Atingidos ocupam trilhos da Vale em Colatina

Artesãs, areeiros e lavadeiras, e muitos pescadores, ainda não receberam qualquer indenização ou auxílio

Mais de 200 atingidos pelo crime da Samarco/Vale-BHP ocuparam, na madrugada desta terça-feira (2), os trilhos da Estrada de Ferro Vitoria-Minas (EFVM) da mineradora Vale, na altura do bairro Maria Ortiz, em Colatina, no centro-oeste capixaba, em protesto contra a total falta de atendimento a seus direitos, passados mais de três anos do rompimento da barragem de Fundão, o maior crime ambiental do país.

Entre os manifestantes, estão pescadores profissionais e “de barranco” (sem carteira profissional) que ainda não receberam qualquer indenização ou auxílio financeiro da Fundação Renova, além de artesãs, areeiros e lavadeiras, categorias ainda não incluídas em nenhum dos programas da entidade, responsável pela execução das ações de compensação e recuperação dos danos socioambientais advindos do crime.

As artesãs já foram reconhecidas pelo Comitê Interfederativo (CIF), instância criada para fiscalizar a Renova, mas ainda não foram cadastradas nos programas.

Até o início da noite, os manifestantes mantinham-se firmes em passar a noite no local, em barracas e estruturas montadas com esse objetivo, até serem recebidos por representantes da Fundação ou das empresas, apesar de boatos de que a justiça já teria concedido liminar para desocupação da área.

“A gente só vai arredar o pé quando a Vale, Fundação Renova e Samarco entrarem num acordo com a gente”, declarou uma das manifestantes, a artesã de Baixo Guandu Teresinha Guez, a Tetê Arte. 

A ocupação paralisou durante todo o dia a passagem do trem. “Tiveram que colocar os passageiros em oito ônibus pra levar de Baixo Guandu até Vitória”, informa Teresinha.

“O que queremos é receber nosso retroativo, cartão emergencial, e que eles reconheçam que nós somos todos impactados”, afirma. Artesãs de Baixo Guandu como Teresinha tiravam seu sustento do Rio Doce, trabalhando com argila, escama de peixe, pedra e areia. “Minha renda toda vinha do Rio Doce. Tenho 65 anos a minha profissão a vida toda foi artesã”, diz.

Esta foi a segunda ocupação da Vale por atingidos nesta primeira semana de julho, tendo a primeira ocorrido na segunda-feira (1) no portão da mineradora em Carapina/Serra, na Grande Vitória.

“É um movimento muito plural, que demonstra insatisfação dos atingidos no processo reparatório como um todo”, comenta o defensor público estadual Rafael Mello Portella Campos, membro da equipe que atende aos atingidos no Espírito Santo.

A Defensoria (DPE-ES) faz um acompanhamento da situação das artesãs de Baixo Guandu desde 2018, realizando atendimentos mensais para mapear o artesanato do município, bem como os areeiros e lavadeiras, e garantir os direitos dos atingidos. “Estamos levantando informações de campo pra definir as medidas necessárias”, informa o defensor.

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