de Cima um mural de autoria de Luiz Quintanilha com figuras de mártires: além de Padre Gabriel, estão a vereadora carioca Marielle Franco, o ambientalista capixaba Paulo César Vinha, o juiz Alexandre Martins Filho e a Irmã Cleusa, capixaba assassinada no Amazonas. Em comum, todos lutaram por justiça e foram mortos por conta de sua atuação política. 

Por conta dos 30 anos da morte de Gabriel Maire, uma comitiva francesa composta por três clérigos e três leigos está presente no Espírito Santo, visitando os locais de atuação do padre e também outros pontos de interesse no Estado.

Jovanir conta que os últimos dias têm sido emocionante para visitantes e anfitriões. "Eles repetem todos os dias que têm vivido fortes emoções e conhecido mais ainda o Padre Gabriel. Um dos padres da comitiva disse: 'cada vez mais tenho certeza de que a França está com o corpo de Gabriel mas o coração dele permanece aqui", conta.

Os franceses seguem por mais alguns poucos dias no Brasil, encerrando o ciclo de homenagens ao padre assassinado. Depois, as homenagens seguem no dia cinco de janeiro na França, mais especificamente no departamento de Jura, onde Gabriel Maire nasceu e atuou, em ato que vai contar com presença de uma comitiva do Espírito Santo.

Nos tempos atuais, lembrar do padre e sua atuação ajudam a refletir sobre o papel da Igreja na sociedade. "Ele defendia os pequenos pela força do Evangelho, que era o que o motivava para isso. A palavra de Deus pode ser tanto usada para um lado tradicionalista como para uma visão de Jesus Cristo que entendemos como verdadeira, que nos leva à ação. Lembrar o martírio é celebrar o desejo de continuar viva nossa sede por justiça e igualdade social", considera Jovanir.

O assassinato de Padre Gabriel foi inicialmente classificado pela Justiça como latrocínio, roubo seguido de morte, o que nunca convenceu as pessoas mais próximas, que sabiam que a atuação do sacerdote em apoio às lutas sociais incomodava a muitos poderosos, tendo ele recebido várias ameaças de morte. O caso do crime chegou a ser reaberto em 2007, mas prescreveu sem encontrar uma solução que esclarecesse o acontecido e apontasse os mandantes do crime.

Fotos: Arquivo Ecos de Gaby e Elaine Dalgobbo

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